"Isto é imoral": juiz sueco analisa rendimentos de Moro e colegas

Quanto vale, data venia, um juiz? A dúvida é tão dilacerante quanto a atual temporada sueca de degustação do surströmming, o arenque do Báltico fermentado que tem o inominável odor de mil esgotos destampados. Chamo um magistrado sueco em busca de algum bom senso, e tento explicar o inexplicável: no Brasil, digo a ele, juízes e procuradores da República descumprem a Constituição ao receber vencimentos que excedem esplendidamente o teto salarial permitido por lei, valendo-se de anabolizantes como auxílio-moradia, auxílio-alimentação e auxílio-saúde. “Isto é imoral”, diz o juiz Thed Adelswärd, especialista em ética jurídica.

Vídeo: na Suécia, vereadores e deputados regionais não têm direito a salário

No Brasil, os movimentos populares pela redução dos salários dos vereadores chegam a três cidades do Paraná - Londrina, Santo Antônio da Platina e Jacarezinho. Vale lembrar: na Suécia e em grande parte dos países do mundo, vereadores não recebem nenhum salário. Na Suécia, deputados regionais também não têm direito a salário: a nível municipal e regional, a representação política na Suécia é considerada uma atividade a ser exercida em paralelo a um emprego remunerado, de onde todo político deve tirar seu próprio sustento. ”Na Suécia, a função de vereador é considerada um trabalho voluntário”, diz Hanna Brogren, Diretora de Comunicação da Prefeitura de Estocolmo.

O escândalo da deputada sueca que pegou táxi em vez de tomar o trem

Ao cruzar a fronteira da imprudência, a deputada Mikaela Valtersson (Partido Verde, Miljöpartiet) virou notícia em vários jornais: Mikaela cometeu o desatino de gastar o dinheiro do contribuinte pegando táxi, em vez de tomar o trem. Segundo o jornal Expressen, a investigação das despesas da deputada mostrou que em 2011 ela pegou táxi 43 vezes durante um período de seis meses, ”a um custo de 17 mil coroas (cerca de 2,6 mil dólares) do dinheiro do contribuinte, apesar de morar perto de uma estação de trem”. Políticos e juízes suecos não têm o exótico privilégio de circular em carros com motorista pagos com o dinheiro do cidadão: aos parlamentares apenas, dá-se a regalia de receber um cartão anual para viajar gratuitamente nos transportes públicos. ”O Presidente do Parlamento também vem de metrô para o trabalho”, diz Maria Skuldt, da Secretaria de Imprensa do Parlamento.

O escândalo do apartamento funcional do político sueco

Na Suécia, o erário paga apartamentos funcionais exclusivamente para parlamentares: se a esposa de um deputado do interior decide viver no apartamento funcional da capital com o marido, cabe a ela arcar com a metade do valor do aluguel. ”É claro que não pagamos para ninguém morar de graça, a não ser os parlamentares com base eleitoral fora da capital”, diz Anna Aspegren, a chefe do setor no Parlamento sueco. A cônjuges de deputados, familiares, namorados e afins, é negado o benefício de morar ou até mesmo pernoitar em propriedade do Estado sem pagar. Em 2011, o líder do Partido Social-Democrata, Håkan Julholt, sapateou nas regras. E enfrentou as consequências.

Juiz sueco: "É inacreditável que juízes brasileiros tenham o descaramento de se auto-conceder benefícios como auxílio-alimentação"

Ab ovo, desde o princípio dos tempos ditos civilizados, quid latine dictum sit altum sonatur, tudo que é dito em latim soa profundo nas egrégias Cortes da Justiça. Mas hic et nunc, neste instante, os linguistas mais perplexos com os atos de auto-caridade praticados pelo Judiciário do Brasil já estarão se perguntando, data venia, se não é chegada a hora de ampliar a definição do conceito de pornografia nos dicionários brasileiros. "É absolutamente inacreditável que juízes tenham o descaramento e a audácia de serem tão egocêntricos e egoístas a ponto de buscar benefícios como auxílio-alimentação e auxílio-escola para seus filhos. Nunca ouvi falar de nenhum outro país onde juízes tenham feito uso de sua posição a este nível para beneficiar a si próprios e enriquecer”, diz Göran Lambertz, um dos 16 juízes da Suprema Corte da Suécia.

