Islândia: primeiro país do mundo a exigir salários iguais para homens e mulheres

CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

A Islândia vai ser o primeiro país do mundo a obrigar os empregadores a provarem que pagam o mesmo salário para trabalho igual – independentemente de gênero, etnia, sexualidade ou nacionalidade. O anúncio foi feito pelo governo da ilha nórdica no Dia Internacional da Mulher.

“Chegou a hora de fazer algo radical sobre esta questão”, disse o ministro islandês para a Igualdade e Assuntos Sociais, Thorsteinn Viglundsson.

“Salário igual é um direito humano. Precisamos de garantir que homens e mulheres têm oportunidades iguais no local de trabalho. É a nossa responsabilidade tomar todas as medidas necessárias para conquistar isso”, destacou o ministro.

A lei proposta pelo governo prevê que todas as empresas com mais de 25 funcionários tenham que obter uma certificação, a fim de provar que pagam o mesmo salário por trabalho idêntico.

A nova legislação deverá ser aprovada pelo parlamento islandês, uma vez que tem o apoio do governo e dos deputados da oposição.

Países como a Suíça, além de regiões como o estado americano de Minesotta, já têm políticas de certificação de igualdade salarial – mas a Islândia deverá ser a primeira nação a tornar esta certificação obrigatória, tanto para empresas públicas como privadas.

Há oito anos consecutivos, o Fórum Económico Mundial já posiciona a Islândia como o melhor país do mundo na questão da igualdade de género. Mas as islandesas ainda ganham, em média, entre 14 e 18% menos do que os islandeses.

Em outubro, milhares de islandesas saíram do trabalho às 14:38 para protestar em frente ao Parlamentose contra a desigualdade salarial: pelos cálculos dos grupos islandeses de defesa dos direitos das mulheres, a partir daquela hora as mulheres trabalham de graça.

8 de Março de 2017

Vídeo: empresários mergulham no gelo para obter investimentos na Finlândia

Claudia Wallin, de Oulu (Finlândia) para a Rádio França Internacional

Em tempos de superação de crise, os finlandeses apostam em um jeito exótico de quebrar o gelo entre startups e investidores internacionais: uma competição em que os empreendedores têm que entrar em um buraco no gelo, com metade do corpo imersa nas águas de temperaturas subárticas do Mar Báltico, para apresentar sua ideia de negócio a uma plateia de “tubarões” – empresários consolidados e com disposição para investir.

É o Polar Bear Pitching (“Pitch do Urso Polar”), que reuniu nesta quarta-feira 18 finalistas de 15 países na cidade finlandesa de Oulu, 600 quilômetros ao norte da capital, Helsinque. Perto do Círculo Ártico, a competição se desenvolve em meio a temperaturas que nesta época do ano costumam variar entre 15 e 20 graus abaixo de zero.

Trata-se de uma espécie de versão glacial dos reality shows “Dragon´s Den” e “Shark Tank” (“Negociando com Tubarões”), em que empreendedores fazem apresentações-relâmpago de seu projeto de negócio diante de investidores inclementes – um método conhecido como “pitch”.

Mais do que mero espetáculo, porém, o Polar Bear Pitching é parte de uma estratégia comunitária que reinventou a pequena Oulu como a capital tecnológica da Finlândia, depois do trauma vivido na cidade em 2012 com o fim do negócio de celulares da gigante finlandesa Nokia. Com 200 mil habitantes, Oulu abriga hoje mais de mil empresas de alta tecnologia e cerca de 600 novas companhias startup – muitas delas fundadas nos últimos anos por ex-funcionários da fábrica da Nokia na cidade, com apoio do governo local.

Desafio abaixo de zero

No buraco aberto no gelo do Mar Báltico, a temperatura da água é de um grau. No palco erguido sobre a neve, os finalistas do Polar Bear Pitching se preparam para desafiar o próprio terror. A cobrir seus corpos, apenas um roupão. Uns esfregam as mãos para criar coragem, ou pulam para aquecer o corpo. Outros olham com certo pavor para o buraco no gelo que os espera.

Ao contrário das apresentações-relâmpago de outras competições de pitch, no Polar Bear Pitching não existe limite de tempo. Os finalistas têm o que tempo que quiserem – ou aguentarem – para fazer suas apresentações diante de cerca de 100 investidores finlandeses e internacionais. Poucos vão além de dois minutos. Há quem suporte apenas os parcos segundos necessários para gritar três frases.

Encerrada a proeza, os finalistas comemoram, aliviados, nas águas mornas de um ofurô instalado na neve.

 

 

 

 

 

 

 

 

Prêmio, investidores e viagem à Califórnia

E o júri chega a um veredito: a vencedora do Polar Bear Pitching é a startup Virta, da Finlândia. Os empreendedores arrebataram o prêmio com uma plataforma que fornece ferramentas para operadores de carregamento de carros elétricos.

O vencedor da competição anual sai literalmente do buraco com um prêmio de dez mil euros, além de ofertas potencialmente milionárias de investimentos. Ganha ainda uma viagem de duas semanas ao Vale do Silício, o pólo mundial da inovação – na ensolarada Califórnia.

“Graças ao Polar Bear Pitching, consegui levantar 1,3 milhão de euros em investimentos até agora”, conta o norueguês Didrik Dege Dimmen, da startup FlowMotion, que venceu a competição no ano passado. Didrik, de 24 anos, voltou a Oulu este ano para continuar a promover junto a investidores a sua criação: um estabilizador para a câmara GoPro.

“É um evento extraordinário para encontrar investidores”, atesta Didrik.

Até quem perde a competição pode sair ganhando: o Polar Bear Pitching é transmitido ao vivo para todo o mundo, via internet – sob o olhar atento de investidores.

“A visibilidade global do evento garante investimentos para pelo menos 60 por cento dos finalistas que enfrentam o buraco no gelo”, diz Simo Kekäläinen, um dos organizadores do evento.

Estratégia para superar a crise

Esta foi a quarta edição do Polar Bear Pitching – um evento criado por um esforço comunitário que une voluntários da cidade de Oulu, o governo municipal, empreendedores e a comunidade acadêmica local (Universidade de Oulu e Universidade de Ciências Aplicadas).

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É o mesmo esforço comunitário que superou o espectro da crise provocada em Oulu há cinco anos, quando a venda da divisão de celulares da Nokia para a Microsoft levou à demissão de metade dos funcionários da fábrica da Nokia na cidade – além de abalar os negócios de centenas de empresas locais que forneciam serviços à gigante finlandesa.

