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O Princípio dos Tempos

No princípio, era o gelo. Dizia-se que o fim do mundo era por aqui. Onze mil anos antes de Cristo, a Suécia estava coberta por uma imensa massa de gelo, que na última era glacial chegava a três mil metros de profundidade. Quando as geleiras derreteram, os primeiros visitantes começaram a descobrir que esta era uma terra estranha. Em suas andanças pela Escandinávia em 350 a.C., o explorador grego Pythaes falou, horrorizado, de um lugar gelado onde o mar havia se tornado sólido, e onde durante metade do ano o sol brilhava, e na outra metade só existia noite.

A história de Pythaes parecia alucinada. Mas a visão era sóbria na essência: no extremo norte da Suécia, o sol praticamente nunca se põe no verão, e durante todo o inverno o céu é dominado pela escuridão. Qualquer ser humano exposto a tais extremos deve se tornar um tanto louco, pode-se imaginar. Nem nas latitudes mais favoráveis da capital, Estocolmo, é possível afirmar que este povo vive em condições normais: nos dez verões que já testemunho, o sol só se vai tarde da noite, mas nunca completamente, e passarinhos começam a cantar às três da madrugada, anunciando um novo dia. Nos invernos, a noite cai por volta das três da tarde.

Mais estranho do que os fenômenos da natureza, porém, parecia ser o costume bizarro das autoridades desta terra de consultar o povo em assuntos que diziam respeito ao próprio povo, já nos primeiros tempos da sua longa história. Um dos primeiros a constatar esta aparente aberração na época foi um monge beneditino francês, chamado Ansgar. Por volta do ano de 850, Ansgar resolveu pedir uma audiência ao rei viking Olof, a fim de obter a permissão real para levar a palavra de Deus a seus súditos pagãos. A resposta do rei: a decisão teria que ser tomada através do voto do povo, que seria reunido no ting, a assembléia rudimentar da era viking.

Surpreso com tal revelação terrena, Ansgar anotou em suas crônicas que era costume nestas terras ”decidir qualquer assunto de caráter público mais pela vontade unânime do povo, do que pelas ordens do rei”. (Herman Lindqvist, ”Sveriges Historia”, 2002).
Na Idade Média, este continuou a ser um povo incomum. Quando o rei sueco Magnus Eriksson foi eleito na assembléia reunida nos arredores de Uppsala, em 1319, quatro camponeses de cada comarca estavam presentes. Naqueles tempos, os reis eram eleitos. E o rei tinha que respeitar as vozes dos homens comuns da Suécia em matéria de impostos. Eram os primórdios de uma longa tradição de participação popular nas decisões do país.

Ao lado do rei, sempre estava um Parlamento. E quando a primeira forma de Riksdag (Parlamento) foi criada, no século XV, os camponeses também tinham voz: eles eram um dos quatro ”Estados” ou classes da assembléia, formada por representantes da Nobreza, do Clero, da Burguesia e do Campesinato. Isto não aconteceu em nenhum outro lugar da Europa.

”O caráter popular, ’democrático’, estava representado pelo estado camponês. Ao longo de sua história, a Suécia nunca experimentou períodos de clara servidão feudal, nem tampouco períodos nos quais a classe camponesa proprietária de terras tivesse sido totalmente marginalizada, excluída pela nobreza latifundiária”, observa o cientista político sueco Olof Ruin.

Ao contrário do que acontecia em outros países europeus, o rei da Suécia nunca exerceu um poder puramente absoluto. O período mais autocrático que o país atravessou foram os anos do auge do Império Sueco (1561-1721), quando a Suécia, em euforia bélica, ocupou partes da Alemanha, Rússia, Dinamarca. Finlândia e os países bálticos. Foi nesta época que um dos mais famosos filósofos da Europa, o francês René Descartes, sucumbiu ao frio sueco: convidado à Suécia pela Rainha Cristina, ele não resistiu às temperaturas do gelado castelo de Estocolmo, e diz-que que morreu de pneumonia poucos meses após sua chegada ao país, em 1660.

Os tempos suecos de superpotência também foram encerrados, sem vitórias. O equilíbrio do poder, entre o rei e o Parlamento, seria estabelecido já na Constituição de 1809.

Mas a grande maioria do povo, incluindo mulheres e trabalhadores de baixa renda, continuava marginalizada da política. E a Suécia passava fome.

