Suécia inova e cria ‘barreira do álcool’ para punir motoristas bêbados

diretor

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Uma Conversa com o Diretor da Agência Sueca Anti-Corrupção

”Se uma pessoa tem que lutar diariamente por sua sobrevivência, para ter acesso a alimentação, escolas e hospitais, a questão do combate à corrupção na sociedade certamente não estará entre seus principais interesses. Mas quando uma pessoa se sente parte da sociedade à qual pertence, passa a não aceitar os abusos do poder” – Gunnar Stetler

Gunnar Stetler franze a testa, pisca duas vezes e contrai os músculos do rosto, como quem faz um cálculo extraordinário. Percorre os labirintos da memória durante uma longa pausa, e encontra enfim a resposta: nos últimos 30 anos, ele diz, foram registrados apenas dois casos de corrupção entre parlamentares e integrantes do Governo na Suécia.

”Tenho apenas uma vaga lembrança”, diz Stetler. ”É muito raro ver deputados ou membros do Governo envolvidos em corrupção por aqui.”

Estamos no escritório abarrotado de arquivos e papéis do promotor-chefe da Agência Nacional Anti-Corrupção (Riksenheten mot Korruption), no bairro de Kungsholmen. A poucos passos dali, na mesma rua Hantverkargartan, fica a sede da temida Ekobrottsmyndigheten, a Autoridade Sueca para Crimes Financeiros. Com o sol de abril que enfim derreteu o gelo de mais um inverno, do outro lado da rua mães passeiam com seus carrinhos de bebê entre os túmulos do jardim da igreja Kungsholmskyrka, um hábito comum que se estende a vários cemitérios-parque da cidade.

Da sua pequena sala, Gunnar Stetler chefia o trabalho de promotores especializados que investigam os principais casos de suspeita de corrupção no país. Casos menos graves são processados a nível regional, nas diversas promotorias distritais que compõem o cerco sueco contra trapaças, tramóias e falcatruas em geral.

Com 1,93m de altura, expressão grave e ar insubornável, Gunnar Stetler é descrito na mídia sueca como o maior caçador de corruptos do país. Entre os casos sob a sua mira em 2013 estava a denúncia de que a operadora de telefonia sueca TeliaSonera teria pago suborno no valor de 337 milhões de dólares para estabelecer operações no Uzbequistão.

”Historicamente, 75 por cento das acusações formais contra crimes de suborno na Suécia terminam em condenações”, diz Stetler.

Nascido em 1949, Stetler ganhou fama após conduzir casos como o de um ex-diretor da empresa sueca ABB, condenado a três anos de prisão em 2005 por ter desviado 1,8 milhão de coroas suecas para uma empresa registrada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas.

”Chega um momento em que uma pessoa não se contenta mais com um Volvo V70, e quer trocá-lo por um Porsche. A ganância é parte do dilema humano”, reflete Stetler.

Para o promotor-chefe, são três os fatores que mantêm a Suécia à margem das listas de países gravemente corruptos: a transparência dos atos do poder, o alto grau de instrução da população e a igualdade social.

 

. O que faz da Suécia um dos países menos corruptos do mundo?

GUNNAR STETLER: Em primeiro lugar, a lei de acesso público aos documentos oficiais. Esta lei, criada na Suécia há mais de duzentos anos, evita os abusos do poder. Se os cidadãos ou a mídia quiserem, podem verificar meu salário, meus gastos e as despesas de minhas viagens a trabalho. Meus arquivos são abertos ao público. E acreditamos que, ao colocar os documentos e registros oficiais das autoridades ao alcance do público, evitamos que os indivíduos que exercem posições de poder pratiquem atos impróprios. Esta é a razão principal. Em segundo lugar, é preciso citar a lei aprovada na Suécia há cerca de 200 anos [em 1842, nota do autor], que introduziu o ensino compulsório no país e aumentou o nível geral de educação da população.

 

. Qual é o impacto de uma população com maior grau de instrução na prevenção da corrupção?

GUNNAR STETLER: Se uma pessoa não tem acesso à educação, ela não tem condições nem de compreender e muito menos de fiscalizar o sistema. Na Suécia, acreditamos que uma sociedade se constrói não a partir do topo, mas a partir da base da população. Portanto, é preciso oferecer uma boa educação a todas as camadas da sociedade. A China tem um alto grau de corrupção, mas vem investindo na melhoria do nível de instrução da população. Creio que isto irá, de certa forma, reduzir a corrupção no país.

 

. Com que frequência o seu telefone toca com denúncias de corrupção?

GUNNAR STETLER: Recebo cerca de quatro ligações do público todos os dias. Mas de cada 15 denúncias, em geral apenas uma tem base para caracterizar um caso. A maior parte dos casos se refere a questões de menor dimensão, como quando um funcionário público aceita viajar para um resort a convite de uma empreiteira a fim de facilitar um contrato. Se você é um funcionário público na Suécia, não está absolutamente autorizado a aceitar este tipo de convite. Lidamos também com casos de maior envergadura. Acabo de acusar formalmente um dos chefes do Kriminalvården (sistema prisional sueco), que recebeu subornos da ordem de milhões de coroas suecas de uma empresa contratada para construir penitenciárias. Trabalhamos com denúncias do público, da mídia e também de sistemas nacionais de auditoria, como o Riksrevisionen (órgão independente que controla as finanças das autoridades públicas na Suécia).
. Qual é o nível de incidência de casos de corrupção política a nível nacional na Suécia, entre parlamentares e membros do Governo?

GUNNAR STETLER: É muito raro ver deputados ou membros do Governo envolvidos em corrupção por aqui.

 

. Qual foi a última vez que isso ocorreu na Suécia?

GUNNAR STETLER: Se me lembro bem (pausa)…talvez tenham sido uns dois casos (pausa)…nos últimos (pausa)…trinta anos.
. O senhor quer dizer que desde a década de 70 só houve dois casos de corrupção política a nível nacional?

GUNNAR STETLER: Sim.

 

. Que casos foram esses?

