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Escândalos e crise na Academia Sueca do Nobel

Claudia Wallin, de Estocolmo para a Rádio França Internacional

A Academia Sueca, responsável pela escolha anual do Prêmio Nobel de Literatura, vive a maior crise da  história da instituição. A secretária permanente Sara Danius e mais uma integrante da Academia anunciaram sua renúncia na noite de quinta-feira (12), em meio a uma grave disputa interna que já havia provocado o afastamento de três membros e que desafia a credibilidade da organização: um em cada três suecos defende a substituição de todos os membros da Academia Sueca.

“Minha saída do cargo de secretária permanente foi um desejo da Academia. Assim, decido também deixar meu assento na instituição, a cadeira de número sete na Academia”, declarou Sara Danius, ao final de uma reunião da entidade que durou mais de três horas. Ela não quis comentar se sua renúncia da liderança da Academia Sueca foi resultado de uma votação entre os membros da instituição, como se especulara durante o dia.

Em seguida ao pronunciamento de Danius, foi anunciada a renúncia do pivô da crise – a poeta Katarina Frostenson.

A crise que abala a Academia Sueca tem elementos de um enredo de ficção literária: acusações de assédio sexual, assassinato de reputações, suposta corrupção e vazamento de informações. No centro da disputa estava a permanência de Katarina Frostenson na Academia, depois de acusações de que seu marido, uma personalidade da cena cultural sueca, teria praticado crimes sexuais e também vazado nomes de vencedores do Prêmio Nobel.

Após o anúncio da renúncia da secretária permanente, circularam nas mídias sociais suecas críticas ao fato de que Sara Danius, a primeira mulher a liderar a Academia Sueca desde a sua fundação em 1786, foi forçada a deixar o cargo por ter enfrentado um escândalo provocado por um homem, em uma renúncia que teria sido orquestrada pela maioria de homens da instituição: agora, restam apenas três mulheres na Academia Sueca. Sara Danius havia assumido o posto de secretária permanente em 2015.

Em assembléia realizada na semana passada, seis membros da Academia haviam votado a favor da expulsão de Katarina Frostenson, mas uma maioria de oito integrantes votou contra a proposta. O resultado provocou uma profunda divisão na instituição, e abriu uma crise que ocupa diariamente as manchetes dos principais veículos de comunicação da Suécia.

Em protesto contra a permanência de Frostenson, três membros renunciaram a seus assentos na Academia.

“A amizade foi colocada à frente da integridade”, acusou o escritor Kjell Espmark, ao anunciar seu afastamento na semana passada após o fracasso da tentativa de excluir Katarina Frostenson da Academia.

Em resposta, os membros que votaram a favor da permanência de Katarina Frostenson publicaram uma carta aberta no jornal Svenska Dagbladet, na qual afirmaram que não havia razões suficientes para uma medida extrema como a expulsão de um de seus integrantes, cujos assentos na Academia são vitalícios. Frostenson ingressou na Academia em 1992.

“A exclusão de um integrante é uma medida excepcional que só foi adotada uma vez na história da Academia, em 1794, quando um membro da instituição havia sido condenado à morte por conspiração”, disse um trecho da carta.

Diante do embate, o rei Carl Gustaf XVI, patrono da Academia, chegou a convocar uma reunião com a secretária permanente da instituição, Sara Danius – que havia votado a favor da expulsão de Katarina Frostenson.

O racha interno na Academia foi exposto de maneira ainda mais crua no início da semana com a publicação de outra carta aberta no jornal Expressen, em que Horace Engdahl, ex-secretário permanente da instituição, não apenas acusou Sara Danius de empreender uma desesperada luta pelo poder, como afirmou que ela é a pior líder que a Academia já teve desde a sua fundação.

“Esta é a coisa mais falsa e escandalosa que já li em toda a minha vida”, reagiu o escritor Kjell Espmark. “Não resta nenhuma honra no corpo deste homem (Horace Engdahl)”, acrescentou ele.

A essa altura, a ministra sueca da Educação Secundária comparou o comportamento dos membros da Academia ao de colegiais em um pátio de escola.

