O shopping center da Suécia que só vende produtos reciclados e tem até drive-thru de doações

Claudia Wallin, de Estocolmo para a BBC Brasil

Nesta nova era de valorização do consumo consciente e responsável, nasce na Suécia um modelo futurista de shopping center: um centro comercial dedicado exclusivamente à venda de produtos reciclados. Com uma área de cinco mil metros quadrados, o ReTuna Återbruksgalleria já é um êxito na cidade de Eskilstuna, situada a cerca de cem quilômetros da capital sueca, Estocolmo.

“Seu lixo é o tesouro de outra pessoa”, diz o lema deste shopping center sustentável, onde os moradores de Eskilstuna podem deixar brinquedos, móveis e outros itens usados em um depósito onde nada é desperdiçado. Uma vez reparados e reprocessados nas oficinas do local, os artigos são vendidos na galeria do shopping –  que abriga lojas de bicicletas, computadores e telefones, roupas, materiais de construção, mobiliário, carrinhos de bebê, ferramentas de jardim e itens de decoração.

“Somos o primeiro shopping center do gênero na Suécia, e provavelmente do mundo”, diz à BBC Brasil a diretora do centro, Anna Bergström. A Suécia é um dos países que mais reciclam no mundo: 99% do lixo residencial é reaproveitado, sendo metade incinerada para produzir energia.

Mais do que apenas uma galeria comercial, o ReTuna é também um centro de educação, treinamento e conscientização em torno da sustentabilidade.

Ali são promovidas periodicamente palestras, workshops, conferências, festivais e dias temáticos – como por exemplo eventos especiais para trocas de roupas e brinquedos usados entre os cidadãos. No Café Returama, são servidos café e alimentos orgânicos.

Também nas dependências do shopping, a municipalidade de Eskilstuna promove cursos de aprendizagem em design sustentável para alunos do ensino secundário. Nestes cursos, que têm duração de um ano, os estudantes aprendem diferentes técnicas de reciclagem de materiais – como papel, metais, plástico, madeira, porcelana e tecidos -, e têm aulas de design direcionadas ao desenvolvimento de produtos sustentáveis.

O programa do curso inclui ainda aulas sobre o impacto da economia globalizada sobre a humanidade e a natureza, e como cada um pode contribuir para um mundo mais sustentável.

“Queremos ser uma plataforma de promoção da sustentabilidade. Nossa missão é reduzir o desperdício e servir o planeta”, diz a diretora do centro.

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Decisão política

A ideia de criar o shopping sustentável surgiu em 2007, a partir de debates e reuniões na Prefeitura de Eskilstuna.

“Temos grandes políticos, então esta foi uma decisão política”, conta Anna Bergström. A construção do shopping foi aprovada pelos vereadores em 2012, e em 2015 o ReTuna abriu as portas sob o gerenciamento da empresa pública de energia e meio ambiente EEM (Eskilstuna Energi och Miljö).

A novidade agradou os moradores – embora não tenha escapado de algumas críticas:

“Todos ficaram surpresos e admirados, e a reação tem sido majoritariamente muito positiva. Para alguns, no entanto, a ideia é de certa forma provocativa, pois ganhamos dinheiro a partir do lixo de outras pessoas. Às vezes algumas pessoas perguntam se podemos pagar algo pelos itens usados que elas trazem aqui para serem reciclados, ou se podem receber em troca pelo menos um café orgânico. Quando isso acontece, nossa resposta é simples: ‘Obrigado por sua contribuição para ajudar a salvar nosso planeta’”, diz Bergström.

A fim de facilitar a entrega de itens usados para reciclagem, como máquinas de lavar e computadores, o acesso ao depósito do shopping sustentável funciona no esquema “drive thru” – basta entrar ali com o veículo, descarregar os itens e sair rapidamente.

No depósito, os funcionários de uma empresa social da municipalidade fazem uma primeira seleção dos produtos usados, que são em seguida distribuídos às lojas do shopping para serem reparados e reprocessados.

“Doar produtos usados significa ajudar a criar uma nova consciência de consumo responsável e proteção do meio ambiente”, enfatiza a diretora.

E nem todas as 14 lojas do shopping estão interessadas em vantagens financeiras. A ReBuyke, por exemplo – que vende bicicletas, esquis e patins reciclados -, é uma empresa social que destina todo o lucro de suas vendas para programas que ajudam os desempregados da cidade a conseguir um novo trabalho.

É o mesmo caso da loja da entidade filantrópica Stockholms Stadsmission, que direciona o dinheiro da venda de móveis, roupas e itens de decoração para diferentes programas sociais.

Outra empresa social baseada no ReTuna é a AMA, a agência pública de Eskilstuna que só emprega portadores de deficiência. A loja da AMA vende portas, janelas, ferramentas, máquinas de lavar e materiais de construção reciclados – e seus funcionários são os responsáveis pela primeira triagem dos artigos usados que são despejados no depósito do shopping.

Economia Circular

O negócio está dando certo: em 2016, o ReTuna Återbruksgalleria vendeu um total de 8,1 milhões de coroas suecas (aproxidamente 3,1 milhões de reais) em itens reciclados. E o shopping sustentável já criou 50 novos empregos.

“É a economia circular em ação”, diz a diretora do shopping.

Na economia circular, o valor dos produtos e materiais é mantido pelo máximo tempo possível, preservando assim recursos que vão se tornando cada vez mais escassos. Em outras palavras, tudo o que é produzido pode ser reaproveitado e reciclado, em vez de virar lixo.

É uma proposta que torna a economia dos países mais sustentável, e também mais competitiva – e que por isso chama a atenção do setor produtivo e dos governos de diversos países.

Em dezembro de 2015, a Comissão Européia lançou um pacote de medidas para apoiar a transição dos países do bloco europeu para uma economia circular. Nas contas do órgão executivo da União Européia, iniciativas como a redução do desperdício, o ecodesign e a reutilização de produtos podem resultar em uma economia de 600 bilhões de euros para os negócios europeus (ou 8% do faturamento anual), assim como na redução anual de gases de efeito estufa da ordem de 2 a 4%.

E cada vez mais, os consumidores começam a valorizar as empresas sustentáveis.

Já na década de 90, a Agenda 21 Global, assinada na conferência Rio 92, assinalou em seu Capítulo 4 o papel exercido pelo consumo como causador de diferentes impactos ambientais e sociais.

Conforme a definição do Ministério do Meio Ambiente brasileiro, o Consumo Sustentável envolve a escolha de produtos que utilizaram menos recursos naturais em sua produção, que garantiram o emprego decente aos que os produziram, e que serão facilmente reaproveitados ou reciclados. Significa comprar aquilo que é realmente necessário, estendendo a vida útil dos produtos tanto quanto possível.

Assim, o consumo sustentável se faz quando as escolhas de compra do consumidor são conscientes e responsáveis, com a compreensão de que terão consequências ambientais e sociais – positivas ou negativas.

“Pare de comprar sem pensar”, aconselha a diretora do ReTuna Återbruksgalleria, Anna Bergström:

“Se o Brasil e outros países se empenharem na implementação de  iniciativas semelhantes à do ReTuna e no consumo consciente, estaremos mais perto de um futuro sustentável”.

13 de Novembro de 2017

Veja também: Não ao desperdício: Dinamarca inaugura supermercado que só vende alimentos ‘vencidos’

 

168 respostas
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