GUNNAR STETLER: Se não me engano (pausa)…há cerca de dez anos (pausa)…um deputado do Parlamento, representante da costa oeste, cometeu um erro (pausa)…tenho apenas uma vaga lembrança…

 

Se o senhor tem apenas uma vaga lembrança sobre o que seriam os dois únicos casos de corrupção política a nível nacional nos últimos 30 anos, pode-se presumir que não tenham sido grandes escândalos?

GUNNAR STETLER: Sim. Em termos de corrupção política, casos mais sérios ocorrem principalmente nas municipalidades.

 

. Mas a última vez que um político sueco foi condenado à prisão por corrupção foi aparentemente em 1995. Isso significa que o grau de corrupção política na Suécia não é em geral grave o suficiente para exigir pena de prisão, ou é um sinal de que o sistema é leniente com políticos corruptos?

GUNNAR STETLER: Na Suécia, em geral, toda punição é leniente.

 

. Como assim?

GUNNAR STETLER: No sistema penal sueco, o princípio básico não é a punição, e sim a reintegração do indivíduo à sociedade. Esta é a nossa tradição. O código penal não prevê punição especialmente dura para casos de corrupção política.

 

. Punições mais severas não são então a resposta para combater a corrupção política?

GUNNAR STETLER: Quem pune políticos corruptos é a opinião pública. Se um deputado ou um funcionário da administração estatal pratica um ato de corrupção, ele será punido severamente pela sociedade, principalmente por ter cometido um erro a partir de uma posição de poder. Um deputado, por exemplo, pode ser forçado a renunciar através da pressão da opinião pública e da mídia, mesmo quando não é indiciado formalmente.

 

. Há alguma regra especial para investigar e processar políticos por crimes de corrupção, como a necessidade de obter aprovação do Parlamento ou de algum comitê?

GUNNAR STETLER: Não.

 

. Cabe principalmente à mídia e aos cidadãos fiscalizar o poder, ou a instituições como a que o senhor dirige?

GUNNAR STETLER: Cabe, em primeiro lugar, à imprensa livre. Se a mídia tem acesso aos documentos oficiais, ela poderá agir, juntamente com os cidadãos, para garantir uma sociedade mais limpa. É claro que agentes oficiais, como a Agência Anti-Corrupção, também cumprem um papel importante. Presumo que talvez, no Brasil, os cidadãos não confiem em servidores públicos como eu. Mas na Suécia a maior parte das pessoas confia nas agências do poder público, e uma das razões disso é o fato de que os cidadãos podem supervisionar o que as agências fazem.
. Como é o trabalho da Agência Nacional Anti-Corrupção?

GUNNAR STETLER: Nosso foco principal é o suborno. Pode-se dizer que o suborno, tanto na esfera pública como no setor privado, é um câncer para qualquer sistema. Mesmo quando o valor do suborno é muito baixo, ele pode influenciar uma licitação no valor de um bilhão de coroas suecas. No setor público, é importante que as compras de bens e serviços sejam realizadas de modo correto. A construção de um novo hospital, por exemplo, pode custar cerca de 1,7 bilhão de coroas suecas (cerca de 260 milhões de dólares). Quando uma agência do setor público lida com um contrato deste porte, é importante que haja uma distância entre a empresa que vai construir o hospital e os funcionários públicos que vão aprovar tal contrato. No meu ponto de vista, e penso que a maioria das pessoas na Suécia concorda, é essencial que funcionários públicos não aceitem ofertas ou presentes de nenhum tipo, mesmo os de baixo valor.
. Os suecos em geral parecem realmente ter receio da regra que proíbe aceitar qualquer brinde ou presente com valor acima de aproximadamente 400 coroas suecas.

GUNNAR STETLER: Em geral, nenhum funcionário público ou privado na Suécia é autorizado a aceitar brindes ou presentes acima de 300 ou no máximo 400 coroas (entre cerca de 46 e 60 dólares). Na minha posição, não posso aceitar nada.
. Nada?

GUNNAR STETLER: Não. Nem mesmo um café com wienerbröd (tipo de pão doce sueco). E não acho que políticos ou funcionários públicos na Suécia aceitam, em geral, o que é considerado como suborno real, ou seja, grandes subornos.
. Não acontece?

GUNNAR STETLER: Pode acontecer, mas não é normal. A questão é definir o que é considerado como um suborno. Para alguns, aceitar um convite para jantar ou passar o fim de semana em um resort não configura um suborno. Mas na Suécia, convites deste tipo caracterizam de fato um suborno. Principalmente para aqueles que trabalham no setor público.
. Aceitar um convite para jantar pode então ser considerado um crime?

GUNNAR STETLER: Na minha opinião, uma pessoa ou empresa privada não pode convidar um funcionário público para jantar, se há um negócio envolvido entre as duas partes.
. Qual é o seu melhor conselho para um país como o Brasil se tornar uma sociedade mais limpa?

GUNNAR STETLER: É preciso compreender que esta é uma tarefa que não pode ser cumprida em 24 horas. Para combater a corrupção, é necessário implementar um sistema de ampla transparência dos poderes estatais, aumentar o nível de educação da população em geral, e promover a igualdade social. A educação é o princípio básico do que chamamos na Suécia de jämlikheten (a igualdade social). E este é também um fator importante na prevenção da corrupção. Parece-me que o Brasil é um país com enormes desigualdades sociais.
. Qual a importância da igualdade social neste processo?

GUNNAR STETLER: Se uma pessoa tem que lutar diariamente por sua sobrevivência, para ter acesso a alimentação, escolas e hospitais, a questão do combate à corrupção na sociedade certamente não estará entre seus principais interesses. Mas quando uma pessoa se sente parte da sociedade à qual pertence, passa a não aceitar os abusos do poder.

Eleição na Suécia: Rivais não fazem ataques pessoais e dividem material

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”Que tipo de sociedade queremos ser?”, berra a jovem militante sueca com seu megafone em uma rua movimentada do centro de Estocolmo. Faltam dois dias para o embate final das eleições gerais de domingo na Suécia, e é feroz a disputa entre a aliança governista de centro-direita e o bloco liderado por um confiante Partido Social-Democrata, apesar do jejum de oito anos longe do poder.

