Sem luxo nem privilégios

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”É preciso aceitar os sacrifícios que se avizinham”, murmura para si próprio um sueco no momento revelador em que a sua real vocação para a carreira política se manifesta como um desejo irrefreável. ”Serão abomináveis os desafios”, alerta um forasteiro: os cintos apertados como os da amorfa massa do povo, a ausência de alegres comitivas de inúteis, os apartamentos funcionais que lembram quartos de hotéis de duas estrelas, a falta que hão de fazer os batalhões de assessores e parasitas. Quando tal provação parecer insuportável, será prudente invocar Mímir, o deus venerado pelos vikings por sua sabedoria infinita e pela cabeça que, mesmo decepada pelos inimigos, continua a pensar.

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As Dicas de Limpeza do Primeiro-Ministro

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’Städning är en konstart’/

”Limpar a casa é uma arte”

 Dammets värsta fiende Statsminister Fredrik Reinfeldt (m) städar gärna – och systematiskt. Men inte i kostym. När det är på riktigt tar han fram sina speciella städbyxor med många fickor.

”Pior inimigo da poeira, o Primeiro-Ministro Fredrik Reinfeldt limpa a casa com prazer – e sistematicamente. Mas não de terno. Quando limpa a sério, ele veste calças especiais com vários bolsos.”

Jornal Aftonbladet, 21.12.2008

 

Fredrik Reinfeldt começou a arrumar a casa ainda na adolescência. A mãe dividia a casa em zonas de limpeza, e uma delas ficava sob a responsabilidade de Fredrik.

As primeiras-dicas foram reunidas em reportagem publicada no jornal Aftonbladet, com o subtítulo ”Encontre um mestre da limpeza – o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt”.

 

. Reduza o número de bibelôs:

”A regra básica é não ter coisas demais. Enfeites e bibelôs acumulam poeira e dificultam a limpeza.”

 

. Vista a roupa certa:

Reinfeldt usa um par de calças militares, com vários bolsos, onde ele coloca o escovão e outros utensílios de limpeza. ”Limpar a casa é uma arte. É preciso se concentrar para fazer bem”.

 

. Ajoelhe para esfregar:

”Podem dizer que é bobagem, mas eu esfrego o chão de joelhos, principalmente na cozinha. Dessa forma tira-se de fato toda a sujeira. Só passar um esfregão não resolve”.

 

. A cozinha é primordial:

Fredrik Reinfeldt dedica quinze minutos extras à limpeza da cozinha todas as noites. Para limpar o fogão e a pia, passar um bom pano na mesa e ligar a lavadora de pratos: ”Assim você começa bem a manhã seguinte”, ele diz.

 

. Use o bocal pequeno do aspirador de pó:

”A verdadeira satisfação de limpar a casa está nos cantos escondidos. Descobrir poeira debaixo dos assentos do sofá ou numa quina da sala dá uma grande motivação. A melhor maneira de ouvir aquele barulho bom, quando a sujeira sobe pelo cabo do aspirador de pó, é usar o bocal pequeno do aspirador. ”

 

. Planeje a faxina:

”Por trás de uma faxina bem-sucedida está um bom planejamento”, aconselha o primeiro-ministro. O ideal é começar sempre por uma das extremidades da casa. A alternativa é enfrentar primeiro a cozinha e o banheiro, que exigem limpeza mais pesada. Cada vez que limpa a casa, Reinfeldt também elege umdeterminado cômodo para uma limpeza especialmente mais profunda.

 

fonte: jornal Aftonbladet, 21/12/2008, ”Städning är en konstart”

Os apartamentos funcionais

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apartamentosComo todos sabiam, o fim do mundo estava próximo. Corriam rumores terríveis sobre a nefasta profecia do ano 2000, e o grande cataclisma que a tudo e a todos varreria com fúria bestial. Mas, certos de que não era a primeira vez que o mundo estava para acabar, os pragmáticos suecos levavam adiante seu plano para a primavera daquele ano: instalar nos recém-criados apartamentos funcionais os últimos parlamentares que ainda viviam e dormiam nos próprios gabinetes. A mudança começara em 1989.

No dia mais temido, os lobos não engoliram o sol e a lua, o céu não derreteu, e quase todos os deputados com base fora da capital passaram a ter um apartamento funcional. Que é, no sentido prático do termo, o que o nome diz: funcional.

Se um sueco de virtudes negociáveis é assaltado pelo desejo súbito de trabalhar pelo povo, o apartamento funcional não será um dos estímulos a seduzi-lo, como serpente encantada, para a carreira política.

Parlamentares suecos vivem em apartamentos funcionais que têm em média 45,6 metros quadrados. Os menores têm 16,6 metros quadrados. Do total de 197 imóveis administrados pelo Parlamento sueco, apenas oito dispõem de espaço entre 70 e 90 metros quadrados, e somente 85 têm área superior a 45,6 metros quadrados.

Deputados suecos também vivem em quitinetes funcionais. Sim, há quitinetes funcionais na Suécia. Chamadas de ”quartos de pernoite” (”övernattningsrum”), elas têm em média 18 metros quadrados e são ocupadas geralmente – mas não exclusivamente – por deputados em início de carreira. São, no total, 57 quitinetes funcionais.

Comum a todos os imóveis destinados a parlamentares na Suécia, sejam eles apartamentos ou as inventivas quitinetes, é a ausência do que o senso comum chama de comodidades básicas: dentro dos imóveis não há máquina de lavar roupa, nem lavadora de pratos, nem TV a cabo paga com dinheiro público, nem cama de casal.

Nenhum ocupante de apartamento funcional na Suécia ganha do erário uma máquina de lavar para chamar de sua. As lavanderias são comunitárias, e os deputados precisam marcar hora na agenda para lavar a roupa suja. Na grande parte dos apartamentos, não há sequer quarto: um único cômodo funciona como sala e quarto de dormir.

Numa manhã do curto e inconfiável verão sueco, vou conhecer o apartamento funcional do então deputado social-democrata Luciano Astudillo, nascido no Chile e na época com seis anos de vida parlamentar como representante de Malmö (Sul da Suécia).

