Suécia: eleições devem confirmar avanço de partido da extrema-direita e anti-imigração

Claudia Wallin, de Estocolmo para a Rádio França Internacional

A dois dias das eleições gerais da Suécia, pesquisas de opinião apontam que o Partido Social-Democrata, que tem dominado a política sueca desde a década de 30, deverá amargar o pior resultado eleitoral da história democrática do país. E a extrema-direita avança: o partido anti-imigração Democratas da Suécia, que tem raízes no movimento neonazista, caminha para se tornar a segunda maior força política da nação.

O risco enfrentado pela social-democracia sueca é, à primeira vista, pouco compreensível: após quatro anos de governo do premier social-democrata Stefan Löfven, o índice de desemprego no país é o menor dos últimos dez anos, o crescimento econômico é robusto, e as finanças públicas estão mais fortes do que nunca.

Mas apesar dos elevados índices de qualidade de vida, as pesquisas indicam que grande parte do eleitorado sueco se preocupa com o crescimento da imigração e o desafio da integração dos imigrantes, que chegaram ao país em número recorde a partir da crise de refugiados de 2015. E é com base nessas preocupações difusas que os extremistas do partido Democratas da Suécia têm capitalizado a inquietação popular.

Na pacata Suécia, cenas de tiroteios entre gangues criminosas e carros incendiados nos subúrbios menos favorecidos, além de denúncias de estupros e ataques esporádicos com granada a delegacias de polícia, levam a questão da integração e da segregação ao centro do debate político. E alarmam uma parcela da população, tradicionalmente pouco habituada a manchetes policiais: em 2017, segundo levantamento realizado pela TV pública SVT, a violência entre gangues rivais nos subúrbios suecos, marcados pela segregação e pelo alto índice de desemprego entre imigrantes, resultou em um total de 320 tiroteios, que deixaram 42 mortos e 140 feridos.

No eixo oposto da polarização que se produz no país, uma significativa parte do eleitorado sueco mobiliza-se contra os perigos da xenofobia e do abandono dos ideais de solidariedade, e alerta para as graves consequências que as políticas preconizadas pelos extremistas podem representar para o futuro da democracia sueca. O principal desafio a ser enfrentado, na visão desses eleitores, é a adoção de uma política de integração efetiva dos imigrantes à sociedade sueca, com a ampliação de oportunidades de educação e emprego que ofereçam – especialmente para os jovens – novos horizontes fora da criminalidade.

Entre os grupos opostos, segundo as sondagens, também aparecem no centro das preocupações do eleitorado as deficiências do sistema de saúde, particularmente as filas de espera para cirurgias e tratamentos de câncer. Nas últimas eleições, em 2014, a educação e a melhoria das escolas foi o principal problema citado pelos suecos nas sondagens.

Previsões

Todas as pesquisas confirmam um novo salto dos extremistas de direita no cenário político sueco. Segundo o site Val.digital, que faz uma média atualizada das pesquisas conduzidas pelos principais institutos de sondagens, os Democratas da Suécia contam com 19,6% das intenções de voto, pouco abaixo dos social-democratas (24,1%) e acima do conservador Partido Moderado (17,8%) – que tem sido historicamente a segunda maior força política da Suécia. Algumas sondagens sugerem uma ligeira queda dos extremistas, nesta reta final das eleições.

Já um dos institutos de pesquisa, YouGov, chegou a posicionar o Democratas da Suécia em primeiro lugar na preferência do eleitorado esta semana, com 24,8% das intenções de voto – contra 23,8% dos social-democratas, e 16,5% do Partido Moderado. Nas eleições de 2014, os extremistas conquistaram 12,9% dos votos.

“Nunca antes, na história moderna da Suécia, a política sofreu mudanças tão rápidas e profundas como nos últimos anos”, destacou o comentarista político Mats Knutson, da TV pública sueca SVT.

Marginalizado pelos políticos dos partidos tradicionais – que em sua maioria se recusam a dialogar com os extremistas -, o líder do Democratas da Suécia, Jimmie Åkesson, costurou nos últimos tempos uma estratégia destinada a tornar o partido mais palatável aos olhos do eleitorado: elevou o tom de sua agenda de propostas para além do foco na imigração, passou a capitanear questões como a melhoria de vida dos aposentados, e expulsou das fileiras do partido militantes abertamente xenófobos e antissemitas.