Mais sedutor que acompanhar a batalha campal que se trava, porém, é observar o estilo sueco de se fazer campanha política: nos comícios das cidades menores, candidatos chegam a emprestar microfones e alto-falantes a adversários.

Na profusão de debates diários em todo o país, oponentes políticos jamais trocam ataques pessoais – o duelo é de idéias. Nas ruas e redes sociais, impera o respeito à opinião de quem pensa diferente.

Em nenhum rincão do país, legendas políticas negociam tempo de propaganda na TV – nem poderiam: na Suécia não existe horário eleitoral político.

”Não existe, até porque horários eleitorais na TV são caros – e quem paga essa conta é o contribuinte”, diz à BBC Brasil o estrategista-chefe da campanha social-democrata, Jan Larsson.

”O que existe aqui é um debate constante nos jornais, nos canais de TV, nas rádios, além de uma grande mobilização popular que inclui a militância porta a porta, discussões políticas nos clubes de esportes, e por toda parte. E naturalmente, as mídias sociais crescem em importância. Fazer campanha política na internet é extremamente eficaz, e extremamente barato”, destaca Larsson.

‘Respeito pela democracia’

No quartel-general do Partido Social Democrata na capital sueca, o movimento é febril. O prédio fica na avenida central de Sveavägen, e está convenientemente situado – para a eventualidade de episódios de estresse agudo da militância – ao lado de uma loja do Systembolaget, o monopólio estatal da venda de álcool no país.

Um labirinto de corredores conduz à ampla sala do controle central da campanha, e Jan Larsson aponta, com movimentos rápidos das mãos: “naquele canto trabalha a equipe responsável pelas políticas de educação, ao lado está o time que trabalha com a questão do emprego”, e assim por diante.

Imensos gráficos decoram todas as paredes. A sala está repleta. Cerca de cem pessoas integram o cérebro da campanha, mas a ordem e o silêncio imperam no lugar. É aqui que se engendram os estratagemas e propostas para chegar ao poder. Ataques pessoais a adversários estão fora da agenda.

Jan Larsson, estrategista de campanha sueco / Crédito: Partido Social Democrata
‘Campanha políticas na Suécia são focadas em projetos concretos de governo’, diz Jan Larsson

”Campanhas políticas na Suécia são mais focadas em projetos concretos de governo, em comparação com outros países onde o foco está em campanhas negativas e agressivas, como por exemplo comprar espaço na TV apenas para dizer como os seus adversários são ruins”, diz Larsson.

”Penso que temos na Suécia um respeito comum pela democracia, que espero que possamos manter. Todos os partidos políticos lutam pelo poder, mas mantendo o respeito mútuo”, acrescenta ele.

Campanha ‘compartilhada’

Pergunto a Larsson se é mesmo verdade que, nas cidades do interior sueco, membros de partidos adversários chegam a emprestar equipamentos de campanha uns aos outros.

”Isso acontece a nível local, onde os recursos de campanha são mais limitados. Até porque não damos importância a coisas idiotas, como se preocupar em não emprestar microfones ou alto-falantes a um oponente”, enfatiza ele.

”Não é que todos os políticos suecos sejam fantasticamente bons, mas principalmente porque os eleitores suecos respeitam os políticos que cooperam e colaboram. Então, o político sabe que, quando empresta seu alto-falante para o candidato adversário, isso é visto como uma coisa positiva pelo eleitorado. No nível da política nacional, no entanto, esse tipo de necessidade de emprestar equipamentos não existe”, ele completa.

No nível nacional, a cooperação entre as siglas se dá em questões como a calculada limitação do reduzido número de propaganda eleitoral nas ruas do país. Outdoors são proibidos.

”Normalmente, os partidos acertam qual o número de posters que podem ser colocados, e também o horário. Todos concordam que ninguém colocará os posters antes da meia-noite de uma sexta-feira, por exemplo. E são os militantes dos movimentos jovens dos partidos que cumprem esta tarefa, de estar de pé à meia-noite para conseguir os melhores locais para pendurar os cartazes”, diz o chefe de campanha.

Mas há um elemento de respeito na empreitada, observa Larsson:

”Ninguém simplesmente toma todos os melhores locais disponíveis. E muitas vezes, um militante retira alguns de seus cartazes para dar lugar aos do adversário. Normalmente, ninguém briga por causa disso. É preciso entender que o objetivo da propaganda é aumentar a visibilidade das eleições, mas não são nada assim tão fundamental. E por isso, não faz sentido brigar por causa disso.”

Cartaz de político na Suécia / Crédito: Dagens Nyheter
Pôster de candidato com os óculos cor-de-rosa colocados na foto pelo Partido Feminista

As regras são rigorosas: todos os pôsteres eleitorais devem ser retirados das ruas num prazo máximo de dois dias após a votação.

”E os políticos sabem que, se deixarem os cartazes pendurados depois do prazo, sujando a paisagem da cidade, vão ser punidos pelos eleitores nas próximas eleições”, diz Larsson.

Nessa temporada eleitoral, alguns candidatos descontentes levantaram a voz na semana passada. Isso porque militantes do Partido Feminista sueco, em nome da sua causa, aproveitaram a calada da noite para colocar adesivos de óculos cor-de-rosa nos rostos de todos os líderes partidários estampados nos cartazes adversários.

Debate de ideias

Mas no geral, as campanhas políticas na Suécia se definem a partir de um tradicional tripé de cooperação, consenso e bom-senso, sustentado a partir de um robusto debate de idéias e propostas concretas.

Em todos os jornais, rádios, sites de notícias, canais de TV e redes sociais, o debate de idéias é diário e intenso. Jornais abrem espaço em suas páginas de opinião para debater temas diversos da campanha, e convidam políticos dos diferentes partidos a expressar suas posições e propostas em dias alternados.