Desço pelo Katarinahissen, uma espécie de Elevador Lacerda sueco que liga o asfalto e o morro na ilha de Södermalm, centro de Estocolmo. O lugar provoca emoções ambíguas. Do alto da passarela que conduz ao elevador, abre-se uma das vistas mais fascinantes de Estocolmo, no ponto onde as águas do lago Mälaren se encontram com o Mar Báltco. Mas a alta cerca de aço que atrapalha a visão é resultado, assim me dizem, da atração que a passarela também exercia sobre suicidas em potencial. Menos sobressaltos se têm no Gondolen, o peculiar restaurante em forma de gôndola que fica pendurado sob a passarela, com visão de 360 graus para a cena imperdível.

Após poucos minutos de espera, o deputado Luciano Astudillo surge das roletas de saída da estação de metrô de Slussen, ao lado do Katarinahissen. Caminhamos juntos através da Götgatan, artéria que concentra bares e cafés moderninhos de Södermalm, até chegarmos à rua do apartamento funcional de Luciano.

Sigo o rito sueco de tirar os sapatos antes de entrar em qualquer casa, e olho à minha volta. Uma pequena sala, um pequeno banheiro, uma pequena cozinha com forno microondas e sem lavadora de pratos. São 33 metros quadrados. ”Onde é o quarto de dormir?”, pergunto.

”O quarto é aqui na sala mesmo. Na hora de dormir, abro o sofá-cama”, diz Luciano, que chegou à Suécia em 1975, aos três anos de idade e dois anos depois do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende no Chile. Enquanto mostra o apartamento, Luciano conta que a filha pequena, nas visitas ocasionais a Estocolmo, divide com ele o sofá-cama.

”Estive várias vezes no Chile, e sei que a situação ali em relação aos parlamentares é totalmente diferente”, ele diz.

Descemos ao subsolo do prédio, onde fica a lavanderia coletiva. São apenas duas máquinas de lavar. Pregado na parede junto à porta, está o fichário onde os deputados reservam dia e horário para usar as máquinas. Tábuas de passar roupa estão dobradas em um dos cantos da lavanderia.

”Eu tenho a minha própria tábua”, fala Luciano. ”Prefiro passar minhas roupas dentro do apartamento.”

Também é o próprio Luciano que cozinha e cuida da limpeza da casa, nesta sua época de vida parlamentar. Faxina gratuita nos apartamentos funcionais, segundo o Parlamento sueco, só uma vez por ano, durante o recesso parlamentar de verão. Luciano sabe.

Começa em seguida o período do recesso e das faxinas, quando visito, na companhia da chefe do setor de imóveis parlamentares, as quitinetes funcionais. Na entrada do Parlamento sueco, Marie Stolpe me recebe com a expressão de quem não entende o por quê de tamanho interesse por coisa tão banal.

Ao meu lado, com sua altura vertiginosa e seu temível sotaque da região de Skåne (Sul da Suécia), o cinegrafista Casimir Reuterskiöld me acompanha, a fim de filmar o material que será enviado à equipe do Jornal da Band em São Paulo.

Tomamos a direção do Palácio Real e seguimos os três a pé pela Stallbron, a ponte que liga a ilha do Parlamento a Gamla Stan, a Cidade Antiga de Estocolmo. Na pequena praça de Mynttorget, entramos no anexo parlamentar que leva o nome de Ledamotshuset (”Casa dos Deputados”), e que também abriga gabinetes parlamentares. Passamos pelos procedimentos de segurança e tomamos o elevador para o sexto andar do prédio. Ali estão 13 das 52 quitinetes de deputados do prédio. As outras cinco ficam no complexo parlamentar conhecido como Cephalus, na Riddarhustorget, próximo dali.

Ao lado de cada porta no labirinto de corredores, uma placa identifica o deputado morador – Eva Olofsson, Tone Tingsgård, Christina Oskarsson, Allan Widman são alguns dos inquilinos do momento. À medida que caminhamos, as siglas partidárias se alternam nas placas. Nestes democráticos corredores, deputados progressistas e conservadores, ou ferrenhos inimigos de plenário, se transformam em vizinhos de porta.

Marie vira a chave em uma das portas, com a necessária autorização do deputado ausente em recesso. É um exíguo aposento de 18 metros quadrados.

”É espaço suficiente para um parlamentar viver na capital durante a semana”, diz Marie, enquanto abre o sofá que se transforma em cama durante a noite.

Talvez com pouco exagero, o tamanho da quitinete me faz lembrar as celas que visitei na moderníssima penitenciária de Sala, nos arredores de Estocolmo, onde os detentos – como na maioria das prisões suecas – também têm banheiro privativo.

”Podemos colocar camas extras com rodinhas em caso de necessidade, como a visita de um parente”, concede Marie.

Além do sofá-cama, uma mesa, um pequeno armário, uma minicopa com um fogão de uma boca, um frigobar e um banheiro são suficientes para preencher o espaço da quitinete parlamentar.

Aqui, até a cozinha é comunitária. Marie nos conduz à sala ampla da cozinha coletiva, que, além das modernas estações de reciclagem de lixo, exibe uma inesperada lavadora de pratos, item inexistente nos apartamentos funcionais.

”Mas os deputados devem lavar as panelas e manter a limpeza”, diz Marie.

O aviso pregado em um dos armários da cozinha é um chamado ao asseio parlamentar: ”Städa Upp!” (”Deixe tudo limpo!”)

Perto dali, vejo uma cozinha adaptada para parlamentares portadores de deficiência, que também dispõem de quartos e banheiros especialmente equipados.

Deixamos o prédio da Ledamotshuset e seguimos com Marie Stolpner em direção a Munkbron, endereço de um dos sete edifícios de apartamentos funcionais do Parlamento. Às margens do lago Mälaren, a Munkbron é uma rua ainda nos limites da Cidade Antiga, na ilha de Stadsholmen. Dali se avista a ilha de Riddarholmen e as torres da Riddarholmskyrkan, a igreja onde estão sepultados antigos monarcas da Suécia. À esquerda, vê-se mais uma ilha, a de Södermalm.

A fachada do edifício em tom de amarelo na Munkbron é simples como a do prédio de Luciano Astudillo, em Södermalm. Como em praticamente todos os edifícios de Estocolmo, não há porteiros ou zeladores, e nem mesmo interfone na entrada. Apenas o costumeiro painel eletrônico, onde se digita o código que abre a porta principal.

No andar térreo, o apartamento funcional tem pouco mais de 16 metros quadrados. Na minúscula copa, há um fogão de uma boca, um forno microondas e um frigobar. Uma cama de solteiro, uma mesa e um pequeno armário completam o ambiente, que segundo Marie é ocupado por uma veterana deputada de vários mandatos.

