Na eleição sueca, deputado que gasta demais com táxi perde candidatura

Claudia Wallin, de Estocolmo para a Rádio França Internacional

Na singular democracia sueca, onde políticos não têm direito a carro com motorista, pegar um táxi ou alugar um veículo com o dinheiro do contribuinte – em vez de tomar o trem – é motivo suficiente para enterrar a carreira de um deputado. Às vésperas das eleições gerais de domingo na Suécia, três parlamentares de diferentes partidos foram obrigados a renunciar às suas candidaturas, após revelações de que descumpriram as regras que priorizam o uso do transporte público por todos os políticos do Parlamento.

Entre as vítimas está o deputado Michael Svensson, do conservador Partido Moderado – a segunda maior força política do país. Nos últimos quatro anos, Svensson violou as normas ao cobrar do Parlamento o ressarcimento de pelo menos 15 mil coroas suecas (aproximadamente 6,800 reais) que gastou com aluguel de carros durante visitas a diferentes regiões na Suécia – em datas nas quais ele se encontrava, na verdade, no exterior. 

A denúncia foi feita pelo jornal sueco Aftonbladet, que conduziu uma varredura nas prestações de contas de todos os membros do Parlamento. 

Nas contas do deputado, ele calcula ter cobrado indevidamente o Parlamento por viagens pessoais no valor de 4 mil coroas, e não 15 mil.

“Ao mesmo tempo, posso dizer que 4.000 coroas é muito dinheiro. Mil coroas já seria muito”, disse Svensson em coletiva à imprensa. “Não fui cuidadoso nas prestações de contas, mas não fiz isso de maneira consciente. Não sujaria meu nome por 4.000 coroas”, ele jurou.

Svensson procurou o Parlamento para retificar as informações acerca do pedido de ressarcimento das viagens que realizou, e pagar de volta aos cofres públicos o dinheiro recebido indevidamente.

Em seguida, o deputado anunciou a renúncia à sua candidatura. E também o fim da sua carreira política.

“Infelizmente, ao agir de maneira errônea, eu contribuí para suscitar o desprezo dos cidadãos por políticos”, admitiu Svensson, afirmando lamentar profundamente o que fez.

Questionado sobre o que levou a abandonar de vez a política, Svensson pontuou:

“Senti que a minha imagem pública foi fortemente manchada.”

“O que você vai fazer agora, deputado?”, perguntou a ele um repórter. Na Suécia, deputados são chamados pelo pronome de tratamento “você”.

“Vou começar a pensar no que vou fazer com o resto da minha vida”, respondeu o agora ex-parlamentar, de 61 anos.

Táxi derruba candidatura de deputado

Outra vítima produzida esta semana pela varredura das contas dos parlamentares foi Stefan Jakobsson, do partido anti-imigração Democratas da Suécia: o deputado cometeu o desatino de gastar um total de 330 mil coroas (cerca de 150 mil reais) com corridas de táxi, nos últimos quatro anos.

“Jakobsson fez os contribuintes pagarem por suas viagens de táxi privadas”, estampou o jornal Aftonbladet em sua manchete. 

Assim como todos os parlamentares suecos, Jakobsson recebe um cartão anual para usar gratuitamente os transportes públicos. Mesmo assim, ele escolheu usar o táxi para percorrer os 13 quilômetros de distância entre sua casa e o Parlamento. E fez isso em mais de cem ocasiões. O deputado também usou o táxi para visitar amigos, e fazer pequenas viagens.

Na improvável tentativa de se defender perante o eleitorado sueco, o deputado argumentou que não conhecia suficientemente as regras, e que como não era de Estocolmo, não conhecia bem o sistema de transportes.

“Mas você poderia ter usado o táxi com seu próprio dinheiro, como fazem todos os cidadãos”, retrucou o repórter do Aftonbladet.

Como lembrou o jornal, membros do Parlamento sueco têm direito de usar táxi apenas quando não é possível usar os meios públicos de transporte. Ou quando há alguma razão especial para usar o táxi, em vez de tomar o trem.

Em alguns casos, por razões de segurança, a administração do Parlamento pode recomendar o uso do táxi para o transporte de parlamentares. Mas este não parece ter sido o caso de Jakobsson.

No ano passado, o setor de administração do Parlamento sueco chegou a descontar do salário de Jakobsson o valor de cerca de 20 viagens de táxi feitas pelo parlamentar, por considerar que violavam as regras permitidas. 

Após as revelações do Aftonblabet, o próprio Stefan Jakobsson contactou o Parlamento a fim de prestar informações sobre corridas de táxi feitas por ele com fins privados, “a fim de que o valor correspondente seja descontado do salário”.