Nas TVs públicas e comerciais, os debates se produzem em programas de uma hora de duração, seguidos por análises com painéis de cientistas políticos e políticos dos diferentes partidos. Nos telejornais, duplas de candidatos adversários se enfrentam em discussões diárias de propostas. Nas rádios, a cena se repete.

Em programas de culinária, candidatos preparam jantares para adversários em suas casas. E programas dedicados a áreas como cultura e saúde, nesses tempos de eleição, também se transformam em arenas de debates de candidatos sobre temas específicos, tanto nas rádios como nas TVs.

Cada político sueco sabe que tem que fundamentar cada proposta, e explicar muito bem de onde pensa em tirar o dinheiro para financiar e cumprir a promessa – é aí que os verdadeiros duelos se travam com ferocidade. Mas com respeito.

”Políticos que são duros demais com seus adversários se arriscam a perder o voto do eleitor”, disse no jornal Svenska Dagbladet a especialista em retórica Lena Lid Falkman, que integra o painel de análises políticas do diário.

”Ataques pessoais contra adversários políticos e campanhas negativas não dão certo na Suécia. A campanha tem que ser limpa, e não há espaço para ofensas indecorosas. Se um político quer ser cruel contra um adversário, ele tem que fazer isso com humor”, pontuou Lena.

Campanha eleitoral na Suécia
A afixação de propaganda eleitoral em locais públicos obedece a regras rígidas

O repórter perguntou, então, a Lena o porquê de não se ver na Suécia, como ocorre em outros países, murros e socos entre parlamentares.

”Temos na Suécia uma cultura de consenso, e de ouvir quem tem opiniões divergentes. Também somos um país pacífico, e não nos parecem existir coisas no debate político suficientemente importantes para nos engalfinharmos em sua defesa. Os partidos políticos também cooperam de maneira bem mais próxima para solucionar os problemas do país”, destacou ela.

Mas Lena admite que a entrada no Parlamento dos Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna, partido de extrema-direita) tornou a situação mais dramática:

”O debate político ficou mais acirrado. E, de certa forma, é mais tolerado ser um tanto duro contra os políticos da extrema-direita”.

Propaganda Política

Até o ano passado, campanhas publicitárias de partidos políticos na TV eram proibidas na Suécia. Este ano, pela primeira vez, faz-se uma experiência: no canal 4 da TV comercial, o eleitorado assiste a breves comerciais políticos de cerca de 40 segundos de duração, veiculados entre anúncios de margarina e barras de chocolate.

”Produzir comerciais mais longos seria caro demais, não teríamos dinheiro”, diz uma das assistentes de Jan Larsson, no comando central da campanha social-democrata.

Na Suécia, a principal fonte de arrecadação de fundos dos partidos políticos é o financiamento público, que corresponde a um valor entre 70% e 80% do total arrecadado pelas agremiações.

”Exatamente pelo fato de as campanhas publicitárias serem uma ferramenta tão cara, e tão poderosa, é preciso ser cuidadoso e não exagerar na sua utilização”, diz Larsson.

”E é importante ter sob controle as contribuições de campanha para os partidos, a fim de evitar a sensação que se tem no sistema americano, por exemplo, de que a Associação Nacional de Rifles financia as siglas e as campanhas publicitárias para influenciar a agenda política”.

Sobre as campanhas milionárias que se produzem no horário eleitoral político do Brasil, Jan Larsson diz que é preciso ter cautela:

”Seria um absurdo da minha parte expressar opiniões pessoais sobre a democracia brasileira, mas naturalmente é preciso ter-se muito cuidado em permitir que o dinheiro controle a informação. Especialmente quando não se tem um sistema rígido para controlar quem financia os partidos políticos. Se a distribuição de recursos para os partidos é justa, então todos têm as mesmas oportunidades. Mas quando você permite que grandes empresas e organizações controlem o financiamento dos partidos, põe-se em risco uma coisa extremamente fundamental, que se chama democracia”, diz Larsson.

”O que deve vencer uma eleição é o melhor argumento, e não a carteira mais gorda”, opinia o estrategista.

 

Políticos suecos fazem confissões de divã na TV

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Na pouco ortodoxa Suécia, a corrida eleitoral para as eleições gerais de 14 de setembro levou os líderes dos oito maiores partidos políticos do país ao divã: um a um, todos passaram por uma sessão de uma hora com um psicoterapeuta, revirando o baú da memória diante das câmeras da TV pública sueca SVT.

A série de sessões políticas no divã abriu o ano eleitoral, e produziu faíscas no eleitorado. Foram oito domingos consecutivos na TV dedicados a reminiscências de infância, traumas variados e episódios marcantes na trajetória dos líderes partidários.

A intenção era nobre: para a SVT, a proposta da série de programas foi aprofundar o conhecimento dos eleitores sobre as experiências pessoais que moldaram os valores e as ideologias de cada candidato. Mas para um grande número de suecos, a idéia não passou de uma abobrinha dispensável.

Esta é, afinal, uma sociedade que desdenha a personalização da política e o culto a candidatos individuais.

Um dos primeiros a enfrentar o divã foi o próprio primeiro-ministro sueco e líder do Partido Moderado (centro-direita), Fredrik Reinfeldt. Na abertura do programa, a câmera registra a entrada de um apreensivo premier no cenário bucólico da casa do psicoterapeuta, que o recebe à porta.

Os dois sentam-se frente a frente. A curta distância que os separa é evidentemente incômoda para os padrões suecos de reserva e privacidade. Mas a primeira pergunta do terapeuta certamente não incomoda o premier da Suécia – onde políticos não têm direito a luxo, regalias ou privilégios:

‘Intimidade’

”Você é primeiro-ministro e líder do Partido Moderado, mas é também uma pessoa inteiramente comum. É uma combinação difícil?”, pergunta o médico e psicoterapeuta Poul Perris no programa ”Nyfiken på partiledaren” (”Curioso sobre o líder partidário”, em tradução livre).

Na Suécia, todos tratam os políticos apenas como ”você”.

”Não”, responde o premier. ”Na Suécia, mais do que em outros países, a ideia é de que os políticos que escolhemos para nos representar devem ser ’um de nós’, e não alguém que está acima de nós”.