Como vive uma faxineira na Suécia

A polonesa Beata Romanowicz é a minha ajudante providencial das faxinas quinzenais, mas nem sempre está a postos. Nos finais de semana, ela costuma desaparecer como um Aécio em dia de manifestação pró-impeachment. É quando Beata e o marido, o pedreiro Jacek, saem para passear no arquipélago sueco a bordo do barco do casal, um confortável Bayliner americano de dez metros de comprimento. Nos dias em que vem trabalhar, ela chega em minha casa ao volante de um BMW conversível. Mas como qualquer habitante desta terra gelada, Beata também sofre de uma aguda síndrome de girassol que a faz jogar-se em um vôo promocional para destinos ensolarados, a cada vez que os termômetros caem demais e o orçamento permite. Em janeiro, auge do inverno sueco, ela escapou para a ilha espanhola de Tenerife ao lado do marido.

A Suécia e o fim do dinheiro de papel: é a nova era da Cashless Society

“Não aceitamos dinheiro”, diz o caixa da loja de acessórios de computador no centro da capital sueca, Estocolmo. Ele me olha com certo espanto, como se meu gesto de tirar dinheiro vivo da carteira já tivesse sido fossilizado em algum museu de cera como memória de um passado selvagem. É o princípio da era da Cashless Society, a Sociedade Sem Dinheiro, e a Suécia lidera a tendência no planeta: quatro entre cada cinco transações de compra no país são feitas hoje eletronicamente, ou através de cartões.

Da escola ao Parlamento: mídias sociais ajudam a baixar faixa etária de políticos na Suécia

Quando a TV sueca anuncia uma entrevista com a pessoa que acaba de ser escolhida para liderar o partido Democrata-Cristão (Kristdemokraterna), surge no estúdio uma figura improvável para os padrões usuais de liderança política: Ebba Busch Thor acaba de completar 28 anos de idade, e exibe a imensa barriga de gravidez do bebê que dará à luz em maio. A ascensão dos jovens aos círculos seletos da política sueca atinge um inédito recorde - a média etária dos políticos suecos nunca foi tão baixa, e dois ministros do governo sequer completaram 30 anos de idade. Entre os líderes partidários, a média de idade é de 42 anos. Tanto entre os membros do governo como no Parlamento, o índice é de 45,5 anos.

Como era a vida de um deputado sueco até o ano 2000: sofá-cama no gabinete e roupa lavada na pia

A deputada sueca Eva Flyborg conta como era a vida dos parlamentares, nos tempos em que apartamentos funcionais nem existiam na Suécia: "O escritório era pequeno, tinha cerca de 10 metros quadrados. Havia um banheiro bem pequenino, uma máquina de café, uma torradeira, e isso era tudo. Tínhamos que lavar os pratos e as roupas na pia do banheiro. No subsolo havia uma lavanderia coletiva, que poderia ser usada caso não estivesse ocupada por alguns dos outros mais de 300 deputados. Então eu pendurava as roupas nas cadeiras do gabinete, no computador, no abajur. De manhã, quando estavam secas, era só recolher. A decisão de criar apartamentos funcionais para deputados só foi tomada com base na obediência a normas legais de segurança contra incêndio. Do contrário, ainda estaríamos vivendo em nossos escritórios.”

Como são os apartamentos funcionais dos políticos na Suécia

Se um sueco de virtudes negociáveis é assaltado pelo desejo súbito de trabalhar pelo povo, o apartamento funcional não será um dos estímulos a seduzi-lo, como serpente encantada, para a carreira política. Parlamentares suecos vivem em apartamentos funcionais que têm em média 45,6 metros quadrados. Os menores têm 16,6 metros quadrados. Do total de 197 imóveis administrados pelo Parlamento sueco, apenas oito dispõem de espaço entre 70 e 90 metros quadrados, e somente 85 têm área superior a 45,6 metros quadrados. Deputados suecos também vivem em quitinetes funcionais. Sim, há quitinetes funcionais na Suécia.

Vídeo: Como vive um juiz da Suprema Corte da Suécia

“Não almoço às custas do dinheiro do contribuinte”, diz um dos juízes da Suprema Corte da Suécia, Göran Lambertz, quando pergunto a ele se magistrados suecos têm direito a benefícios como auxílio-alimentação. Nenhum juiz sueco têm direito a auxílio-moradia, auxílio-saúde, auxílio-alimentação, abono de permanência, prêmios, gratificações extras ou carro oficial com motorista. “Luxo pago com dinheiro do contribuinte é imoral”, rebate Lambertz, que todo dia pedala até a estação ferroviária e pega um trem para o trabalho - na instância suprema do Poder Judiciário.

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