“Decidimos nos unir para enfrentar a crise”, conta Alpo Marilä, assessor da agência governamental de fomento aos negócios da cidade, a Business.

“Nossa primeira providência foi evitar que os funcionários que trabalhavam em diferentes divisões da Nokia se separassem, diz Marilä. “Assim, criamos as bases para o surgimento de novas empresas startup com know-how específico, a partir de ex-funcionários da Nokia que já trabalhavam em diferentes projetos.

“Fizemos isso com o apoio financeiro das autoridades locais e de investidores privados, em cooperação estreita com nossas universidades de ponta”, acrescenta ele.

A união de esforços em Oulu, que nos últimos anos possibilitou a transformação da cidade em um renovado centro de referência de tecnologia e empreendedorismo, contou com um ingrediente fundamental: a qualidade da educação pública – e gratuita – oferecida aos habitantes de Oulu, que chegam a aprender inglês já na creche.

“A resiliência de Oulu é resultado do caráter nacional e da determinação finlandesa de priorizar a excelência do nível de educação da população”, diz Juha Ala-Mursula, ex-diretor da Nokia e atual diretor executivo da agência governamental de fomento aos negócios da cidade.

A própria Nokia também se reinventou: concentrada agora no setor de infraestrutura e distribuição de dados, a empresa lidera em seus laboratórios de Oulu a criação da quinta geração de tecnologias móveis – o 5G. E fez questão de pôr um de seus próprios engenheiros dentro do buraco de gelo do Polar Bear Pitching.

16 de Fevereiro de 2017

 

De bicicleta, rumo ao poder

CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA 

De terno e gravata, o ministro do Interior da Suécia, Anders Ygeman, pedala para o trabalho na sede do governo. Atrás dele – e também de bicicleta -, segue um segurança do serviço de segurança sueco. Em vez do tradicional capacete, o ministro usa um Hövding – o airbag sueco para ciclistas, que é automaticamente inflado para proteger a cabeça em caso de colisão.

”No início do meu período mandato como ministro, usei muito o carro”, confessa Ygeman, neste país onde ministros não têm direito a carro particular com motorista para ir ao trabalho. “É fácil virar um prisioneiro do carro, mas deixa-se de fazer muito exercício.

Seis meses de pedaladas já surtiram efeito.

“Na Páscoa eu pesava 89 quilos. Hoje de manhã a balança marcava 81,8 quilos, mas também fiz outros exercícios”, disse o ministro.

Anders Ygeman é considerado atualmente o mais forte candidato para suceder o primeiro-ministro Stefan Löfven. E solta uma gargalhada quando o repórter pergunta se suas pedaladas têm intenções políticas.

Fonte: jornal sueco Dagens Industri

18 de Setembro de 2016

 

Conheça o livro “Um País Sem Excelências e Mordomias”

Semana do Design de Helsinque: 250 mostras e debates até em saunas públicas

Por Claudia Wallin

De Helsinque

A capital finlandesa parou para reverenciar o design na Semana do Design de Helsinque, que se encerra neste domingo. É o maior festival de design da região nórdica, com mais de 250 mostras e eventos.

Entre as novidades deste ano estão apresentações e debates realizados dentro de saunas públicas – que são a mania nacional finlandesa.

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No centro de Helsinque, 12 instalações urbanas criadas por designers finlandeses e internacionais transformaram a paisagem da cidade. A maior delas é uma gigantesca bolha de plástico construída em torno da estátua da praça central da capital, que foi transformada em um espaço cultural para debates e exibição de filmes.

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Abertura da Semana do Design de Helsinque

Abertura da Semana do Design de Helsinque

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“Heart” (Coração)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Entre os mais de 250 eventos que acontecem na capital, um dos mais concorridos é a Habitare, a maior feira de design de interiores da Semana do Design de Helsinque. É o espaço onde estão sendo apresentadas as últimas e mais arrojadas tendências para a decoração de casas, com peças como luminárias, móveis, prateleiras e objetos do dia a dia.

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Um dos principais destaques da semana é o Design Market, a maior liquidação de design dos países nórdicos. São produtos, móveis e roupas de 200 empresas de design reunidas nesse grande mercado anual, que costuma atrair 25 mil visitantes. Vale a pena conferir também o Design District, que é o Bairro do Design da capital finlandesa. São 25 ruas no centro de Helsinque, onde estão concentradas diversas lojas de design, galerias de arte, ateliês, antiquários, museus e butiques de roupas.

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A designer finlandesa Minna Parikka

A designer finlandesa Minna Parikka

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Diferentes mostras estão acontecendo em vários pontos da cidade, como no centro cultural Kaapeli, que abriga 13 galerias de arte. E durante toda a semana, os ateliês de Helsinque também foram abertos ao público, para visitas guiadas pelos próprios designers.

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Saunas públicas

A sauna é uma paixão nacional na Finlândia – são cinco milhões de habitantes e cerca de dois milhões de saunas no país. Na Semana do Design, elas se transformaram em verdadeiras “saunas de reunião”. Cidadãos finlandeses e turistas participam de debates com diferentes especialistas sobre temas sociais e relacionados ao espaço urbano, dentro de cinco saunas públicas.

Para participar, basta trazer roupa de banho e uma toalha. Os eventos foram batizados de Sauna Talks (ou “Conversas na Sauna”), e um dos temas foi a Rainbow Sauna – um debate sobre a importância da diversidade, para uma cultura mais igualitária da sauna.

Sauna pública na Market Square, centro de Helsinque

Sauna pública na Market Square, centro de Helsinque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Design para bebês

Os organizadores da Semana do Design de Helsinque montaram também um programa especial para as crianças, que vão poder aprender sobre design e arquitetura através de uma série de workshops e aulas práticas. Até os bebês estão podendo participar. A Semana do Design tem um espaço para bebês de menos de um ano de idade, onde eles podem tocar e conhecer diferentes materiais, texturas e estruturas.

Para quem quer conhecer a história do design, o Museu do Design de Helsinque oferece uma variedade de exibições e uma coleção que abriga 35 mil objetos, 40 mil gravuras e 100 mil imagens. Os destaques são as criações de designers finlandeses pioneiros, como Alvar Aalto e Eero Aarnio, que produziram algumas das peças mais marcantes do mobiliário vanguardista dos anos 60.