No segundo andar, o iluminado apartamento de 40 metros quadrados é um salto de duas estrelas à frente, em comparação ao vizinho do térreo. Mas à exceção da cozinha, onde mais de uma pessoa pode mexer uma panela no fogão, e dos metros a mais na dimensão da sala, que também é o único cômodo do apartamento, o padrão basicamente funcional dos imóveis parlamentares da Suécia também se repete aqui.

A visita é encerrada no subsolo do edifício, onde vemos nova lavanderia comunitária e o indefectível fichário na parede para a reserva de horário, à espera dos deputados.

Há, sem metáforas, deputados que lavam roupa suja no Parlamento: também ali há uma lavanderia comunitária. É o caso da deputada Rossana Dinamarca, do Partido da Esquerda (Vänsterpartiet, ex-comunista):

”Como costumo voltar muito tarde para o meu apartamento funcional, lavo minhas roupas durante o dia, na lavanderia do Parlamento. É simples, basta colocar na máquina e voltar uma hora depois para recolher as roupas”, diz Rossana.

E na creche do Parlamento, os deputados podem deixar os filhos com idades entre um ano e treze anos.

”Mas os deputados precisam pagar pelo almoço das crianças, que custa 20 coroas (cerca de três dólares)”, diz Monika Karlsson, funcionária da creche. Em dias de sessão noturna, a creche fica aberta até à meia-noite – ou mais.

Os apartamentos e quitinetes funcionais estão à disposição somente de deputados como Rossana Dinamarca, que têm base eleitoral a pelo menos 50 quilômetros de distância da capital. Deputados de Estocolmo não têm direito a imóvel funcional, nem auxílio-moradia. E o Presidente do Parlamento sueco não tem direito a residência oficial.

”O Presidente do Riksdag não tem nenhum privilégio especial em relação a moradia. Seus direitos são os mesmos dos demais parlamentares”, diz Maria Skuldt, da assessoria de imprensa do Parlamento.

Fica a critério de cada partido decidir como acomodar seus parlamentares – quem vai para os apartamentos, quem fica com as quitinetes. O Parlamento cobre os custos de manutenção dos imóveis. Mas não todas as contas.

”Os parlamentares têm verba mensal de 100 coroas suecas (cerca de 15 dólares) para gastos com eletricidade, e nada mais. Eles podem solicitar serviços de limpeza no apartamento se quiserem, mas para isto têm que pagar cerca de 300 coroas suecas (aproximadamente 46 dólares) por faxina”, diz a chefe do setor de Serviços Parlamentares (Ledamotsservice), Anna Aspegren.

Mais: o erário público paga apartamentos funcionais exclusivamente para parlamentares. A cônjuges de deputados, familiares, namorados e afins, é negado o benefício de morar ou até mesmo pernoitar em propriedade do Estado sem pagar. Quando o familiar de um parlamentar passa uma temporada no imóvel funcional, o deputado tem prazo de um mês para ressarcir o erário pelos dias de pernoite.

E nesta sociedade onde mais de 75 por cento das mulheres estão na força de trabalho, se a esposa de um deputado do interior decide viver no apartamento funcional da capital com o marido, cabe a ela arcar com a metade do valor do aluguel.

”É claro que não pagamos para ninguém morar de graça, a não ser os parlamentares com base eleitoral fora da capital”, diz Anna Aspegren.

Os parlamentares têm duas opções de moradia na capital sueca: a primeira é viver em um dos apartamentos ou quitinetes funcionais. A segunda é alugar um apartamento por conta própria, e cobrar do Parlamento o ressarcimento correspondente ao valor do aluguel. Neste caso, o valor máximo que o Parlamento reembolsa aos deputados é de 8 mil coroas suecas mensais (o equivalente a cerca de 1,2 mil dólares), quantia relativamente baixa para a escassa oferta imobiliária do centro da capital.

”Mas os parlamentares que vivem com o cônjuge em um apartamento alugado só podem pedir reembolso da metade do valor do aluguel, e têm que pagar do próprio bolso pela manutenção do imóvel”, explica Anna Aspegren.

É o que faz a líder do Partido de Centro (Centerpartiet), Annie Lööf, que divide o apartamento funcional com o marido.

”O marido de Annie tem que pagar sua parte do aluguel, como qualquer outro cidadão”, diz Aspegren.

Em 2011, o líder do Partido Social-Democrata, Håkan Julholt, sapateou nas regras. E enfrentou as consequências.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Escândalo do Apartamento Funcional

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julholt

Jornal Dagens Nyheter, 08.10.2011 – Foto: Roger Turesson

Riksenheten mot korruption granskar Juholt

”Agência Nacional Anti-Corrupção Investiga Juholt”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Håkan Julholt parecia ser a encarnação do Messias que a social-democracia sueca esperava. Orador eloquente, ar vitorioso, Julholt assumiu a liderança do partido em março de 2011 com a missão de voltar a eletrizar o eleitorado e reconduzir os social-democratas ao poder, após duas vergonhosas derrotas eleitorais consecutivas.

Mas no meio do caminho, havia um apartamento funcional com uma namorada dentro. A revelação de que a companheira do líder morava no apartamento funcional, sem pagar sua devida parte do aluguel, interrompeu a ofegante escalada de Håkan nas pesquisas de opinião. Era outubro, e o caso faria Håkan entrar na cadência das folhas das árvores do outono sueco, em sua lenta e inevitável queda ao chão.

A denúncia partiu do jornal Aftonbladet: desde 2007, Håkan Julholt vinha ”recebendo dinheiro dos contribuintes para pagar o aluguel integral do apartamento funcional” que dividia com a companheira, Åsa Lindgren. Foi escândalo instantâneo. No total, Håkan tinha recebido 320,532 coroas suecas (cerca de 49 mil dólares) durante quatro anos e meio. Pelas estritas regras do Parlamento sueco, Åsa deveria ter arcado com a metade deste valor – aproximadamente 160 mil coroas suecas (cerca de 25 mil dólares).

O caso foi parar na polícia. ”Agência Nacional Anti-Corrupção Investiga Julholt”, noticiou a mídia em coro. Concluída a investigação preliminar, a Agência Anti-Corrupção encaminhou o caso ao Departamento Criminal da Polícia Nacional da Suécia (Riksenheten för Polismål), como mandam as normas que regem supostos crimes envolvendo parlamentares na Suécia.