Fome, Pobreza e Porcos nas Ruas

Vacas pastavam e porcos grunhiam na paisagem urbana da capital sueca, Estocolmo, na primeira metade do século XIX. O país era pobre, a fome extrema. De Londres, chegavam doações voluntárias para a faminta Suécia por volta de 1860. A economia do país era agrária e atrasada, e quase noventa por cento da população vivia e trabalhava no campo (fonte: Lenart Schön, Lund University, ”Sweden – Economic Growth and Structural Change, 1800-2000). Na capital, os bairros operários eram verdadeiras favelas, onde trabalhadores alugavam camas em habitações paupérrimas e superlotadas. Até o começo do século XX, Estocolmo, fundada por volta de 1251, ainda era uma cidade insalubre: a expectativa de vida média dos habitantes de Estocolmo era de 39 anos de idade para os homens, e 47 anos entre as mulheres (Herman Lindqvist, Sveriges Historia, 2002).

Para muitos, a saída para o desespero foram os portos. Entre 1851 e 1930, cerca de 1,3 milhão de suecos emigraram em busca de um futuro melhor, principalmente para os Estados Unidos – um número que correspondeu aproximadamente, naquele período de tempo, a cerca de 25 por cento da população sueca. Cerca de dez mil imigrantes suecos foram em direção ao Brasil, e aproximadamente 16 mil para a Austrália. Milhares de jovens suecas também abandonavam a escassez do campo, para trabalhar como empregadas domésticas em lares americanos.

Mas a Suécia começava a transformar a sua história.

Já havia recursos naturais de grande valor, como reservas minerais e bosques. Agora a indústria florescia, a partir de descobertas científicas e fortes investimentos em educação, tecnologia e infraestrutura. O país caminhava na rota da modernização.

Em 1842, foi introduzido o ensino primário gratuito e obrigatório para todos. A idéia enfrentou a oposição tanto de parte do setor agrário, que não queria arcar com os custos da empreitada, como de setores conservadores, que não viam sentido em educar os mais pobres e provocar sentimentos revolucionários nas massas que migravam para as cidades. Mas a decisão foi implementada, até como forma de transformar crianças em cidadãos obedientes e socialmente ajustados. (Herman Lindqvist, Sveriges Historia, 2002). O índice de alfabetização atingiu níveis cada vez mais altos. E cada vez mais, os filhos dos trabalhadores e da classe média baixa passaram a alcançar a universidade.

Ao mesmo tempo, a confiança nas instituições era gradualmente construída, através de reformas estruturais que reduziriam a corrupção e dariam origem a uma administração pública imparcial e transparente.

Surgiria ainda, no final do século XIX, uma série de movimentos populares de organização democrática: os sindicatos e movimentos trabalhistas, que lutavam por melhores condições de trabalho, os movimentos de abstêmios, que defendiam o fim do alcoolismo, os grupos religiosos independentes, que pregavam o direito a práticas religiosas à margem da Igreja Luterana, e cooperativas que organizavam a distribuição de bens de consumo mais baratos.

”Na Suécia, esses movimentos populares constituíram verdadeiras escolas de treinamento democrático, numa época em que o sistema parlamentar e o sufrágio universal e igualitário ainda não estavam completamente desenvolvidos”, enfatiza o cientista político Olof Ruin. O sufrágio universal, para homens e mulheres, só seria introduzido em 1921.

Até o século XIX, a Suécia foi um dos países mais pobres da Europa. No século XX, com uma população altamente educada e capacitada, o país se transformaria em uma das mais prósperas e sofisticadas nações industrializadas do mundo. E muitos dos imigrantes que haviam abandonado o país, nos tempos de incerteza, começaram a voltar para casa.

A Chegada das Ferrovias e da Riqueza

Foi com pavor incontido que os suecos assistiram à chegada das primeiras locomotivas no país. Falava-se da inacreditável velocidade dos trens, que viajavam a cerca de 40 quilômetros por hora. Muitos temiam que, em ritmo tão veloz, as pessoas não seriam capazes de respirar adequadamente, e cairiam, desmaiadas, no chão da lomocotiva. Para piorar o terror geral, um médico alemão alertou com toda a sua autoridade científica, durante um debate no Parlamento sueco, que um passageiro que se atrevesse a olhar para a janela naquela velocidade infernal correria o risco de sofrer uma lesão cerebral.

Mais frenético era o ritmo de crescimento da economia. Uma série de reformas econômicas e liberais alavancou a expansão sueca, com a aprovação da lei de livre comércio de 1864 e a adesão da Suécia às regras do livre comércio internacional, no ano seguinte. Àquela altura, a antes subdesenvolvida Suécia vivenciava uma genial explosão tecnológica, a partir de um conjunto de invenções e inovações patenteadas no país.