A se confirmarem as denúncias, Åkesson deverá ser obrigado a fazer uma faxina recorrente: reportagem recente da revista sueca Expo contabilizou 215 ocorrências de racismo e intolerância entre membros do Democratas – uma média de um caso por semana, em um período de quatro anos.

Mas a nova cartilha do Democratas tem funcionado. E o crescimento vertiginoso dos extremistas de direita, desde a sua estréia no Parlamento sueco em 2010 – quando o partido obteve 5,7% dos votos -, provocou agora um reposicionamento da agenda política das maiores agremiações do país. Na campanha eleitoral deste ano, a bandeira da lei e da ordem, a necessidade do aumento das forças policiais para garantir a segurança pública e a defesa de uma política de imigração mais restritiva passaram a figurar entre as prioridades políticas tanto do partido Social-Democrata como do Partido Moderado.

O líder do Democratas da Suécia, Jimmie Åkesson

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na opinião de alguns analistas citados pela imprensa sueca, esta guinada dos social-democratas para o centro, com o endurecimento da política de imigração praticada pelo governo a partir de meados de 2016, explicaria a perda de apoio ao partido também por parte de eleitores da própria esquerda.

De acordo com os números da agência sueca de estatísticas (Statistiska centralbyrån), a Suécia, que tem uma população de 10 milhões de habitantes, recebeu 400.000 imigrantes entre 2015 e 2017. Na soma total, os imigrantes compõem atualmente 18,5% da população sueca.

Para muitos suecos, a chegada dos imigrantes a um país que tem o segundo maior percentual de idosos do mundo – atrás apenas do Japão – representa não um problema, e sim uma solução. A palavra da hora, para esta parcela do eleitorado, é integração.

Muitos também têm sido seduzidos, entretanto, pela retórica nacionalista de Jimmie Åkesson. O Democratas da Suécia vem drenando votos principalmente do Partido Moderado, mas também dos social-democratas. Entre os eleitores tradicionais da social-democracia, grupos de trabalhadores e aposentados, por exemplo, agora acusam o primeiro-ministro Stefan Löfven de comprometer o futuro do seu Estado de bem-estar social, ao receber um número recorde de refugiados no país.

Quiosque da campanha do Democratas da Suécia, no centro de Estocolmo

 

 

 

Resultado da eleição permanece uma incógnita

A 48 horas das eleições, ninguém tem a mínima ideia de quem será o próximo primeiro-ministro do país. Pelas projeções da maioria das pesquisas, o Partido Social-Democrata deve permanecer como a maior sigla da Suécia – embora com uma perda histórica de apoio popular. Se confirmadas as previsões, será o pior resultado eleitoral do partido Social-Democrata desde a introdução do voto universal e da transformação da Suécia em uma democracia plena, há quase cem anos.

“O melhor resultado eleitoral dos social-democratas ocorreu em 1943, quando 53,8% dos eleitores votaram no partido. Hoje, o partido deverá ficar satisfeito se conseguir obter pelo menos metade desse percentual”, diz a comentarista Lena Mellin, que assina no jornal Aftonbladet uma das mais lidas colunas políticas do país.

O fato é que o apoio ao partido Social-Democrata sueco vem caindo gradativamente ao longo dos anos. O pior resultado eleitoral até aqui foi registrado em 2010, quando 30,7% dos eleitores votaram na sigla.

Mas mesmo uma derrota histórica não significa que Stefan Löfven seja obrigado a deixar o cargo de primeiro-ministro. Afinal, seu principal rival e concorrente ao posto de premier, o conservador Ulf Kristersson (líder do Partido Moderado), também patina nas intenções de voto. A diferença entre o apoio ao bloco de esquerda (composto pelos partidos Social-democrata, Verde e de Esquerda) e a aliança de centro-direita (formada pelos partidos Moderado, Liberal, de Centro e Democrata Cristão) é apenas marginal, na casa do 1%. O resultado pode ser um impasse – e os dois blocos rejeitam qualquer colaboração com a extrema-direita.

Nestes últimos dias de campanha, o premier Löfven espera angariar maior apoio com a recente promessa de dar cinco dias extras de licença paga por ano a pais de filhos entre quatro e 16 anos de idade.

Os prognósticos são pessimistas: a Suécia deverá sair das eleições com um governo fraco e minoritário. Como destacam os analistas, o quadro final do pleito será decidido pelos 335 mil eleitores ainda indecisos – que contabilizam 5% do total do eleitorado. Neste sábado, a TV4 da Suécia exibe o último duelo entre Stefan Löfven e Ulf Kristersson.

7 de Setembro de 2018

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