Candidato social-democrata Stefan Löfven (Crédito: SVA)
O candidato social-democrata Stefan Löfven disse que só conheceu a mãe biológica aos 20 anos de idade

Quebrado o gelo, o terapeuta indaga sobre a infância do premier. E vêm histórias sobre o menino mais velho da família de classe média, que desde cedo sentiu o dever da responsabilidade sobre os irmãos.

O garoto que queria ser jogador profissional de basquete, mas que se frustrou ao perceber que não era tão alto como os outros jogadores do colégio. O menino que aos dez anos de idade foi eleito pelos colegas como líder da união de estudantes da escola. Que se tornou assim mais auto-confiante, e descobriu a vocação para liderar e influenciar os rumos da sociedade.

Na segunda parte do programa, o terapeuta se dedica a sabatinar o primeiro-ministro sobre os valores e as ideologias que pavimentaram o seu caminho para a política.

Para um político acostumado aos duríssimos interrogatórios dos jornalistas suecos nos debates eleitorais, a sessão com o terapeuta foi como uma brincadeira.

O próximo a desnudar a sua alma diante do terapeuta foi o líder do Partido Social-Democrata, Stefan Löfven. Os suecos ficaram sabendo que Löfven só veio a conhecer a mãe biológica aos 20 anos de idade. Ele falou da infância pobre na casa de pais adotivos, e de como a sua história moldou os seus valores de solidariedade – a principal bandeira social-democrata.

”Uma sociedade em que todos se ajudam, todos assumem uma responsabilidade coletiva, é uma sociedade forte”, disse Löfven.

Na sequência, o líder do Partido da Esquerda (Vänsterpartiet, ex-comunista), Jonas Sjöstedt, conta que foi uma criança com dislexia que sofria bullying na escola, e que os pais, que trabalhavam fora em longas jornadas, não tinham tempo para ele. Seria esta a razão de Sjöstedt propor em seu programa de governo a jornada de trabalho de seis horas?

”Baboseira psicológica”

Levar os oito líderes partidários para o divã do terapeuta, em tempos de eleições gerais, provavelmente não ajudaria os eleitores a iluminar a sua escolha política.

Mas – assim ponderaram vários comentaristas na imprensa sueca – poderia render boa diversão na TV.

Enganaram-se todos: a reação dos suecos contra a série de programas, em comentários postados em sites de notícias e nas redes sociais, foi virulenta.

”Não tenho o mínimo interesse em saber que tipo de xampu os políticos têm no banheiro. O que interessa saber é quais são os valores básicos do candidato como político, e não como pessoa”, disse um dos comentários, assinado por Christer Engström.

Jonas Sjöstedt, do Partido de Esquerda
O candidato Jonas Sjöstedt revelou que sofreu bullying na escola

”Focar no indivíduo é sempre prejudicial para a política. O foco deve estar nas opiniões e na ideologia de um político, e o tipo de música que ele gosta é totalmente irrelevante. Será que nós queremos ter o tipo de personalização da política que existe nos EUA?”, perguntou outro internauta sueco.

”Uma repugnante personalização da política – é isso que nós estamos querendo?”, escreveu mais um.

”Totalmente asqueroso. O que interessa é o projeto político dos partidos”, ressaltou outro indignado eleitor sueco, decretando o “fracasso” da série de programas.

Parte da imprensa sueca uniu-se ao coro dos descontentes: ”Baboseira Psicológica na SVT”, estampou a manchete do jornal Aftonbladet:

”O terapeuta evitou qualquer confrontação, e repetiu à exaustão a pergunta: ’como se sentia aquele menininho?’, como se isso tivesse algo a ver com política”, escreveu a colunista Pia Bergström.

O psicoterapeuta, apresentador e idealizador do programa, evidentemente, discordou.

”O objetivo de fazer perguntas sobre a infância dos líderes partidários foi tentar compreender como eles formaram os seus valores”, tentou explicar Poul Perris.

Mas os céticos em relação ao valor da série de programas no divã pareceram estar em maioria. No jornal Svenska Dagbladet, o cientista político Mikael Gilljam, da Universidade de Gotemburgo, destacou que, segundo apontam as pesquisas, os eleitores suecos votam em políticas concretas – e não em candidatos individuais:

”Eleitores suecos são eleitores de opiniões e propostas. Não acho que queremos assistir a programas de TV como esse.”

 

Eleições na Suécia têm 600 candidatos com mais de 80 anos

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“As pernas estão fracas, mas a cabeça funciona muito bem, obrigado”, diz Gösta Arvedson. Aos 89 anos, ele é o candidato mais velho das eleições para o Parlamento sueco, no próximo dia 14.

Mas Gösta poderia ser um irmão caçula do candidato mais idoso do pleito sueco em nível local: Lennart Israelsson decidiu, aos 98 anos de idade, se candidatar como vereador em sua cidade.

Nada que surpreenda os suecos, um país onde é relativamente expressiva a participação de octogenários na disputa política. Além dos cinco candidatos com idades entre 83 e 89 anos que disputam uma cadeira no Parlamento, nada menos que 600 octogenários disputam as eleições locais.

Os nonagenários também querem ter voz – no total, 21 candidatos com idade acima de 90 anos participam das eleições gerais, segundo números da agência de notícias sueca Siren publicados no jornal Dagens Nyheter.

“A vantagem de ter mais de 90 é a experiência de vida acumulada. Além disso, estou em forma e ainda nem preciso de óculos para ler, por mais incrível que possa parecer”, diz Lennart Israelsson, candidato do Partido do Centro (Centerpartiet) à assembléia municipal de Nassjö, no Sul da Suécia.

O segredo de tão boa forma aos 98 anos, nem ele, com toda a experiência, sabe explicar:

“O que sei é que nunca fumei nem bebi na vida. Em vez de fumar e beber, eu sempre preferi dançar e jogar palavras cruzadas, como faço até hoje. E tenho vivido uma boa vida. A pior fase foi quando a minha companheira faleceu, mas é preciso ir adiante e seguir a vida”, ele disse em entrevista ao jornal Expressen.