O deputado também postou um pedido de desculpas em sua página no Facebook, dizendo que não foi cuidadoso com suas despesas de táxi pessoais. Também disse compreender a indignação dos cidadãos, diante dos altos custos de optar pelo táxi em vez de usar os transportes públicos.

Em seguida, anunciou a sua renúncia. 

“É sempre minha intenção fazer as coisas de maneira correta, e corrigir meus atos sempre que cometo erros. Mas as acusações e suspeitas dirigidas agora contra mim dificultam as chances de meu partido vencer as eleições de 9 de setembro”, escreveu o deputado em um comunicado à imprensa, ao anunciar a renúncia à sua candidatura.

O deputado Michael Svensson

Stefan Jakobsson era o porta-voz do partido Democratas da Suécia para assuntos de educação, e uma das principais lideranças da sigla de extrema direita. Mas a retirada da candidatura do deputado foi aplaudida pelo próprio líder partido, Jimmie Åkesson.

“Foi uma decisão sábia”, disse Åkesson à agência de notícias sueca TT. “Ele agiu de maneira incorreta. E é bom que a denúncia tenha sido feita antes das eleições, para que a candidatura possa ter sido retirada a tempo”.

“Compreendo perfeitamente que o eleitor esteja totalmente desapontado com um deputado que cometeu o mesmo erro várias vezes”, acrescentou o líder do partido.

O deputado Stefan Jakobsson

A terceira vítima da atual campanha eleitoral foi Penilla Gunther, do partido Democrata Cristão (KD): ao verificar as prestações de contas da deputada, o jornal Aftonbladet descobriu que ela pediu ressarcimento pelo aluguel de carros para fazer diversas viagens pessoais, durante seus quatro anos de mandato.

“Em uma das ocasiões, Penilla Gunther alugou um carro para retornar com a família de um parque de diversões em Estocolmo para sua casa na cidade de Trollhättan, e os contribuintes suecos tiveram que pagar a conta de 4.000 coroas (aproximadamente 1.800 reais)”, denunciou o Aftonbladet.

O resultado: a deputada não apenas retirou sua candidatura à reeleição, como deixou de imediato suas funções no Parlamento.

“Peço desculpas por ter errado”, disse a deputada em comunicado à imprensa. “Aguardo uma resposta definitiva do setor de administração do Parlamento sobre quais viagens devem ser descontadas de meu salário. Mas retiro imediatamente minha candidatura ao Parlamento. E prometo pagar o que devo.”

7 de Setembro de 2018

A deputada Pernilla Gunther

 

 

 

 

 

198 respostas
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  1. Alcides Flórido
    Alcides Flórido says:

    Já que foi aprovada a terceirização, vamos terceirizar o supremo, e contratar uns juízes suecos, vão produzir por um custo infinitamente menor.

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  2. Sonia Carneiro Monteiro
    Sonia Carneiro Monteiro says:

    Que exemplo e primeiro mundo, de consciência do dinheiro do contribuinte, aqui, ao contrário, andam em seus carros luxuosos, andam com suas chaves à mostra nas mãos para defenderem os seus Status com a verba retirada de todos nós sem cerimônia.

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  3. Sergio Nunes
    Sergio Nunes says:

    O problema é que esse pessoal tão honesto e correto em
    Seu país , quando chega no Brasil faz barbaridades. Sei de coisas sinistras que acontecem em certa empresa sueca em Curitiba.

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  4. Edson Xavier
    Edson Xavier says:

    so podia ser na suecia.como seria lindo se o brasil seguisse esse exemplo.mas infelizmente e uma utopia!!!

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  5. Enio Silva
    Enio Silva says:

    O Brasil é o país dos privilégios para os servidores públicos. O servidor público brasileiro ganha, em média, 67% mais do que os trabalhadores de perfil semelhante no setor privado. O padrão mundial é de 16%. A isso se soma a estabilidade no emprego e, na maioria dos casos, aposentadorias com o último salário em atividade. No Judiciário e no Ministério Público, as férias são de 60 dias.

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    • Doralice Cinegaglia
      Doralice Cinegaglia says:

      Acho que quando se fala do salário dos funcionários públicos, não deveria ser de maneira tão genérica, sou funcionária pública Municipal na área administrativa e tenho um salário de R$ 1.400,00 mês.

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    • Wendell Moreira
      Wendell Moreira says:

      Não podemos generalizar, sou funcionário público e não ganho 67% a mais que um equivalente do setor privado… Além de que o setor privado paga tantos impostos que não consegue pagar um salário maior… É uma questão complicada para tratar de forma simplista

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  6. Ailson Felipe
    Ailson Felipe says:

    O Bolsonaro e outros políticos brasileiros estão precisando de umas aulinhas com os nobres suecos, civilização humana e avançada!!!