Pivô da crise

A crise teve origem nas denúncias publicadas em novembro passado contra o marido de Katarina Frostenson, o produtor cultural Jean-Claude Arnault, em meio à onda de denúncias de assédios sexuais do movimento #MeToo. Dono do centro cultural privado Forum – considerado a porta de entrada da vida cultural sueca -, Arnault foi acusado de 18 casos de abuso sexual que teriam ocorrido entre 1996 e 2017. Os delitos teriam sido cometidos inclusive em apartamentos de propriedade da Academia Sueca em Paris e Estocolmo. As vítimas seriam escritoras em ascensão e ex-funcionárias do centro cultural. Arnault nega todas as acusações.

Deflagrado o escândalo, Jean-Claude Arnault teve sua entrada proibida na cerimônia de entrega do Nobel de Literatura em dezembro passado. A Academia também decidiu suspender seu apoio financeiro ao centro cultural, que é de propriedade conjunta de Arnault e Katarina Frostenson. Além de nomear o vencedor do Nobel de Literatura, a Academia Sueca também oferece bolsas e patrocínios na área cultural, no valor total  de três milhões de dólares por ano.

Na terça-feira, surgiu ainda na imprensa sueca a denúncia de que o marido da integrante da Academia teria vazado os nomes de sete vencedores do Nobel de Literatura – entre eles o do compositor americano Bob Dylan, que recebeu o prêmio em 2016.

Investigações

A polícia abriu uma investigação preliminar em dezembro contra as acusações de assédio sexual. Em seguida, Sara Danius contratou um escritório de advocacia para investigar os vínculos do produtor cultural com a Academia, a fim de determinar se ele teve alguma influência, direta ou indireta, na atribuição de premiações, bolsas ou financiamentos disponibilizados pela instituição.

Segundo a então secretária permanente da Academia, a investigação concluiu que Jean-Claude Arnault não teve influência nas premiações da Academia, embora ele tenha de fato violado a confidencialidade de informações sobre os nomes dos vencedores do Nobel de Literatura em diversas ocasiões. Além disso, a investigação indicou que, ao conceder apoio financeiro ao centro cultural, a Academia estava efetivamente beneficiando Katarina Frostenson – uma das donas do Forum.

“Quebramos nossas próprias regras”, dissera Sara Danius.

No entanto, nenhuma denúncia foi apresentada contra a poeta Katarina Frostenson, que tem se mantido em silêncio.

Na quarta-feira, uma pesquisa de opinião realizada pelo instituto Novus apontou que 62 por cento dos suecos acreditam que a turbulência afeta de forma negativa a imagem do Prêmio Nobel de Literatura. E um em cada três suecos quer a substituição de todos os membros da Academia Sueca, em favor de uma nova composição da instituição.

Dos 18 assentos da Academia Sueca, apenas 11 seguem ocupados – além das cinco renúncias dos últimos dias, outros dois membros já haviam se afastado antes da atual crise por razões diversas. Mas Per Wästberg, que preside o Comitê Nobel, diz que o prêmio de literatura não está ameaçado. Segundo ele, a escolha do vencedor pode ser decidida por maioria simples na Academia, com a presença de um quórum mínimo de oito integrantes da instituição.

Os 18 membros da Academia decidem, há mais de um século, a escolha dos ganhadores do maior prêmio de literatura do mundo.

Esta não é a primeira vez que integrantes se afastam da entidade: em 1989, três membros renunciaram em protesto pela decisão da Academia de não denunciar a sentença de morte emitida contra o escritor anglo-indiano Salman Rushdie após a publicação do livro “Versos Satânicos”, considerado blasfemo pelo ex-líder iraniano Aiatolá Khomeini. Em 2005, o escritor Knut Ahnlund renunciou ao seu assento na instituição por não concordar com a premiação da autora austríaca Elfriede Jelinek no ano anterior.

Mas a atual crise expôs uma face indesejável da respeitada e  tradicionalmente hermética Academia Sueca, que ameaça assim abalar o prestígio da instituição.

Em comunicado à imprensa na quarta-feira, o Rei Carl Gustaf XVI afirmou que pode considerar a revisão das regras da Academia, a fim de que se possa permitir a renúncia e a substituição de ocupantes dos cargos vitalícios da instituição. Pelas normas atuais, os integrantes podem apenas se afastar temporariamente de suas posições.

“As divergências atuais na Academia Sueca são profundamente lamentáveis, e põem em risco as importantes atividades da instituição”, escreveu o Rei.

13 de Abril de 2018