O Museu apresenta agora uma rara retrospectiva da obra de Eero Aarnio, e pode-se ver ali por exemplo, a famosa Ball Chair – a cadeira criada pelo designer no formato de uma esfera branca com estrutura de fibra de vidro, e que foi imortalizada em filmes de James Bond.

11 de Setembro de 2016

Com Eerio Aarnio, no Museu do Design de Helsinque

Com Eerio Aarnio, no Museu do Design de Helsinque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eero Aarnio em sua Ball Chair, nos anos 60

Eero Aarnio em sua Ball Chair, nos anos 60

Casa da Finlândia nas Olimpíadas do Rio: boa chance para conhecer o sistema de educação finlandês

O Papai Noel da Lapônia abriu oficialmente a Casa da Finlândia no Rio, que vai se transformar em uma escola pop-up durante os Jogos Olímpicos: a ideia é dar ao público a oportunidade de ver como é aprender em uma escola finlandesa, e conhecer aquele que é um dos mais celebrados modelos de excelência em educação pública do mundo. Com direito a uma foto com o Santa.

A Casa da Finlândia está situada nas instalações da Casa França-Brasil (Rua Visconde de Itaboraí, 78 – Centro) e estará aberta ao público nos seguintes dias: Domingo 14 de agosto: 10-18, Sábado 20 de agosto: 10-17, e Domingo 21 de agosto: 10-16.

Vídeo: Como funciona o inovador sistema de educação da Finlândia

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Com o Ministro das Relações Exteriores da Finlândia, Timo Soini

Veja também:

A diferença entre ser professor na Finlândia e no Brasil

O que o Brasil pode aprender em educação com a Finlândia?

A receita do modelo educacional finlandês: pense diferente

 

12 de Agosto de 2016

Suécia prevê fim do dinheiro de papel até 2030

CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

Por Claudia Wallin, para a BBC Brasil

O fim do dinheiro de papel já é uma morte anunciada na Suécia: até 2030, as cédulas e moedas deverão virtualmente desaparecer no país, que lidera a tendência global em direção à chamada “cashless society” – a sociedade sem dinheiro. A projeção é do Banco Central sueco.

É o prenúncio de uma nova era, dizem os especialistas. A previsão é de que, no futuro, as economias modernas serão dominadas pelo uso do cartão e da moeda eletrônica em escala mundial.

Na Suécia, a transformação é visível. Cada vez mais suecos usam cada vez menos o dinheiro de papel, nesta sociedade em que os pagamentos já são feitos majoritariamente via cartão, celular e variados meios eletrônicos. E na capital sueca, cresce o número de restaurantes e lojas que estampam o aviso: “Não aceitamos dinheiro”.

Novos dados do Banco Central sueco indicam que as transações em dinheiro representam, atualmente, apenas 2% do valor de todos os pagamentos realizados na Suécia – contra uma média de cerca de 7% no restante da Europa.

Com base nestes dados, a Sveriges Radio (rádio pública sueca) chegou a decretar a morte iminente do dinheiro para daqui a cinco anos: se mantido o ritmo atual indicado agora pelo Banco Central, segundo a rádio, as projeções apontam que já em 2021 o percentual de utilização do dinheiro na Suécia deverá cair para menos de 0.5%.

Já o Banco Central sueco prefere adotar um tom mais cauteloso.

“Cerca de 20% dos pagamentos efetuados no comércio varejista ainda são feitos em dinheiro. Nossa avaliação é que o dinheiro continuará a circular na Suécia até aproximadamente o ano de 2030”, disse à agência sueca de notícias TT o porta-voz do Banco Central, Fredrik Wange.

A expectativa é de que a Suécia deverá ser o primeiro país do mundo a abolir o dinheiro de papel.

“Os novos números do Banco Central confirmam uma tendência que cresce a cada ano no país”, disse à BBC Brasil o analista Bengt Nilervall, da Federação Sueca do Comércio (Svensk Handel).

“A Suécia continua à frente do resto da Europa, em relação à redução do uso do dinheiro do papel. E principalmente dos Estados Unidos, onde cerca de 47% dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro”, acrescenta Nilervall, que destaca os avanços dos vizinhos nórdicos, Noruega e Dinamarca, na mesma direção.

Em diversas lojas e diferentes setores de serviços da Suécia, mais de 95 por cento dos pagamentos são feitos com cartão.

Na capital sueca, tarifa do ônibus é paga via SMS

Na capital sueca, tarifa do ônibus é paga via SMS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos ônibus de Estocolmo, há tempos já não se aceita dinheiro. A tarifa deve ser paga com cartões pré-pagos ou via SMS, e basta mostrar ao motorista o celular com a mensagem que confirma o pagamento. Taxistas aceitam qualquer cartão.

Também cresce o número de comerciantes que aceitam apenas cartão como pagamento.

“Toda semana, a Federação do Comércio sueca recebe telefonemas de comerciantes que perguntam se é legalmente permitido não aceitar dinheiro como pagamento. E é”, diz Nilervall.

Até no quiosque de flores do bairro de Odenplan, no centro da capital sueca, um aviso foi colado: “Preferência para pagamentos em cartão”. Feirantes e ambulantes também se adaptam à tendência cashless, e trabalham equipados com leitores portáteis de cartões.

No quiosque de flores de Estocolmo, um aviso: "Preferência para pagamentos em cartão"

No quiosque de flores de Estocolmo, um aviso: “Preferência para pagamentos em cartão”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um estudo recente da empresa de serviços financeiros Visa indica que os suecos usam seus cartões com uma frequência três vezes maior do que a maioria dos europeus.

Novas tecnologias e aplicativos de pagamento via celular também vêm sendo desenvolvidos com rapidez colossal. Entre as novidades mais recentes está o aplicativo Swish, que acabou criando um novo verbo na língua sueca: “swishar”, que significa transferir dinheiro via celular.

Para “swishar” dinheiro para outro usuário, basta digitar no celular o número de telefone da pessoa ou empresa a quem deseja transferir uma quantia, seguido por um código de segurança. A transação se dá em tempo real: em questão de segundos, pisca no celular de quem recebeu o dinheiro a mensagem de que a quantia entrou em sua conta bancária.

O sistema Swish foi implementado nos seis maiores bancos da Suécia, como um método rápido e simples de transferência de dinheiro entre pessoas e empresas.