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  7. Eduardo Maia
    Eduardo Maia says:

    Olá, sou candidato a Deputado Federal pelo DF e quero implementar o modelo Sueco no Brasil. Inspirado pelas reportagens da Claudia Wallim. Quem quiser me conhecer acesse @eduardocustozero aqui no Facebook. Obrigado

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    • Ruy Ely
      Ruy Ely says:

      Ailson Felipe melhor mesmo são os indiciados na lava jato. Pense antes de postar. Mais um militonto?

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  8. Oneas Pinheiro
    Oneas Pinheiro says:

    Alguém já viu algum presidenciável , seja de direita , esquerda ou algum parlamentar lutar para extinguir mordomias?

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  9. Marcio Fernando
    Marcio Fernando says:

    e um montes de hipócritas de plantão só sabem criticar programas sociais no Brasil ao invés de fiscaliza–los e aperfeiçoa- los.

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    • Wenzel Almeida
      Wenzel Almeida says:

      Verdade cidadão….que bom seria se o Brasil tivesse um pouco desse respeito que a sociedade sueca têm com o dinheiro público

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  10. Dulce Vieira De Sena Vieira de Sena
    Dulce Vieira De Sena Vieira de Sena says:

    Os brasileiros só acham isso lindo na Suécia, Alemanha, Aqui o vereador do RJ pelo Psol Babá faz isso. Perdeu as eleições. O Olívio Dutra do PT também era assim. Olívio nunca foi valorizado nem dentro do PT. Lá alunos recebem bolsa escola brasileiro acha lindo. Aqui eles detestam.

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  11. Luciene Tomazine
    Luciene Tomazine says:

    “foram obrigados” por quem? no Brasil não há um judiciário sério, muito pelo contrário, há uma nobreza travestida de Judiciário que mantém os privilégios dos ricos para manter os seus também.

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    • Claudiomar Roos
      Claudiomar Roos says:

      Eder Nascimento Pois é, outros com outra legião de vassalos de camiseta vermelha, lutando pra tirar da prisão e fazer presidente um condenado por corrupção … outros elegem um Tiririca da vida(cujo lema era “pior que tá, não vai ficar”…. ficou)… difícil chegar a um governo de excelência….

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    • Luciene Tomazine
      Luciene Tomazine says:

      Nazaré Almeida é minha opinião mas não é minha satisfação. Faço essa constatação de acordo com os fatos que estamos vendo pela mídia, só que indignada , com certeza preferiria estar enganada ☹

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    • Lorena Aprígio
      Lorena Aprígio says:

      Não sei pq vcs gastam energia com casos pontuais de políticos no Brasil, dando o exemplo desse ou daquele. Tá muita coisa errada sem direito a destacar uma pior. Simplesmente porque o problema é de sistema, como a própria reportagem mostrou.

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    • Ole Peter Smith
      Ole Peter Smith says:

      Sei por fato que dinamarca mantem imunidade parlamentar, desconfio que suecia tmbm. So que ninguem se atreva usar…

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    • Francisco Silva Silva
      Francisco Silva Silva says:

      Já falei uma vez e vou falar novamente, para começar a mudar tudo isso basta se por na lei que com a mesma quantidade de votos que um político for eleito mais um voto ele será cassado. Por exemplo: foi eleito com 5000 votos, com com 5001 ele será cassado se cometer algum ato ilegal.

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    • Job Diógenes Ribeiro Borges
      Job Diógenes Ribeiro Borges says:

      Claudiomar Roos pois é meu caro, o nosso judiciário além de mundialmente conhecido por seus ganhos inescrupulosos é também conhecido pela falta de seriedade, prender inocentes e soltar criminosos cheios de provas. Lula é reconhecido mundialmente como preso político.

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  12. Carlos Magno Almeida
    Carlos Magno Almeida says:

    Nevertheless, com todas as regras e restrições e em que pese o propalado respeito dos suecos à liberdade, os políticos anti imigração deverão avançar nas eleições.

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    • Danilo Oliveira
      Danilo Oliveira says:

      Maria Mota, é um dos assuntos mais citados pelo João Amoêdo e está no seu plano de governo. De uma olhada

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    • Anna Silva Ferreira
      Anna Silva Ferreira says:

      Danilo Oliveira e isso mesmo, mas com diz as pessoas ele nao tem chance de ganhar, mas votam nos mesmo corruptos de sempre vai entende o povo.

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    • Anna Silva Ferreira
      Anna Silva Ferreira says:

      Joao Amoedo 30, o unico que que corta previlegios politicos, vamos fazer a mudança acontece votando em que fazer fazer mudança.

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    • Marineide de Sá
      Marineide de Sá says:

      Maria Mota João Amoedo fala é muito em cortar privilégios mas ninguém se interessa ficam aí nessa pira com o Bolsonaro que tem a família inteira na política.

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