Sem temer o inferno, Julholt jurou inocência e disse que não conhecia as regras que obrigam cônjuges e familiares a pagar pelo uso dos apartamentos funcionais. Mas tratou de devolver, sem esperneios nem demora, as 160 mil coroas suecas recebidas indevidamente. Håkan agiu rápido. Mas já era tarde.

”Eu errei por não ter me informado sobre as regras do uso de apartamentos funcionais. Peço desculpas por isso. Gostaria de enfatizar que não pedi dinheiro demais deliberadamente”, disse Julholt. Já segundo o setor de Administração do Parlamento, um assistente do líder social-democrata tinha sido notificado sobre a questão meses antes.

Håkan Julholt vem da cidade de Oskarshamn, 300 quilômetros ao sul de Estocolmo. Eleito deputado em 1994, ele ocupava sozinho um apartamento funcional no centro da capital. Em 2007, Håkan mudou-se para o apartamento da namorada Åsa, no subúrbio de Västertorp. A partir daí, registrou o imóvel dela como o seu novo apartamento funcional na capital, e passou a solicitar ressarcimento pelo valor do aluguel de 7.225 coroas suecas.

O aluguel do apartamento no subúrbio era mais barato que o do apartamento funcional que Håkan ocupava antes, sozinho, no centro da capital. O valor do aluguel no subúrbio também estava abaixo de oito mil coroas suecas, que é o limite máximo estabelecido pelo Parlamento para pagamento de auxílio-moradia a parlamentares.

Com esse e outros argumentos, Håkan percorreu incessantemente o país durante dois meses para pedir desculpas ao eleitorado, na chamada ”turnê do perdão” (förlåtelseturnén).

Mas o pecado de Håkan Julholt foi imperdoável: a companheira do líder estava morando no apartamento funcional às custas do dinheiro do contribuinte, sem pagar a parte do aluguel que cabia a ela, e não ao erário, custear. A esta altura, a imprensa revelara ainda que a namorada teria acompanhado Håkan em uma viagem oficial à Bielo-Rússia – e neste caso, segundo as regras parlamentares suecas, ele teria direito ao reembolso de apenas metade dos gastos com hotel.

O seguinte diálogo com Julholt foi publicado no jornal Dagens Nyheter na edição de 8 de outubro de 2011:

Repórter: ”Como você pôde crer que os contribuintes deveriam pagar o valor total do aluguel, se você divide o apartamento funcional com sua companheira?”
Håkan Julholt: ”Isso nunca passou pela minha cabeça. O que eu não sabia é que, quando um parlamentar divide o apartamento funcional com alguém, deve pedir reembolso apenas pela metade do valor do aluguel. Eu deveria conhecer esta regra. Não procurei me informar, mas deveria ter feito isso”.
Repórter: ”Você não acha lógico ter que dividir o valor do aluguel do apartamento funcional com sua companheira, uma vez que ela também mora lá?”
Håkan Julholt: ” Certamente”.
Repórter: ”Você chegou a refletir sobre essa lógica?”
”Não, eu não cheguei a fazer isso. O apartamento funcional que eu ocupava antes sozinho, no centro de Estocolmo, era mais caro. Por isso, não cheguei a refletir sobre essa questão”.
Repórter: ”Como considera que esse episódio vai afetar a confiança dos eleitores em você?”
Håkan Julholt: ”Isso prejudica a imagem dos políticos como um todo.” (fonte: jornal Dagens Nyheter,”Riksenheten mot korruption granskar Juholt”, 08.10.2011. http://www.dn.se/nyheter/politik/riksenheten-mot-korruption-granskar-juholt)
O escândalo produziu editoriais inflamados. O diário liberal Gefle Dagblad observou que, como líder do Partido Social-Democrata, Håkan Julholt tinha uma renda mensal de 144 mil coroas suecas (cerca de 22 mil dólares).
”Com um salário desses, nem o Joakim von Anka (o milionário e avarento Tio Patinhas das histórias em quadrinhos)” entraria numa fraude para ganhar algumas notas de mil”, disse o editorial.
Muitos deram crédito à alegação de Julholt de que ele não tinha conhecimento sobre as regras de ocupação do apartamento funcional. Mas se perguntaram se os eleitores perdoariam o líder, e se Julholt seria, afinal, um candidato adequado a ocupar o posto de primeiro-ministro da Suécia.
Em janeiro de 2012, já desgastado por intensas pressões para abandonar a liderança do partido, Håkan Julholt anunciou a renúncia. Durou dez meses no cargo.

”Os suecos detestam quando vêem alguém que ocupa posição de poder enchendo o próprio bolso”, comentou a cientista política Jenny Madestam, em declarações à agência de notícias sueca TT.

O escândalo de Håkan fez o Parlamento introduzir novas regras: hoje, todo deputado é obrigado a declarar, em formulário oficial, se vive sozinho ou com quem divide o apartamento funcional. Antes, valia só a lei da confiança no respeito às normas.

Uma conversa com a deputada Eva Flyborg

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Eva

Eva Flyborg (imagem do blog da deputada)

Dormir em um sofá-cama no gabinete não era nenhum problema

 

 

Nos tempos de Eva, nem a visão mais demente do paraíso poderia descrever a realidade da vida de um parlamentar sueco. Pratos e roupas eram lavados a mão na pia do gabinete, cama não havia, apartamentos funcionais não existiam. Durante os quatro primeiros anos do seu mandato, de 1994 a 1998, Eva Flyborg, deputada do Partido Popular Liberal (Folkpartiet), dormiu em um sofá-cama no próprio gabinete, no Parlamento.

Chego ao Parlamento para a conversa com Eva numa manhã gelada do inverno sueco, dessas em que até os cachorros tremem nas ruas debaixo de suas roupas especiais de passear no frio. No saguão de entrada, sou recebida por um funcionário que me encaminha ao escritório da deputada, na ala do Parlamento reservada ao Partido Liberal. Pergunto se ele é o assessor de Eva Flyborg. ”Trabalho em meio expediente auxiliando Eva e outros oito deputados em diferentes tarefas. Na Suécia não existem assistentes particulares para parlamentares”, pontua Lars Johansson, o assessor coletivo.

Porta-voz do Folkpartiet para assuntos relacionados a energia, indústria e comércio, Eva Flyborg é economista e ex-funcionária da montadora sueca Volvo. Ela nasceu em 1963 em Otterhällan, na região de Gotemburgo (costa oeste da Suécia), e é também conhecida como a fundadora da Associação de Fãs dos Beatles do Parlamento sueco.