O avanço tecnológico é apontado como uma das razões que explicam a liderança da Suécia no movimento em direção à cashless society:

“Os bancos e o comércio investiram maciçamente em sistemas de pagamentos eletrônicos na Suécia a partir da década de 90, e hoje em dia os consumidores estão acostumados a usá-los”, diz Niklas Arvidsson, professor de Dinâmica Industrial do Real Instituto de Tecnologia da Suécia (KTH).

E os principais bancos da Suécia vêm simplesmente parando de lidar com dinheiro: cerca de 75% de suas agências já operam sem dinheiro – com a única exceção do Svenska Handelsbanken.

 

Foto: Sveriges Riksbank (Banco Central da Suécia)

Foto: Sveriges Riksbank (Banco Central da Suécia)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ladrões de banco vão se tornando, assim, personagens do passado. O número de roubos a agências bancárias vem atingindo o índice mais baixo dos últimos 30 anos, segundo a Associação dos Bancos sueca. Em 2014, de acordo com relatório publicado na página oficial na internet do Conselho Nacional Sueco para a Prevenção do Crime (Brottsförebyggande rådet – Brå), foram registrados no total 23 assaltos a banco no país.

Para os bancos, as vantagens de uma futura sociedade sem dinheiro são evidentes. Em primeiro lugar, ela traria mais segurança para funcionários e clientes. E também eliminaria os altos custos de gerenciamento e transporte de dinheiro, estimados em cerca de 8,7 bilhões de coroas suecas – o equivalente a 0.3% do PIB sueco.

Para os críticos da tendência, o aumento das transações digitais também representa o crescimento potencial de fraudes e riscos de segurança bancária, além do fato de que idosos e outros segmentos da sociedade têm acesso limitado a opções de pagamento eletrônico.

A associação nacional dos aposentados suecos (Pensionärernas riksförbund – PRO) está preocupada com o ritmo da transformação.

“Isso está acontecendo a uma velocidade furiosa”, disse na reportagem da rádio sueca a presidente da associação, Christina Tallberg. “E é importante para muitos idosos ter o direito de continuar a usar o dinheiro de papel, assim como para novos residentes do país, imigrantes e muitos outros que têm dificuldades para utilizar cartões”.

Mas apesar de a Suécia ter lançado no ano passado uma nova coleção de cédulas, que inclui a efígie da atriz sueca Greta Garbo na nota de cem coroas, o fim do dinheiro parece um caminho sem volta.

“Voltar aos tempos do dinheiro de papel não é uma alternativa na Suécia. Fora de questão”, diz Bengt Nilervall.

“Se eu acredito que a Suécia não terá no futuro nenhum dinheiro em circulação? Bem, não. Mas com certeza o uso do dinheiro será drasticamente reduzido.”

Em 1661, as primeiras cédulas de papel da Europa foram introduzidas pelo Stockholms Banco, o embrião do Banco Central da Suécia. Agora, ironicamente, os suecos vão se tornando os primeiros do mundo a desprezar o dinheiro vivo.

Foto: Sveriges Riksbank

Foto: Sveriges Riksbank

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agosto de 2016

Vídeo: blogueira sueca faz sucesso aos 104 anos e avisa que “idosos não são estúpidos”

CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

 

 

 

Por Claudia Wallin, para a BBC Brasil

A sueca Dagny Carlsson nasceu em 1912. “No mesmo ano em que o Titanic afundou”, ela faz questão de lembrar. Achava que já tinha visto de quase tudo na vida, desde as duas guerras mundiais até à invenção das máquinas modernas. Mas quando fez 93 anos de idade, Dagny conheceu um computador de perto. E aos cem, resolveu que era hora de lançar o seu próprio blog.

Agora, aos 104 anos, Dagny Carlsson ganhou status de celebridade: ela é provavelmente a blogueira mais velha do mundo, e seu blog já contabiliza mais de 1,6 milhão de visitantes.

“Os idosos não são tão estúpidos como a sociedade pensa. É preciso mudar esse conceito. As pessoas mais velhas são tratadas, em geral, ou como se fossem crianças, ou como se fossem idiotas. Dizem aos idosos, ‘você não entende isso’, ‘meu velhinho’ e coisas assim. Eu digo que os idosos merecem mais respeito”, diz Dagny Carlsson à BBC Brasil, no escritório onde diariamente atualiza seu blog.

“Bojan”, como ela prefere ser chamada, diz que ouve com certa dificuldade, e dá um tapinha no discreto aparelho de audição para deixar claro que é preciso falar mais alto com ela. Mas nada mais parece indicar que ela vive há mais de cem anos. Lúcida, ágil nos movimentos, Dagny emana vitalidade. E só precisa de óculos para ler de perto.

Seu primeiro computador, usado, foi dado a ela pela irmã mais nova, que tinha na época 85 anos de idade. Ainda não havia cursos de computador para idosos, naqueles idos de 2005.

“Mas assim que criaram um curso, me matriculei. A professora não conseguia acreditar nos próprios ouvidos, quando disse a ela que tinha 99 anos”, conta Dagny.

De aluna, ela passou a ser instrutora do curso, durante um ano. E seu blog nascia.

“Bem-vindo ao meu blog: sou uma idosa determinada, que gosta de quase tudo. Pode ser uma ópera, mas também pode ser só um papo sobre coisas divertidas ou difíceis. Prefiro as coisas divertidas. As pessoas dizem que eu tenho humor, e que sou bastante franca”, diz “Bojan” na página de abertura do blog.

"Bojan" trabalhando em seu blog

“Bojan” trabalhando em seu blog

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dagny também quer ser uma voz para os idosos.

“Porque os idosos são muito calados em nossa sociedade, e porque quando falam, ninguém se importa com o que dizem. Só se importam com o que eu digo porque me tornei famosa”, ela diz, levantando-se para mostrar o prêmio de Idosa do Ano e um troféu recebido por um canal da TV sueca.

“O maior desafio do ser humano é superar seu próprio medo”, acrescenta ela.

Diz o trecho de um de seus posts:

“Sou incrivelmente velha, mas não me sinto velha. Quero ser tratada como qualquer pessoa. Não como um fóssil. Com certeza, há muitas pessoas como eu. Deveríamos ir para as ruas e protestar alto, como fazem os jovens, e exigir que as pessoas nos ouçam. Desafio todos os idosos: sejam mais assertivos!”