Milionário

Lennart figura no sétimo lugar da lista partidária do Partido do Centro e tem, segundo a imprensa sueca, uma boa chance de ganhar um assento na Assembléia Municipal.

Se eleito, terá que continuar em forma até os 102 anos de idade para cumprir o mandato de quatro anos.

“Ótimo”, diz Lennart. “Assim tenho uma boa meta para me esforçar para atingir. Quero conversar com Annie Lööf (líder do Partido do Centro) e fazer algo de novo pela agricultura, que é de extrema importância para as pessoas. E 98 anos não é tanto assim, é?”, ironiza.

Lennart, candidato de 98 anos de idade / Crédito: Sveriges Radio
Lennart, de 98 anos, promete que, se eleito, ‘vai fazer algo novo pela agricultura’

Na Suécia, vereadores não recebem salário – ser vereador é função que se desempenha em paralelo a empregos regulares. Mas dinheiro não é problema para Lennart – ele é um milionário. Nascido em fevereiro de 1916 na localidade de Algutsboda, no sul da Suécia, ele começou a carreira como trabalhador do campo e em seguida tornou-se ferroviário.

Em 1946, decidiu começar a apostar no mercado de ações com pequenas quantias – 34 anos depois, ele acumulou seu primeiro milhão de coroas suecas, e desde então, só viu crescer a fortuna e a fama como filantropo e consultor financeiro.

Já o mais jovem Gösta Arvedson, candidato do Partido do Povo (Folkpartiet) nas eleições parlamentares, é menos ambicioso.

“Conheço muita gente por toda a Suécia, e espero que isso ajude o partido a obter mais votos. Mas minha ambição não é ter uma cadeira no Parlamento”, disse Arvedson, que é voluntário da instituição de caridade Exército da Salvação, em entrevista à Rádio Sueca (Sveriges Radio).

Terceira idade

A força da terceira idade ainda se concentra nas municipalidades. Segundo dados do jornal sueco Jönköpings-Posten, um de cada quatro eleitores têm 65 anos de idade ou mais – mas apenas sete por cento dos parlamentares eleitos estão nesta faixa etária.

Gösta Arvedson, candidato de 89 anos / Crédito: Sverige Radio
Candidato de 89 anos, Gösta Arvedson não tem muita esperança em ser eleito

Já em assembléias municipais como a de Nassjö, no sul da Suécia, um entre cada cinco vereadores representa a terceira idade e leva à pauta política questões relacionadas, por exemplo, aos interesses dos aposentados.

No outro extremo do perfil etário dos candidatos das eleições gerais deste ano está Gösta Andersson, que aos 17 anos de idade concorre ao Parlamento pelo Partido do Centro. É o mais jovem candidato do pleito, ao lado de cinco outros que, na casa dos 18 anos de idade, já lutam por um assento no Parlamento.

 

Suécia inova e cria ‘barreira do álcool’ para punir motoristas bêbados

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A polícia da Suécia inaugura formalmente, na semana que vem, um novo modelo para o controle da embriaguez no trânsito: barreiras eletrônicas móveis que testam, automaticamente, se o motorista está com o nível de álcool no sangue acima do limite permitido por lei.

As novas barreiras eletrônicas, que são transportáveis, se assemelham a cancelas de pedágio. Para que a cancela se abra e o motorista continue seu trajeto, ele é obrigado a soprar o bafômetro.

Caso o condutor esteja com o nível de álcool no sangue (alcoolemia) acima do limite legal, a cancela permanece fechada ─ e a polícia entra em cena.

Em reportagem exibida na TV sueca SVT, foi demonstrado que basta soprar o bafômetro por um segundo e meio para completar o processo.

“As novas barreiras vão facilitar bastante o trabalho da polícia. E poderemos também reduzir o número de policiais nos postos de controle”, disse Bengt Svensson, da Polícia Nacional sueca, em entrevista à SVT.

As “barreiras do álcool”, como já estão sendo chamadas, foram desenvolvidas pela Polícia Nacional da Suécia, em cooperação com a Associação pela Sobriedade no Trânsito (Motorförarnas Helnykterhetsförbund, MHF).

As barreiras eletrônicas já foram testadas com êxito no porto da cidade sueca de Gotemburgo. E a partir da próxima quarta-feira, já começa a ser usada para controlar o nível de álcool dos motoristas que utilizam as balsas no porto de Frihamnen, na capital Estocolmo.

Controle

A ideia é expandir gradualmente o uso das “barreiras do álcool” em rodovias, portos e postos de controle policial da Suécia, um país conhecido pela cultura de extrema intolerância a infrações, especialmente àquelas relacionadas à embriaguez no trânsito.

A lei sueca estabelece um limite máximo de 0,02% de nível de álcool no sangue de quem dirige. A punição para quem viola a lei inclui multa e pena de até dois anos de prisão.

Em 2013, uma lei brasileira acabou com qualquer tolerância permitida de bebidas alcoólicas.

Nos testes realizados com as barreiras eletrônicas no porto de Gotemburgo no outono de 2013, foi registrada uma redução significativa do número de motoristas com taxa de álcool acima da permitida.

O principal fator dessa redução, segundo os idealizadores do projeto, foi uma campanha eficiente de informação aos motoristas sobre a instalação das cancelas automáticas contra embriaguez nas linhas de saída e chegada das balsas.

Antes da instalação das barreiras no porto, os registros apontavam que a cada 95 carros que passavam pelos controles manuais feitos por funcionários da alfândega, um motorista era flagrado dirigindo sob influência de álcool.

Após a instalação das novas barreiras, apenas dez condutores foram parados pelo equipamento durante todo o período de testes – o que significa, segundo os organizadores do projeto, que apenas um motorista, em cada grupo de 875 veículos que passou pelas barreiras, tinha alcoolemia acima da permitida segundo a lei sueca.

“É uma redução expressiva, que mostra o potencial deste novo conceito de ’barreiras do álcool'”, diz Arne Winerdal, diretor da Associação pela Sobriedade no Trânsito (MHF).