Em seu atual escritório de 12 metros quadrados, sem secretária na porta, copa com cafezinho ou banheiro privativo, a deputada contou como era a vida dentro do gabinete naqueles idos de 1990.

 

EVA FLYBORG: O escritório era pequeno, tinha cerca de 10 metros quadrados. Havia um banheiro bem pequenino, uma máquina de café, uma torradeira, e isso era tudo. Tínhamos que lavar os pratos e as roupas na pia do banheiro. No subsolo havia uma lavanderia coletiva, que poderia ser usada caso não estivesse ocupada por alguns dos outros mais de 300 deputados.

. Não era uma lavanderia grande?

EVA FLYBORG: ”Não, não. Era uma lavanderia pequena. Duas máquinas de lavar”.

. Duas máquinas de lavar para 349 deputados?

EVA FLYBORG: Sim, duas. Muitos deputados preferiam lavar a roupa na pia do banheiro do escritório ou então levar as roupas para casa, em seus estados de origem, e trazê-las de volta limpas.

. E as roupas lavadas, era preciso pendurar no próprio escritório?

EVA FLYBORG: Sim. Aonde mais eu poderia pendurar? Eu só tinha o meu escritório. Então eu pendurava as roupas nas cadeiras, no computador, no abajur. De manhã, quando estavam secas, era só recolher.

. Trabalhar e dormir dentro do escritório no prédio do Parlamento era considerado normal, ou havia um sentimento de insatisfação entre os deputados?

EVA FLYBORG: Não, era normal, sem problemas.

. Nenhum deputado reclamava dessas condições?

EVA FLYBORG: Você vive um tipo de vida diferente quando é deputado. Não é um emprego normal. E você sabe disso desde o princípio.  Eu fui escoteira quando era garota, então para mim não era nenhum problema dormir num sofá-cama no escritório. E os suecos são um povo muito prático. Você faz o melhor que pode. Se tem que lavar uma roupa e precisa ser na pia do banheiro, tudo bem.

. Por que então o Parlamento decidiu criar apartamentos funcionais para parlamentares, a partir do fim da década de 90?

EVA FLYBORG: A decisão de criar apartamentos funcionais para deputados só foi tomada com base na obediência a normas legais de segurança contra incêndio e também a normas ambientais. Porque chegou-se à conclusão de que era arriscado demais ter deputados vivendo, comendo e acendendo velas em seus escritórios, em meio a todos esses documentos e livros. Por isto, tiveram que nos retirar dos prédios do Parlamento. Do contrário, ainda estaríamos vivendo em nossos escritórios.”

. A senhora estaria?

EVA FLYBORG: Sim, estaria. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Veja bem, a minha casa não é aqui na capital. Minha casa é em Gotemburgo. É lá que eu vivo, é lá que estão a minha família, o meu carro, os meus amigos. Eu apenas trabalho em Estocolmo durante parte da semana. Até alguns anos atrás, eu ficava de segunda a sexta-feira na capital por conta da minha agenda parlamentar, e às vezes também durante o final de semana. Em algumas ocasiões, era necessário permanecer em Estocolmo durante um mês. Atualmente, passo quatro dias por semana na capital.

. Como a senhora compara o sistema sueco em relação a países nos quais os políticos gozam de privilégios como espaçosos gabinetes e apartamentos funcionais, motoristas, secretárias e assessores particulares?

EVA FLYBORG: Em primeiro lugar, não julgo nenhum país. Cada sociedade faz suas próprias escolhas. Mas devo dizer que certos privilégios concedidos a políticos em certos países me parecem excessivamente exorbitantes. Talvez isso seja um reflexo da visão da sociedade destes países de que a representação política é uma função importante, que deve portanto ter status social. Na Suécia, não atribuímos status algum à função de político. Talvez seja esta a diferença. E se alguém chamasse algum deputado aqui de Excelência, as pessoas iam achar ridículo. Somos todos iguais. Ninguém está acima de ninguém. Com uma única exceção: a Família Real. Mas a Família Real não tem mais poderes.

. Como é o seu atual apartamento funcional?

EVA FLYBORG: ”Hoje vivo em um dos maiores apartamentos funcionais do Riksdag, que tem 48 metros quadrados. Isso porque sou deputada há muitos anos, e também porque meu filho vivia comigo aqui. Então, foi uma conjunção de fatores.”

. É um apartamento de dois quartos?

EVA FLYBORG: Não, apenas um quarto. Pequeno. Eu dividia o quarto com meu filho, que atualmente estuda em Gotemburgo.

. A senhora precisava pagar para que seu filho vivesse no apartamento funcional?

EVA FLYBORG: Não, porque na época ele tinha menos de 12 anos de idade. Acima de 12 anos, qualquer filho de parlamentar precisa pagar para ter direito a viver ou pernoitar no apartamento funcional, o que é normal. Em qualquer hotel, crianças acima dessa idade têm que pagar para dormir.

. O apartamento tem alguma comodidade, como máquina de lavar, ou de lavar pratos?

EVA FLYBORG: Não, não há nada disso. Temos uma lavanderia no subsolo do prédio. São duas máquinas de lavar para dois edifícios, que têm cerca de 80 apartamentos no total. ”

. Deputados lavam roupa e passam suas próprias camisas?

EVA FLYBORG: E quem mais deveria fazer isso? Por que alguém deveria fazer isso para você, se você sabe fazer? É também mais prático. Eu passo a minha camisa em dois minutos. Se eu fosse deixar na lavanderia, teria que gastar tempo e dinheiro. Não tenho tempo para isso. É mais fácil eu mesma fazer. Faço jantar em vinte minutos, e passo minha camisa em dois minutos. É um esquema bastante eficiente”.

. Como deputada e integrante da comissão parlamentar de Indústria e Comércio, a senhora não tem assistente particular no seu gabinete.

EVA FLYBORG: Não.  Eu e outros oito deputados dividimos um assistente, que trabalha em regime de meio expediente.

. Não há uma secretária para ajudá-la, por exemplo, a marcar uma passagem de avião para participar de um encontro ou conferência?

EVA FLYBORG: Não. E é mais rápido e eficiente eu mesma fazer, em vez de falar com uma secretária que vai telefonar para a agência de viagens, voltar a falar comigo sobre diferentes opções de vôo, e então ligar de novo para a agência de viagens, até achar a alternativa que me atende melhor, de acordo com as necessidades e restrições da minha agenda pessoal. Não seria portanto muito eficiente dar essa tarefa a uma secretária, não é verdade?