 

Dagny e sua foto quando jovem

Dagny e sua foto quando jovem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A diferença entre o passado e o presente é outro tema recorrente do blog de “Bojan” – e um dos mais populares. Como no post em que ela faz conta como era a vida sem telefone.

“Hoje em dia, qualquer criança tem um telefone celular. Quando eu era criança, poucos eram os que tinham um telefone. As pessoas se falavam através de cartas. Quando alguma coisa urgente acontecia, elas iam a uma estação telefônica. Nessas estações havia, em geral, duas cabines de telefone. Era preciso pedir a ligação a uma telefonista, e esperar algumas horas até conseguir obter uma linha. Se a pessoa com quem se queria falar não tivesse telefone, a telefonista tentava ligar para a casa de um vizinho, e pedir para chamá-lo. E custava caro. Então, ninguém ligava sem necessidade. Hoje eu tenho um celular e um telefone sem fio.”

Estrela de um documentário recente da TV pública sueca sobre os desafios do envelhecimento, Dagny Carlsson também relata em seu blog as viagens de trem que faz a cidades suecas onde nunca esteve, além de cenas do cotidiano.

“Recebo comentários de pessoas de Washington, Canadá, Austrália, Holanda, Bélgica, França, Noruega e Finlânda”, ela conta.

Do Brasil, “Bojan” tem uma vaga referência.

“É o país do Cristo, de braços abertos sobre o mar”, responde ela. “Não é lá que o povo dança tango?”

“Bojan” levanta-se e caminha com passos rápidos pelos cômodos do apartamento de 99 metros quadrados onde mora há 35 anos em Solna, subúrbio da capital sueca. Aqui Dagny viveu com o marido Harry, que completou 91 anos antes de falecer, em 2004. Desde então “Bojan” vive sozinha. Não teve filhos, mas ocasionalmente recebe a visita de dois sobrinhos – um de 70 anos, e outro de 65 anos de idade.

“O que não falta é espaço”, ela diz, enquanto mostra a sala de estar, a cozinha, o quarto de dormir, a sala de jantar e o escritório. É lá que fica o computador.

“É aqui que eu passo várias horas por dia, escrevendo. Há muitos assuntos para falar”, ela diz, enquanto os dedos deslizam com agilidade pelo teclado do computador.

É a própria Dagny que cozinha, lava roupa, arruma e casa e faz as compras do supermercado, onde vai a pé em uma caminhada que dura 15 minutos. Uma vez por mês, uma diarista cuida da limpeza mais pesada.

“Uma empresa de alimentos quer que eu faça propaganda para eles, então eles têm me mandado refeições congeladas há uns oito dias seguidos”, ela conta.

Mas Dagny diz que colocou tudo no congelador, e nunca usou.

“Enquanto puder, vou continuar a cozinhar minha própria comida. Porque sei que vou gostar do que vou comer. E só como husmanskost (pratos tradicionais da cozinha sueca, à base de carnes com molhos cremosos, batatas e peixe)”.

Talvez o segredo de tamanha vitalidade, ela pondera, esteja nos “bons genes”:

“Mas acho que o principal é manter a curiosidade pela vida. As pessoas ficam velhas quando páram de ter curiosidade sobre as coisas. Então, se depender de mim o blog não vai ser a última coisa nova que eu vou experimentar na vida. Por falar nisso, acabei de comprar um iPad”.

Quando era jovem, ela queria ser escritora.

“Mas eu tinha uma auto-estima muito baixa. Por quê? Porque a maioria das crianças era assim. Naquela época, crianças tinham que ser criaturas obedientes e silenciosas, e não podiam achar que eram grande coisa. E era difícil, para todos, conseguir estudar”.

Quem não tinha dinheiro, na Suécia de antigamente, não tinha acesso à educação.

“Estudar custava caro. O ensino básico era gratuito, mas quem quisesse continuar os estudos tinha que pagar do próprio bolso. Hoje, os estudantes recebem subsídios do governo para estudar gratuitamente, até o fim da universidade”, observa Dagny, que fez carreira como funcionária pública.

O passado, ela constata, não era melhor que o presente.

“Absolutamente não. Hoje a vida é infinitamente mais fácil. Naquela época, não havia máquinas, não havia geladeira. E não existia aspirador de pó.”

O que é melhor hoje?

Na morte, ela não pensa:

“Não, não estou minimamente interessada na morte. Também não faz sentido nenhum ter medo da morte, já que ela é inevitável. Tenho medo é de guerra. Já vi duas guerras mundiais. E veja só o que está acontecendo na Síria.”

24 de Julho de 2016

O Fundo do Petróleo norueguês e o Pré-Sal brasileiro

CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

Por Claudia Wallin

A essa altura, os noruegueses poderiam estar razoavelmente desesperados, ou já tramando algum pacto de suicídio. Os preços do petróleo despencam como uma jaca madura, e a Noruega deve sua riqueza e bem-estar ao ouro negro.

Mas não se fala em crise no país. Por quê?

Porque nos anos 90 a Noruega criou um Fundo do Petróleo (o “Oljefondet”), a fim de economizar a fabulosa fortuna do petróleo e assim assegurar o bem-estar dos cidadãos e das gerações futuras.

É o modelo que serviu de inspiração, em parte, para o fundo brasileiro do pré-sal.

Trata-se do maior fundo soberano do mundo – e pertence ao povo norueguês. Isso quer dizer que há limites rigorosamente demarcados para que os políticos possam tocar o dinheiro do petróleo, e que a gestão pública dos recursos obedece a rígidos critérios de transparência e ética.

Pergunte a um norueguês, e ele dirá: o Fundo foi criado para beneficiar os nossos filhos, e também os filhos dos nossos filhos.

O Oljefondet é controlado pelo Ministério das Finanças, mas gerenciado pelo Banco Central da Noruega. Foi o seu conselho de ética que decidiu no fim de janeiro, sob pressão das recorrentes denúncias de corrupção na Petrobrás, colocar em observação o investimento do Fundo na estatal.

No modelo norueguês, a regra de ouro é que o governo só pode gastar o dinheiro gerado pelo retorno dos investimentos das aplicações do Fundo, a um teto fixado em 4% ao ano. Mexer no capital do Oljefondet, só em circunstâncias especiais – o que nunca ocorreu, até a recente virada na maré dos preços do barril.

Desde o princípio, consolidar uma sociedade igualitária e manter a estabilidade da economia, com práticas de boa governança, foi a prioridade dada pelos noruegueses ao dinheiro que caiu do céu. Aliás, do mar.