Os testes de Gotemburgo também demonstraram que a medida não prejudicou o fluxo do tráfego no porto.

“As barreiras eletrônicas funcionaram de forma rápida e eficaz”, afirmou o líder do projeto, Tomas Jonsson.

De acordo com a MHF, os testes realizados em Gotemburgo foram pioneiros no mundo, e as novas ‘barreiras do álcool’ já têm atraído o interesse da União Europeia.

 

A Receita Sueca para Combater a Corrupção

Por Claudia Wallin
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Uma Conversa com o Diretor da Agência Sueca Anti-Corrupção

”Se uma pessoa tem que lutar diariamente por sua sobrevivência, para ter acesso a alimentação, escolas e hospitais, a questão do combate à corrupção na sociedade certamente não estará entre seus principais interesses. Mas quando uma pessoa se sente parte da sociedade à qual pertence, passa a não aceitar os abusos do poder” – Gunnar Stetler

Gunnar Stetler franze a testa, pisca duas vezes e contrai os músculos do rosto, como quem faz um cálculo extraordinário. Percorre os labirintos da memória durante uma longa pausa, e encontra enfim a resposta: nos últimos 30 anos, ele diz, foram registrados apenas dois casos de corrupção entre parlamentares e integrantes do Governo na Suécia.

”Tenho apenas uma vaga lembrança”, diz Stetler. ”É muito raro ver deputados ou membros do Governo envolvidos em corrupção por aqui.”

Estamos no escritório abarrotado de arquivos e papéis do promotor-chefe da Agência Nacional Anti-Corrupção (Riksenheten mot Korruption), no bairro de Kungsholmen. A poucos passos dali, na mesma rua Hantverkargartan, fica a sede da temida Ekobrottsmyndigheten, a Autoridade Sueca para Crimes Financeiros. Com o sol de abril que enfim derreteu o gelo de mais um inverno, do outro lado da rua mães passeiam com seus carrinhos de bebê entre os túmulos do jardim da igreja Kungsholmskyrka, um hábito comum que se estende a vários cemitérios-parque da cidade.

Da sua pequena sala, Gunnar Stetler chefia o trabalho de promotores especializados que investigam os principais casos de suspeita de corrupção no país. Casos menos graves são processados a nível regional, nas diversas promotorias distritais que compõem o cerco sueco contra trapaças, tramóias e falcatruas em geral.

Com 1,93m de altura, expressão grave e ar insubornável, Gunnar Stetler é descrito na mídia sueca como o maior caçador de corruptos do país. Entre os casos sob a sua mira em 2013 estava a denúncia de que a operadora de telefonia sueca TeliaSonera teria pago suborno no valor de 337 milhões de dólares para estabelecer operações no Uzbequistão.

”Historicamente, 75 por cento das acusações formais contra crimes de suborno na Suécia terminam em condenações”, diz Stetler.

Nascido em 1949, Stetler ganhou fama após conduzir casos como o de um ex-diretor da empresa sueca ABB, condenado a três anos de prisão em 2005 por ter desviado 1,8 milhão de coroas suecas para uma empresa registrada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas.

”Chega um momento em que uma pessoa não se contenta mais com um Volvo V70, e quer trocá-lo por um Porsche. A ganância é parte do dilema humano”, reflete Stetler.

Para o promotor-chefe, são três os fatores que mantêm a Suécia à margem das listas de países gravemente corruptos: a transparência dos atos do poder, o alto grau de instrução da população e a igualdade social.

. O que faz da Suécia um dos países menos corruptos do mundo?

GUNNAR STETLER: Em primeiro lugar, a lei de acesso público aos documentos oficiais. Esta lei, criada na Suécia há mais de duzentos anos, evita os abusos do poder. Se os cidadãos ou a mídia quiserem, podem verificar meu salário, meus gastos e as despesas de minhas viagens a trabalho. Meus arquivos são abertos ao público. E acreditamos que, ao colocar os documentos e registros oficiais das autoridades ao alcance do público, evitamos que os indivíduos que exercem posições de poder pratiquem atos impróprios. Esta é a razão principal. Em segundo lugar, é preciso citar a lei aprovada na Suécia há cerca de 200 anos [em 1842, nota do autor], que introduziu o ensino compulsório no país e aumentou o nível geral de educação da população.

. Qual é o impacto de uma população com maior grau de instrução na prevenção da corrupção?

GUNNAR STETLER: Se uma pessoa não tem acesso à educação, ela não tem condições nem de compreender e muito menos de fiscalizar o sistema. Na Suécia, acreditamos que uma sociedade se constrói não a partir do topo, mas a partir da base da população. Portanto, é preciso oferecer uma boa educação a todas as camadas da sociedade. A China tem um alto grau de corrupção, mas vem investindo na melhoria do nível de instrução da população. Creio que isto irá, de certa forma, reduzir a corrupção no país.

. Com que frequência o seu telefone toca com denúncias de corrupção?

GUNNAR STETLER: Recebo cerca de quatro ligações do público todos os dias. Mas de cada 15 denúncias, em geral apenas uma tem base para caracterizar um caso. A maior parte dos casos se refere a questões de menor dimensão, como quando um funcionário público aceita viajar para um resort a convite de uma empreiteira a fim de facilitar um contrato. Se você é um funcionário público na Suécia, não está absolutamente autorizado a aceitar este tipo de convite. Lidamos também com casos de maior envergadura. Acabo de acusar formalmente um dos chefes do Kriminalvården (sistema prisional sueco), que recebeu subornos da ordem de milhões de coroas suecas de uma empresa contratada para construir penitenciárias. Trabalhamos com denúncias do público, da mídia e também de sistemas nacionais de auditoria, como o Riksrevisionen (órgão independente que controla as finanças das autoridades públicas na Suécia).
. Qual é o nível de incidência de casos de corrupção política a nível nacional na Suécia, entre parlamentares e membros do Governo?

GUNNAR STETLER: É muito raro ver deputados ou membros do Governo envolvidos em corrupção por aqui.

. Qual foi a última vez que isso ocorreu na Suécia?