. Não, a menos que a deputada tivesse uma secretária particular que organizasse seus compromissos e coordenasse a sua agenda pessoal.

EVA FLYBORG: Bem, isso não existe aqui na Suécia. Nenhum deputado tem secretária particular.

. Seria algum privilégio exorbitante ter secretária particular?

EVA FLYBORG: ”Na minha opinião, sim. Porque não é justo com o restante da sociedade. Seria demais. E um deputado não precisa disso. Privilégios tendem a transformar um deputado, e políticos em geral, em pessoas acima dos cidadãos que os elegeram. Dessa maneira, cria-se uma distância entre o povo e seus representantes, o que por sua vez gera um sentimento de desconfiança e descrença da população em relação aos políticos.

Os gabinetes espartanos

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 Riksdagens Hus / foto: photoguide.se

 

Os gabinetes parlamentares dos deputados suecos têm em média 15 metros quadrados, e decoração frugal. ”Os sofás são disputados, não temos para todos”, diz Ömer Oguz, porta-voz do Partido Social-Democrata na época. Ele aponta para um franzino sofá vermelho de três lugares, do tipo encontrado em lojas de móveis populares, no estilo da sueca IKEA.

Estamos no anexo parlamentar da Riksdagens Hus, a base dos deputados social-democratas. O edifício é uma antiga construção circular situada na Riddarhustorget, a poucos passos do Parlamento. O átrio central, aberto ao público, é dominado pela monumental escultura de uma mulher nua, que o artista Ivar Johnson batizou de ”Morgon” (”Manhã”). Em torno do átrio, pequenas passagens desembocam na rua Myntagatan e em vielas da Cidade Antiga.

Da entrada do complexo parlamentar vê-se a imponente torre da Catedral de Estocolmo (Storkyrkan), onde a princesa Victoria, herdeira do trono sueco, casou-se com seu ex-personal trainer em 2010. Mas por dentro, o tom é de austeridade.

Ao longo dos imensos corredores que percorro, cada porta se abre diretamente para um dos diminutos gabinetes parlamentares. Nenhum escritório de deputado possui hall de entrada com secretária, copa com máquina de café ou banheiro privativo. Apenas uma mesa simples em madeira clara com um computador, armários de prateleiras no mesmo estilo, e um aparelho de TV. Alguns gabinetes têm ainda uma pequenina mesa redonda.

Em cada andar, uma cafeteira automática localizada no corredor atende a cerca de 25 parlamentares. Deputados pegam ali os copos, de papel, e servem a si próprios. Alguns aproveitam para tirar do bolso suas caixas redondas de snus, o tradicional tabaco umedecido dos países escandinavos. O snus exala odor detestável, e é prova de que há gosto para tudo: embalado em papéis que lembram saquinhos de chá em miniatura, o tabaco é colocado entre a gengiva e a bochecha. É mais seguro que o cigarro, mas também é nocivo. Quem é contra, diz que é a ante-sala do vício.

Perto das cafeteiras, estão balcões com os jornais diários e publicações diversas. São para uso coletivo dos parlamentares: as assinaturas de jornais e revistas são custeadas pelo partido, e deputados não têm verba pessoal para assinar publicações.

”Podemos levar um jornal para ler no gabinete, e colocá-lo de volta em seguida no balcão”, diz o deputado Michael Hagberg.

”Não vejo necessidade de se pagar centenas de assinaturas individuais para cada deputado ter seus próprios jornais e revistas. Também podemos ler jornais e outras publicações na biblioteca do edifício, e há bibliotecas em cada complexo parlamentar”, acrescenta ele.

Nos corredores, estão ainda estações de reciclagem de lixo e armários que guardam material de escritório para os parlamentares.

Os menores gabinetes do Parlamento têm 10 metros quadrados. Os maiores têm em média 25 metros quadrados, e alguns chegam a 45 metros quadrados. São reservados aos líderes de partidos e presidentes de comissões parlamentares. No escritório de cerca de 30 metros quadrados do líder social-democrata, não há vestígio de luxo: seu privilégio é a garantia do sofá.

Sem secretárias e assessores particulares

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Secretárias e assessores particulares, reais ou imaginários, não fazem parte do mundo de um deputado sueco.

”Nenhum deputado tem secretária particular, nem contrata assessores”, diz Mats Lindh, assessor do setor de Serviços Parlamentares.

No sistema sueco, cada partido político representado no Parlamento recebe verba restrita para contratar um grupo de assistentes e assessores, que formam o chamado secretariado do partido. E este grupo de funcionários atende, coletivamente, a todos os deputados de uma sigla.

A verba de contratação cobre, a título de cálculo, o salário de um assessor por cada deputado, no valor de 50,3 mil coroas suecas (cerca de 17,5 mil reais, ou 7,6 mil dólares). Cada partido é livre para distribuir o valor da verba como quiser, de maneira a montar uma equipe de assistentes que melhor atenda às necessidades dos deputados. Mas a regra geral é que nenhum deputado têm assessor particular: todos dividem entre si um pool de assessores e assistentes, que entre outras atividades preparam textos políticos e cuidam das relações com a imprensa.

Nos corredores da base parlamentar do partido Social-Democrata, o porta-voz fornece a lista do secretariado: 95 funcionários trabalham em conjunto para apoiar as atividades de 130 deputados. São no total 52 assessores políticos, 33 funcionários de apoio para questões políticas e de imprensa, e dez assistentes administrativos – que não costumam estar à disposição dos deputados para tarefas pessoais:

”Cada deputado cuida da sua agenda de trabalho e marca ele próprio, por exemplo, bilhetes de trem ou avião”, diz Ömer Oguz.

Já o líder do Partido Social-Democrata tem um total de dez funcionários em seu gabinete no Parlamento. E, sim, uma secretária na porta.

Para o cientista político sueco Rune Premförs, manter uma força-tarefa de assessores particulares para um só parlamentar é uma aberração.  Em seu escritório na Universidade de Estocolmo, ele conta que certa vez visitou um amigo que trabalhava para um senador americano em Washington. Surpreso, constatou que todos os funcionários que estavam no escritório serviam apenas àquele único senador.

”Por que todos esses recursos deveriam estar à disposição de um único político, se podem ser divididos? Representantes políticos devem também ser representantes do povo em termos de não se atribuir condições privilegiadas”, opina.