A Noruega era um país de camponeses e pescadores quando descobriu imensas reservas de petróleo no Mar do Norte, no fim dos anos 60. O casamento da sorte com a prudência gerou uma prosperidade meteórica, que alçou o país ao clube dos mais ricos do planeta.

O povo norueguês deixou de ser um dos mais pobres da Europa, para se tornar um dos mais afluentes e socialmente justos: o país passou a escalar o topo de todos os rankings globais de progresso e bem-estar social, com sua sociedade que escolheu como ideal dar a todos os cidadãos as mesmas oportunidades e garantias de uma vida digna.

Noruega: antes e depois

Aos poucos, a Noruega se converteu no maior produtor de petróleo da Europa Ocidental, e o terceiro maior exportador de gás natural do mundo. E conseguiu transformar os recursos obtidos, sobretudo através dos impostos pagos pelas companhias petrolíferas e pelas licenças de exploração, em riqueza e prosperidade para a população como um todo.

Mas a queda dramática nos preços do petróleo vem perturbando o éden norueguês.

O valor do barril caiu de mais de 110 dólares, em 2014, para os atuais cerca de 30 dólares.

Dizem os noruegueses que o momento não é de crise – e sim de adaptação.

“Vendemos muito petróleo quando os preços estavam altos, e economizamos grande parte do dinheiro que recebemos”, diz Ragnar Torvik, professor de Economia da universidade de Trondheim.

“O resultado é que a economia norueguesa está bem equipada para enfrentar a queda dos preços do petróleo, e o desafio da diversificação”.

Mas o país acende a luz amarela: pela primeira vez desde a criação do Oljefondet, os noruegueses recorrem agora ao seu gigantesco Fundo soberano do petróleo, de mais de 800 bilhões de dólares, para equilibrar o orçamento.

O setor petroleiro responde por cerca de 25% do PIB norueguês, e diversificar a economia para quebrar a dependência do ouro negro é preciso. Já.

No país que é um dos mais ricos do mundo em termos per capita, a demissão de quase 30 mil trabalhadores do setor desde 2014 é um fato, e o índice de desemprego atingiu 4,1% em 2015.

“A economia norueguesa, como um todo, não está em crise”, diz a ministra das Finanças, Siv Jensen.

“Mas é uma crise para as empresas, as regiões e as famílias afetadas pela transformação estrutural da economia”.

Fica a lição norueguesa: a palavra de ordem é usar o dinheiro do Fundo com sabedoria, e agir como se o petróleo já tivesse acabado.

 

10 de Julho de 2016

Para o Diário do Centro do Mundo

 

Como os suecos fazem e enviam a declaração de renda em 15 minutos – via SMS

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CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

Por Claudia Wallin

“Morte, impostos e parto – não existe nenhum momento conveniente para nada disso”, já disse a romancista americana Margaret Mitchell em “E o Vento Levou”. Mas fazer a declaração de renda na Suécia tornou-se uma tarefa fácil, rápida e tão mundana quanto enviar uma simples mensagem de texto via celular.

Quinze minutos: é esse o tempo que a maioria dos suecos leva em média para declarar o imposto de renda. A declaração já chega ao contribuinte previamente preenchida pelas autoridades fiscais, através de um sofisticado sistema de cruzamento de dados financeiros, bancários e patrimoniais do contribuinte. Basta então ao cidadão conferir os dados e enviar um simples SMS à Receita Federal sueca, a fim de oficializar a entrega da declaração.

“Só preciso de cinco minutos”, diz o brasileiro Fillipe Carvalho, que vive na Suécia. “Como a declaração já chega preenchida pelas autoridades fiscais e sempre está correta, tudo que eu necessito fazer é pegar meu celular e enviar um SMS ao Skatteverket (a Receita Federal sueca), confirmando os dados do meu imposto de renda”.

O sistema sueco funciona através de um poderoso banco de dados concentrado na Receita Federal: a cada mês de janeiro, todos os bancos, empregadores, instituições financeiras e até síndicos de condomínios devem enviar à autoridade fiscal informações detalhadas sobre dados como taxas de lucro, fundos de aplicação, empréstimos, bens, propriedades e salários pagos ao contribuinte.

Todas as informações e cálculos são então processados para o contribuinte, que recebe sua declaração de renda pré-preenchida tanto via correio como através do site da Receita Federal.

“Um sistema de imposto de renda deve ser simples para o cidadão, e principalmente justo”, resume Johan Schauman, um dos diretores da área de desenvolvimento de sistemas da Receita Federal sueca.

Desde a década de 90, a palavra de ordem da autoridade fiscal sueca tem sido simplificar a vida dos contribuintes, e facilitar a arrecadação de tributos. Em 1995, o Skatteverket começou a distribuir as declarações de renda já preenchidas – deixando à maior parte dos contribuintes a única tarefa de conferir, assinar e enviar.

Carta do Skatteverket (Receita Federal sueca) com a declaração de renda já preenchida para o contribuinte                    Foto: Jeanette Andersson/Skatteverket

Carta do Skatteverket (Receita Federal sueca) com a declaração de renda já preenchida para o contribuinte                                                                             Foto: Jeanette Andersson/Skatteverket

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A partir de 2002, foram lançados os serviços eletrônicos que permitem ao contribuinte receber a declaração de renda pré-preenchida, adicionar ou alterar informações e formalizar a entrega via computador, telefone, SMS ou através do app da Receita Federal.

A base do sistema é a informação detalhada sobre a vida financeira dos contribuintes. O Skatteverket concentra os dados sobre cada cidadão desde o berço: quando uma criança nasce na Suécia, o hospital informa a Receita Federal, que registra o nascimento e emite um número de identidade para o bebê. É o chamado personnummer (“número pessoal”), necessário para qualquer atividade praticada pelo cidadão no país.

“Sabemos qual é o salário de um contribuinte e quanto ele contribuiu na fonte, se ele vendeu ou comprou um imóvel, se tem aplicações financeiras, se tem dinheiro em seguro de capital, e assim por diante. Se um contribuinte paga pensão privada a bancos ou empresas de seguro, o que é passível de dedução no imposto, também fazemos este cálculo. Se um contribuinte obtém lucro com venda de ações, o banco ou instituição financeira em questão também tem a obrigação de informar a Receita Federal”, explica o diretor do Skatterverket.