GUNNAR STETLER: Se me lembro bem (pausa)…talvez tenham sido uns dois casos (pausa)…nos últimos (pausa)…trinta anos.
. O senhor quer dizer que desde a década de 70 só houve dois casos de corrupção política a nível nacional?

GUNNAR STETLER: Sim.

. Que casos foram esses?

GUNNAR STETLER: Se não me engano (pausa)…há cerca de dez anos (pausa)…um deputado do Parlamento, representante da costa oeste, cometeu um erro (pausa)…tenho apenas uma vaga lembrança…

Se o senhor tem apenas uma vaga lembrança sobre o que seriam os dois únicos casos de corrupção política a nível nacional nos últimos 30 anos, pode-se presumir que não tenham sido grandes escândalos?

GUNNAR STETLER: Sim. Em termos de corrupção política, casos mais sérios ocorrem principalmente nas municipalidades.

. Mas a última vez que um político sueco foi condenado à prisão por corrupção foi aparentemente em 1995. Isso significa que o grau de corrupção política na Suécia não é em geral grave o suficiente para exigir pena de prisão, ou é um sinal de que o sistema é leniente com políticos corruptos?

GUNNAR STETLER: Na Suécia, em geral, toda punição é leniente.

. Como assim?

GUNNAR STETLER: No sistema penal sueco, o princípio básico não é a punição, e sim a reintegração do indivíduo à sociedade. Esta é a nossa tradição. O código penal não prevê punição especialmente dura para casos de corrupção política.

. Punições mais severas não são então a resposta para combater a corrupção política?

GUNNAR STETLER: Quem pune políticos corruptos é a opinião pública. Se um deputado ou um funcionário da administração estatal pratica um ato de corrupção, ele será punido severamente pela sociedade, principalmente por ter cometido um erro a partir de uma posição de poder. Um deputado, por exemplo, pode ser forçado a renunciar através da pressão da opinião pública e da mídia, mesmo quando não é indiciado formalmente.

. Há alguma regra especial para investigar e processar políticos por crimes de corrupção, como a necessidade de obter aprovação do Parlamento ou de algum comitê?

GUNNAR STETLER: Não.

. Cabe principalmente à mídia e aos cidadãos fiscalizar o poder, ou a instituições como a que o senhor dirige?

GUNNAR STETLER: Cabe, em primeiro lugar, à imprensa livre. Se a mídia tem acesso aos documentos oficiais, ela poderá agir, juntamente com os cidadãos, para garantir uma sociedade mais limpa. É claro que agentes oficiais, como a Agência Anti-Corrupção, também cumprem um papel importante. Presumo que talvez, no Brasil, os cidadãos não confiem em servidores públicos como eu. Mas na Suécia a maior parte das pessoas confia nas agências do poder público, e uma das razões disso é o fato de que os cidadãos podem supervisionar o que as agências fazem.
. Como é o trabalho da Agência Nacional Anti-Corrupção?

GUNNAR STETLER: Nosso foco principal é o suborno. Pode-se dizer que o suborno, tanto na esfera pública como no setor privado, é um câncer para qualquer sistema. Mesmo quando o valor do suborno é muito baixo, ele pode influenciar uma licitação no valor de um bilhão de coroas suecas. No setor público, é importante que as compras de bens e serviços sejam realizadas de modo correto. A construção de um novo hospital, por exemplo, pode custar cerca de 1,7 bilhão de coroas suecas (cerca de 260 milhões de dólares). Quando uma agência do setor público lida com um contrato deste porte, é importante que haja uma distância entre a empresa que vai construir o hospital e os funcionários públicos que vão aprovar tal contrato. No meu ponto de vista, e penso que a maioria das pessoas na Suécia concorda, é essencial que funcionários públicos não aceitem ofertas ou presentes de nenhum tipo, mesmo os de baixo valor.
. Os suecos em geral parecem realmente ter receio da regra que proíbe aceitar qualquer brinde ou presente com valor acima de aproximadamente 400 coroas suecas.

GUNNAR STETLER: Em geral, nenhum funcionário público ou privado na Suécia é autorizado a aceitar brindes ou presentes acima de 300 ou no máximo 400 coroas (entre cerca de 46 e 60 dólares). Na minha posição, não posso aceitar nada.
. Nada?

GUNNAR STETLER: Não. Nem mesmo um café com wienerbröd (tipo de pão doce sueco). E não acho que políticos ou funcionários públicos na Suécia aceitam, em geral, o que é considerado como suborno real, ou seja, grandes subornos.
. Não acontece?

GUNNAR STETLER: Pode acontecer, mas não é normal. A questão é definir o que é considerado como um suborno. Para alguns, aceitar um convite para jantar ou passar o fim de semana em um resort não configura um suborno. Mas na Suécia, convites deste tipo caracterizam de fato um suborno. Principalmente para aqueles que trabalham no setor público.
. Aceitar um convite para jantar pode então ser considerado um crime?

GUNNAR STETLER: Na minha opinião, uma pessoa ou empresa privada não pode convidar um funcionário público para jantar, se há um negócio envolvido entre as duas partes.
. Qual é o seu melhor conselho para um país como o Brasil se tornar uma sociedade mais limpa?

GUNNAR STETLER: É preciso compreender que esta é uma tarefa que não pode ser cumprida em 24 horas. Para combater a corrupção, é necessário implementar um sistema de ampla transparência dos poderes estatais, aumentar o nível de educação da população em geral, e promover a igualdade social. A educação é o princípio básico do que chamamos na Suécia de jämlikheten (a igualdade social). E este é também um fator importante na prevenção da corrupção. Parece-me que o Brasil é um país com enormes desigualdades sociais.
. Qual a importância da igualdade social neste processo?

GUNNAR STETLER: Se uma pessoa tem que lutar diariamente por sua sobrevivência, para ter acesso a alimentação, escolas e hospitais, a questão do combate à corrupção na sociedade certamente não estará entre seus principais interesses. Mas quando uma pessoa se sente parte da sociedade à qual pertence, passa a não aceitar os abusos do poder.