É válido o argumento de que países grandes têm grandes problemas, diz o cientista político, e que para resolvê-los precisam de mais recursos humanos.

”Mas isto não significa necessariamente aumentar os privilégios pessoais, na forma de assessores particulares. O que um parlamentar precisa é de serviços de informação e consultoria de qualidade para apoiar suas atividades e a sua tomada de decisões. Na Suécia, um dos setores do Parlamento que mais se expandiu nos últimos vinte anos foi o RUT (Serviço de Pesquisas do Parlamento), que fornece todo tipo de pesquisas, estatísticas e consultorias especializadas a parlamentares de todas as siglas”, fala Premförs.

Até a década de 70, os deputados não tinham nem assistentes e nem mesmo escritórios individuais no Parlamento, lembra o cientista político Daniel Tarchys.

”Ao longo do tempo, foram introduzidos recursos como o auxílio de assistentes e assessores. Mas estes recursos nunca foram destinados diretamente a um deputado em particular, e sim ao partido, a quem cabe decidir como usá-los para serviços coletivos ou individuais”, diz Tarchys.

”Este sistema reflete a forte posição dos partidos no Parlamento, e o forte grau de coesão partidária na Suécia”, aponta o cientista político.

No Governo, cada ministro possui uma secretária e uma equipe que varia entre  dois e nove assistentes, segundo o departamento de administração governamental (Förvaltningsavdelningen Regerinskansliet).

Paula Carvalho Olovsson, Assessora Parlamentar

”Não trabalho como assessora particular para nenhum deputado”

 
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Filha de um ex-deputado português e de uma vereadora sueca, a cientista política Paula Carvalho Olovsson trabalha desde 2005 como assessora parlamentar do partido Social-Democrata. Na base parlamentar do partido, na Riksdagens Hus, ela conta como é assessorar todos os deputados de um só partido.

. Como é o seu trabalho como assessora política na Suécia?

PAULA CARVALHO: Não trabalho como assessora para nenhum deputado em particular, e sim para o grupo de parlamentares social-democratas como um todo.

. São mais de cem deputados no partido. Qualquer um pode pedir a sua ajuda?

PAULA CARVALHO: Não pedem ajuda ao memo tempo, pois temos um esquema bem organizado. Nós, assessores políticos, somos divididos em grupos especializados em determinados assuntos. Por exemplo, alguns colegas meus trabalham exclusivamente na área de assuntos sociais ou de economia, e outros são especializados em questões relacionadas à saúde ou à criminalidade. Há também colegas que trabalham junto às comissões parlamentares, escrevendo moções em linguagem mais rebuscada. A minha função é principalmente reescrever as moções parlamentares em linguagem mais acessível, para que os deputados possam usar quando forem dar entrevistas, fazer discursos ou encontrar os eleitores. Ou seja, há assessores com expertise específico para diferentes áreas de atuação dos parlamentares.

. O sistema funciona bem, ou seria mais desejável que os deputados suecos tivessem mais assessores?

PAULA CARVALHO: Para nós, funciona muito bem. E penso que também trabalhamos de forma mais eficaz. Com pessoas demais trabalhando numa determinada área, muitas vezes acaba-se fazendo coisas desnecessárias.

. Você quer dizer que assessores demais não é bom?

PAULA CARVALHO: Eu acho que não.  E os deputados suecos também podem contar com o Serviço de Pesquisas do Parlamento (RUT), que possui consultores apartidários com especialização em diversas áreas para produzir estudos, projeções e consultorias técnicas.

. Os deputados suecos cuidam da própria agenda e marcam suas viagens e passagens?

PAULA CARVALHO: Sim, claro. Para nós, é claro que eles devem fazer isso.

. Como compara o sistema sueco com o de países como Portugal ou o Brasil, onde deputados têm equipes de assessores particulares?

PAULA CARVALHO: Para nós, estes são mundos diferentes. E não me parece necessário ter tantos assessores em um só gabinete. Aqui, jamais aconteceria. Em primeiro lugar, porque os suecos nunca aceitaram nem nunca aceitariam isso. Há muitas pessoas na Suécia que pensam inclusive que os politicos suecos já têm direitos demais, e que ganham bem demais. As pessoas aqui não gostam de os políticos terem coisas que as pessoas normais não têm. Os politicos suecos têm que ser como cidadãos comuns. E aqui na Suécia não temos corrupção como, por exemplo, na Itália.

 

O salário líquido de um deputado: 50% a mais do que ganha um professor primário

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Para viver em um país que tem um dos mais elevados custos de vida do mundo, e onde se paga um dos mais altos impostos do planeta, um deputado do Parlamento sueco recebe o equivalente a cerca de 21 mil reais por mês (em taxa cambial de agosto de 2013). Descontados os impostos, o deputado recebe em sua conta um salário que corresponde, em valores líquidos, a cerca de 50 por cento a mais do que ganha em média um professor primário na Suécia após os descontos fiscais.

O valor bruto do salário de um deputado do Parlamento sueco é comparável ao de um médico do sistema público de saúde, que recebe em média 54,9 mil coroas suecas ao mês (cerca de 8,8 mil dólares). Segundo os números da Agência Central de Estatísticas da Suécia (Statistiska Centralbyrån), o salário médio de um cidadão sueco é de 35,8 mil coroas (cerca de 5,4 mil dólares). Um professor primário ganha em média 26,5 mil (cerca de 4 mil dólares). Uma enfermeira, 32,2 mil (cerca de cinco mil dólares). Um policial recebe em média 30,5 mil (4,6 mil dólares), e um juiz, 45,1 mil coroas (cerca de 7 mil dólares).

Um deputado ganha quase o dobro do que recebe um professor primário – mas no sistema escalonado de impostos que vigora na Suécia, ele paga impostos mais altos sobre o salário. Em coroas suecas, o contra-cheque de um deputado é de 58,3 mil por mês (cerca de 9 mil dólares). Uma vez descontados os impostos, o salário líquido do deputado fica em cerca de 35,2 mil coroas (aproximadamente 5,3 mil dólares). Já um professor primário, que paga uma carga tributária menor, recebe em média um salário líquido de cerca de 18,3 mil coroas suecas (cerca de 2,8 mil dólares). Ou seja, aproximadamente a metade do que recebe um parlamentar.