Do universo de 7.6 milhões de contribuintes suecos em 2015, um total de 5.6 milhões enviaram suas declarações de renda através de uma simples confirmação dos dados pré-preenchidos pela Receita Federal – que pode ser feita via SMS, telefone, no app ou no site da autoridade fiscal.

“Se o contribuinte for por exemplo dono de uma empresa, como é o caso de 1.3 milhão de suecos, ele poderá ter que enviar informações adicionais. Mas também enviamos a ele a declaração de renda básica, pré-preenchida com as informações que recebemos das diferentes instituições de nosso sistema”, diz Johan Schauman.

Não há muito espaço para fraude, ele afirma:

“Temos acesso a uma imensa gama de informações, e podemos realizar cálculos eletrônicos para detectar imprecisões e incoerências, e investigar e questionar se necessário.”

O sistema também se vale de um frenético cruzamento de dados em relação às circunstâncias do mercado: se o mercado de ações teve alta de 4% em determinado período, por exemplo, os analistas da Receita Federal sueca levantam a sobrancelha para qualquer contribuinte que tenha declarado perdas. Na mesma linha de raciocínio, empresas que operam no mesmo setor têm seus dados comparados.

Mas pode-se confiar nas informações prestadas pelos bancos?

“Quando estive certa vez em Portugal, explicando nosso sistema para o diretor da autoridade fiscal portuguesa, ele me perguntou, um tanto perplexo, exatamente isso – ‘o que? vocês confiam nos bancos?’”, conta Schauman.

“Minha resposta foi que nosso sistema se alicerça em boas relações com os bancos, e em uma sociedade estável, baseada em um forte grau de confiança. A confiança social é um dos elementos-chave da sociedade sueca. Então, construímos também relações de confiança com os bancos, a fim de permitir a colaboração das instituições bancárias com a autoridade fiscal. Mas o Skatteverket também têm meios poderosos para controlar e verificar, sistematicamente, se as informações que os bancos nos dão são corretas. E eles sabem disso.”

Mais importante que o poder de controlar a arrecadação de impostos, porém – destaca Schauman -, é a forma como a Autoridade Fiscal sueca exerce esse controle.

“Nos anos 80, quando detectávamos alguma imprecisão na declaração de um contribuinte, enviávamos a ele longas cartas escritas em linguagem burocrática. Decidimos mudar aquilo. Passamos a nos comunicar com o contribuinte com uma linguagem de fácil entendimento, e de forma a fazê-lo sentir confiança no sistema. Quanto telefonamos para um contribuinte, nosso foco principal é buscar a compreensão de um eventual problema, e não fazer o contribuinte sentir-se ameaçado”, diz Johan Schauman.

A ideia central é não tratar os contribuintes como se fossem fraudadores em potencial.

“Partimos do pressuposto de que a maioria dos contribuintes quer fazer a coisa certa”, enfatiza Schauman. “E trabalhamos de forma constante e consistente para elevar o grau de confiança da população na autoridade fiscal.”

A estratégia tem produzido resultado: 83% dos suecos dizem ter confiança na Receita Federal, neste país em que pagar impostos é considerado comprar civilização.

Formulário pré-preenchido da declaração de renda sueca Foto: Jeanette Andersson/Skatteverket

Formulário pré-preenchido da declaração de renda sueca
Foto: Jeanette Andersson/Skatteverket

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em média, a carga tributária na Suécia é de cerca de 45% do Produto Interno Bruto (PIB). Quem ganha menos, paga apenas os impostos municipais – que variam em torno de 30%, dependendo do local onde a pessoa vive. Quem tem rendimentos mais elevados, paga também os impostos federais, com alíquotas de até 25% sobre determinadas faixas de rendimento.

O imposto sobre o consumo é alto para todos: a taxa de valor agregado, da ordem de 25%, incide sobre a compra de alimentos e a maioria dos produtos e serviços em geral.

Em contrapartida, todos têm direito a serviços públicos de qualidade – como saúde e educação gratuita até à universidade -, e a uma ampla rede de proteção social que vai do berço ao túmulo.

“Nosso contrato social se baseia no consenso de que aqueles que ganham mais, contribuem com mais impostos para o bem-estar da sociedade como um todo. Quem tem rendimentos mais elevados, portanto, contribui com mais impostos, porque isto é importante para se construir uma sociedade justa.

A prática de se cobrar menos para não fornecer recibo, comum no Brasil entre profissionais liberais e prestadores de serviços, seria segundo ele impensável na Suécia:

“Se um dentista sueco oferecesse um preço menor pela consulta para não dar recibo, o paciente ficaria furioso. E diria a ele, ‘você não está contribuindo para as nossas escolas, a nossa polícia, os nossos hospitais e todos os serviços de que precisamos em nossa sociedade’”.

Em tese, diz Schauman, qualquer pessoa é capaz de burlar o sistema e cometer uma fraude na declaração. Mas um indivíduo é menos inclinado a burlar o fisco quando ele confia no sistema fiscal e político de um país, observa ele:

“A confiança da população, tanto na justiça das autoridades fiscais como no uso que os políticos farão de seu dinheiro, é fundamental para a eficiência do sistema tributário de uma sociedade”, observa Schauman.

Uma ditadura pode construir mecanismos de controle sobre uma sociedade, mas nunca será capaz de construir relações de confiança, observa Johan Schauman. Um governo repressivo pode tentar caçar e punir cada fraude fiscal do contribuinte – “mas isto será sempre um caminho mais difícil”, pondera Johan Schauman:

“O mais importante para um sistema de arrecadação fiscal é a percepção dos contribuintes de que o sistema, como um todo, é justo”.

30 de Abril de 2016

Patrulhas anti-imigrantes tomam as ruas de países nórdicos

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CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

Por Claudia Wallin, para a BBC Brasil

Patrulhas urbanas anti-imigrantes vêm emergindo nas ruas da Finlândia, da Noruega e mais recentemente da Dinamarca, em reação ao fluxo recorde de refugiados que chegaram aos países nórdicos. São os chamados Soldados de Odin, que acusam os refugiados de provocar um aumento da criminalidade e afirmam ter a missão de “proteger a população” contra os “intrusos islâmicos”.

Na mitologia nórdica, Odin é o deus da sabedoria – e também da guerra. Os “soldados” caminham pelas ruas com jaquetas pretas, decoradas com a estampa de um capacete viking. Andam desarmados, mas refletem a tensão social gerada pela entrada maciça de refugiados na região. E já começam a conquistar adeptos também na Suécia e em outros países do norte da Europa, como a Alemanha.