Com suas 35 mil coroas no bolso, um deputado sueco pode se considerar razoavelmente próspero, e é conveniente que se sinta plenamente realizado. Pois benefícios extras como os defuntos auxílios-paletó do Brasil, ou gratificações, abonos de permanência, adicionais de insalubridade, prêmios, verbas de representação e penduricalhos do gênero não estarão aumentando os zeros em sua conta bancária.

Se um deputado tem sua base eleitoral fora da capital, o que ele pode solicitar é o chamado traktament, uma ajuda de custo para os dias da semana em que trabalha em Estocolmo. O valor desta diária, paga estritamente aos parlamentares que não têm residência permanente na capital, é de 110 coroas suecas (cerca de 16,8 dólares, ou 38 reais).

Uma rápida checagem nas tabelas de preço de Estocolmo dá uma noção do que se compra na capital com 110 coroas suecas na carteira: um café com três ou quatro bullar (os tradicionais pães doces suecos que acompanham o café), ou uma pizza com refrigerante, ou dois maços de cigarro, ou um tradicional prato de köttbullar, as almôndegas suecas servidas com geléia de arandos vermelhos e purê de batata. Nos pequenos restaurantes populares que servem almoço na cidade, um prato executivo sai em média por 90 coroas suecas (cerca de 14 dólares).

Mas para parte considerável dos cidadãos que pagam o salário dos deputados, através do dinheiro de seus impostos, o contra-cheque dos parlamentares ainda é alto demais.

”Por que um deputado tem que ganhar muito mais do que um professor?”, pergunta Monika Karlsson, funcionária da creche que funciona dentro do Parlamento.

Ou, como diria o motorista de táxi do aeroporto de Arlanda: ”Está bom, mas pode ficar melhor”.

No momento iluminado, os deputados do Partido da Esquerda (Vänsterpartiet, ex-comunista) fizeram o mesmo raciocínio da Monika da creche: chegaram à conclusão de que o salário dos deputados na Suécia desafiava o limite do bom senso e do insuportável. Resolveram tomar uma atitude.

No congresso partidário de janeiro de 2012, decidiram que todos os deputados do Vänsterpartiet deveriam obrigatoriamente destinar parte dos seus salários ao partido, a fim de financiar atividades partidárias. Desde então, quando chega o contra-cheque salarial de 58,3 mil coroas suecas, seus deputados ficam com apenas 27,5 mil (cerca de 4,2 mil dólares).

”Para o Vänsterpartiet, é importante o princípio de que ninguém deve enriquecer no exercício da função política. Um político não deve ganhar salários muito maiores do que o de um trabalhador comum”, refletiu a liderança do partido na cidade de Norrköping (leste da Suécia), na página de opinião do jornal Norrköpings Tidningar.

”Estamos na política para promover mudanças na sociedade, e não para enriquecer e fazer carreiras (…) Esperamos que outros partidos políticos tenham coragem suficiente para seguir nosso exemplo”, completou o texto, assinado por Niclas Lundström, Linda Snecker e Per Gawelund.  (Fonte: ”Politikerna har för höga löner”, jornal Norrköpings Tidningar, 14/01/2012)

Se o corte salarial provocar o surgimento de pedras nos rins de alguns parlamentarares do Vänsterpartiet, basta lembrar que, até 1957, os deputados do Parlamento sueco não recebiam sequer salário. A decisão de introduzir o pagamento de salário aos parlamentares foi tomada, segundo os arquivos do Parlamento, após chegar-se à conclusão de que nenhum cidadão deveria ser ”impedido de tornar-se um deputado por razões econômicas”.  Mas o valor do salário não deveria ”ser alto a ponto de se tornar economicamente atraente”. (fonte: ”Riksdagsarvodet – Betänkande av den av riksdagens förvaltningsstyrelse utsedde särskilde utredaren”, Estocolmo, 1998, Parlamento sueco)

”Até pouco tempo atrás, os deputados da Suécia eram sustentados apenas pelos membros de seu partido, e não pelo Estado. Um salário oficial foi então introduzido, mas apenas para os meses do ano em que o Parlamento realizava sessões”, diz Daniel Tarschys, ex-deputado e atual professor de Ciências Políticas da Universidade de Estocolmo.

 

Era um salário baixo, lembra Tarschys.

 

”Quando fui eleito para o Parlamento em 1976, os dois meses de recesso parlamentar não eram pagos, pois presumia-se que neste período os deputados voltariam a trabalhar em tempo integral em seus empregos normais. Como o salário parlamentar era muito baixo, funcionários públicos e também de empresas privadas, que exerciam em paralelo a função de deputados no Parlamento, chegavam a receber uma pequena verba suplementar dos empregadores”, conta Tarschys.

 

Só a partir de 1984, segundo os documentos do Parlamento, os deputados passaram a receber salário mensal para desempenhar a função política em tempo integral.

 

”Na época, o valor da remuneração de um deputado correspondia ao salário médio de um funcionário público. Este valor aumentou gradualmente, e hoje equivale ao salário de um funcionário público de nível sênior, mas não do nível máximo na hierarquia”, observa o cientista político.

 

Deputados suecos ganham mais do a média dos cidadãos, mas menos do que recebe a maior parte dos parlamentares de países da União Européia. Ministros recebem 118 mil coroas mensais (cerca de18 mil dólares). O Presidente do Parlamento recebe por sua função o mesmo valor do salário do Primeiro-Ministro, de 148 mil coroas por mês (aproximadamente 22,6 mil dólares) – o que equivale a cerca de 70 por cento do que ganha o premier da Grã-Bretanha, e aproximadamente a metade do salário do presidente dos Estados Unidos.

Há quem pondere que baixos salários não atraem as mentes mais brilhantes para a política. Para alguns, um salário baixo também traz o risco de que a função política se torne um playground para os mais ricos. O diplomata sueco Hans Blix prega o caminho do meio: um salário ”razoavelmente bom” para os representantes políticos.

”O equiíbrio é necessário.  É não pagar demais, nem de menos. Se você paga salários altos e ainda por cima garante imunidade parlamentar, a carreira política passa a atrair o tipo errado de pessoa. Se paga pouco, pode desestimular pessoas capazes a entrar na política. O importante é que os políticos compreendam que são servidores públicos, e que é o dinheiro público que os alimenta”, diz Blix.

Já outros discordam integralmente da tese de que melhores salários atraem seres vertebrados para a política, e, portanto, políticos mais aptos:

”Eu diria que nunca vi, em nenhum lugar do mundo, um sistema que atraia mentes brilhantes para a política”, me diz o cientista político Rune Premförs, da Universidade de Estocolmo.