“Detectamos a movimentação de simpatizantes do grupo na Suécia há poucas semanas”, disse à BBC Brasil o oficial Mats Grundström, da unidade de inteligência da polícia sueca. “Nenhum incidente foi registrado ainda, mas estamos de olho neles”, acrescentou.

Os Soldados de Odin dizem querer ser os olhos e ouvidos da polícia. Para os críticos, trata-se de um bando de justiceiros xenófobos.

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“Queremos acabar com a criminalidade que vemos hoje em nosso país, e que a polícia é incapaz de enfrentar”, disse um porta-voz norueguês dos patrulheiros, que marcharam recentemente pelas ruas de diversas cidades da Noruega.

“Drogas estão sendo vendidas, mulheres estão sendo tocadas, há ataques e violência”, acusou.

O grupo surgiu no fim do ano passado na Finlândia, onde é suspeito de manter vínculos com grupos neonazistas. Na Noruega, a polícia afirma que alguns membros do grupo têm ligações com o crime. Nas mídias sociais, um patrulheiro norueguês publicou fotos em que aparece empunhando armas automáticas e bandeiras da Noruega.

“Migrantes não são bem-vindos”, lê-se nas faixas carregadas pelos Soldados de Odin. Até o momento, nenhuma denúncia de agressão a refugiados foi feita contra os patrulheiros.

A estimativa é de que o grupo reúne cerca de 500 integrantes na Finlândia – mas a página dos Soldados de Odin no Facebook mostra que o grupo já conta com mais de 32 mil simpatizantes no país. A página registra ainda vários comentários racistas e de apoio ao grupo, enviados por internautas de países como Áustria, Austrália e Canadá.

Ativistas anti-racismo também se mobilizam: durante ato na cidade finlandesa de Tammerfors, manifestantes fantasiados de palhaços dançaram em torno dos Soldados de Odin (Soldiers of Odin, no nome original em inglês), a quem chamavam de “LOLdiers of Odin” – uma referência à sigla inglesa LOL (“laughing out loud”, que em português pode ser traduzida como “rindo muito alto”).

Na cidade norueguesa de Tønsberg, residentes rechaçaram os patrulheiros afirmando que não precisavam de proteção.

 

 

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Os governos nórdicos têm expressado sua condenação à atuação das patrulhas urbanas.

Na Noruega, a temperatura política subiu nos últimos dias, quando um deputado do Partido Progressista – a força de extrema-direita que compõe a coalizão de governo com o Partido Conservador – elogiou a atuação dos patrulheiros de Odin.

“É claro que não damos apoio ilimitado aos Soldados de Odin. Mas há tempos enfrentamos uma situação nas ruas que ninguém deseja, com crimes sendo cometidos e outros atos indesejáveis, e a polícia norueguesa não possui recursos para fazer seu trabalho. Portanto, achamos que qualquer cidadão que queira contribuir para reduzir a insegurança e o crime deve ser saudado”, disse o deputado Jan Arlid Ellingsen, durante um debate na rádio norueguesa.

A primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg, usou o Twitter para se distanciar rapidamente dos comentários do deputado.

“Os Soldados de Odin não têm lugar na tarefa de manter a segurança nas ruas. Valores perigosos. As palavras de Ellingsen não representam o governo”, escreveu Solberg em sua conta.

Outros integrantes do Partido Progressista também rechaçaram os comentários do deputado, incluindo a líder da sigla e ministra das Finanças, Siv Jensen.

O Partido Socialista de Esquerda foi além, e demandou que o governo norueguês determine a legalidade das patrulhas dos Soldados de Odin.

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Na Finlândia, a polícia diz que a Constituição garante aos cidadãos a liberdade de movimento, e que não há amparo legal para proibir as chamadas patrulhas urbanas.

Mas:

“Isso não dá a nenhum grupo o direito de interferir na liberdade de movimento dos demais cidadãos”, destacou na TV finlandesa Yle o comandante da polícia nacional, Seppe Kolehmainen.” A polícia acompanha a situação e estará pronta para intervir diante de eventuais ações ilegais”, acrescentou ele.

A polícia sueca tem a mesma visão.

“Não é ilegal caminhar em grupos, desde que esses grupos não cometam nenhum ato ilegal. A lei não proíbe ninguém de andar nas ruas”, diz o oficial Mats Grundström.

Mas o aumento do ativismo xenófobo preocupa: a agência de inteligência norueguesa (PST) adverte que a ameaça representada por grupos de extrema-direita vem crescendo na Noruega.

Ao contrário da Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca não têm tradição de receber grandes números de refugiados. Em 2015, um total de 32 mil migrantes chegaram à Finlândia – um número quase dez vezes maior do que o número registrado no ano anterior, em um país com uma população de 5,4 milhões de habitantes que há três anos vive uma recessão econômica.

A Noruega também recebeu um número recorde de 31 mil refugiados. A Dinamarca registrou 20 mil pedidos de asilo, e chegou a aprovar uma controversa lei que permite o confisco de bens de refugiados para ajudar a cobrir suas despesas. Na Suécia, chegaram 163 mil solicitantes de asilo – a maior taxa per capita de recepção de migrantes registrada na Europa. Todos os países tentam agora conter as portas, em um continente dividido diante da magnitude do êxodo dos desesperados em fuga.

Os Soldados de Odin crescem em meio a um clima de medo e desconfiança que se forma entre determinadas parcelas da população, e que turbina os índices de popularidade dos partidos anti-imigração.

A polarização foi acentuada a partir de notícias de roubos e atos de agressão sexual supostamente praticados por imigrantes na capital finlandesa durante a celebração do Ano Novo, além de acusações de que a polícia sueca ocultou denúncias sobre incidentes similares na capital, Estocolmo – e que teriam se reproduzido em Colônia e outras cidades da Alemanha.

Entre outros incidentes, uma assistente social de 22 anos de idade foi morta a facadas por um refugiado na Suécia, quando tentava apartar uma briga em um abrigo para imigrantes menores de idade.

Mas muitos argumentam que trata-se de casos isolados por parte de determinados grupos, enquanto alertam para o perigo de uma onda indiscriminada de ódio aos imigrantes.

E os diversos casos de incêndios suspeitos e ataques contra centros de refugiados, que se vê nos países nórdicos, são sinal de que os imigrantes também estão com medo.

Março de 2016

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