Bem antes, o astrônomo sueco Anders Celsius já havia desenvolvido a escala usada nos termômetros. Agora, as invenções suecas se multiplicavam: a dinamite de Alfred Nobel, o primeiro centrifugador e separador de leite e creme, os palitos de fósforo seguros, os modernos telefones da Ericsson. Em 1900, Estocolmo era uma cidade abastecida por um dos mais altos números de telefone do mundo. Ao longo dos anos, o avanço da tecnologia sueca daria origem a inovações como o zíper, o rolamento de esferas (que resolveu um dos maiores problemas industriais no início do século XX), as embalagens longa vida da Tetra Pak, o marca-passo do Dr. Rune Elmqvist, e o cinto de segurança de três pontos do engenheiro Nils Bohlin, da Volvo. O espírito inovador e empreendedor ainda sobrevive, com invenções suecas como o Skype, que permite às pessoas se comunicarem gratuitamente através da internet, a tela a cores para computadores, de Håkan Lans, e o serviço de música online Spotify.

No mesmo ritmo das primeiras inovações, as empresas suecas se multiplicaram e expandiram pelo mundo – como as multinacionais Ericsson, SKF, Electrolux, AGA, Bofors, Scania e Volvo.

A Suécia dos camponeses e agricultores tornava-se, nas poucas décadas entre 1900 e 1930, uma nação industrializada. A moderna Suécia emergia na década de 30, e com ela nascia um novo conceito radical de design e arquitetura urbana – eram os tempos do funkis, o funcionalismo.

A política de neutralidade sueca nas duas grandes guerras mundiais seria uma grande aliada no processo do ”milagre econômico” que se produziu: a capacidade industrial da Suécia estava intacta .

[Nota 1: A neutra e pacífica Suécia também se tornou um dos maiores fabricantes de armamentos do mundo. Desde a invenção da dinamite por Alfred Nobel em 1865, inovações suecas contribuíram para a arte da guerra. Por ocasião da Segunda Guerra, a própria neutralidade sueca só foi possível em função de circunstâncias geopolíticas particulares: a Suécia era fonte importante de ferro para os alemães, e a eles interessava manter o país em paz. A mesma sorte não tiveram a Dinamarca e a Noruega, cujas invasões se deram precisamente para conservar segura a rota sueca do ferro. A Suécia tornou-se, por outro lado, um refúgio para dinamarqueses e noruegueses que fugiam dos alemães.]

[Nota 2: Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi o principal parceiro comercial da Suécia [Lars Magnusson, ”Sveriges Economiska Historia”, Norstedts, 2010]

Especialmente nos anos que se seguiram à Segunda Guerra, o país estava pronto para suprir os produtos necessários à reconstrução da Europa, e seu poderio econômico cresceria ainda mais. O país enriqueceu.

Na política, uma transformação radical da vida da nação estava em andamento.

Nasce o Modelo Sueco

A progressista Suécia era apontada agora por muitos como a via do futuro: no polarizado cenário mundial do século XX, os radicais experimentos realizados no país pareciam oferecer uma via intermediária entre os excessos do capitalismo e do socialismo. O caminho sueco era na realidade o que viria a caracterizar o chamado ”capitalismo nórdico” – uma fórmula que combinava basicamente uma vigorosa economia de mercado com um substancial welfare state, um Estado-providência universal e baseado na igualdade de oportunidades, solidariedade social, saúde, educação e cultura para todos.

Na origem do welfare state sueco, estavam os movimentos populares, trabalhistas e assistencialistas surgidos no fim do século XIX. Na primavera de 1889, entre aqueles movimentos populares, havia sido criado o Partido Trabalhista Social-Democrata da Suécia. As propostas de mudanças sociais nasciam também de políticos liberais, e em 1913 a Suécia tornou-se o primeiro país a criar um sistema de aposentadoria pública para todos os cidadãos.  Era o começo do moderno Estado de bem-estar social sueco.

Em março de 1920, Hjalmar Branting formou o primeiro governo social-democrata da Suécia, que seria também o primeiro da Europa.

”A social-democracia se apresentava como socialista, ao mesmo tempo em que na política cotidiana renunciava a toda ambição concreta em tal sentido – pelo menos como é habitualmente entendido por outros partidos semelhantes, isto é, como a estatização dos recursos naturais, da indústria, dos bancos. A propriedade social não era definida como um objetivo em si, permanecendo a indústria fundamentalmente em mãos privadas”, observa o cientista político Olof Ruin, em artigo sobre o desenvolvimento do modelo sueco.

”Não obstante, existia uma disposição para, mediante diversos mecanismos, disciplinar o capital, combater excessos e deformações capitalistas e limitar lucros”, ele acrescenta.

A palavra da hora era a inclusão social. A meta dos programas do Estado-providência, que seriam implementados a partir da década de 30, era a articulação de uma verdadeira rede de proteção em torno dos cidadãos. A expressão ”Folkhemmet” (”Lar do Povo”), criada pelo líder social-democrata Per Albin Hansson, simbolizava o objetivo da luta: as pessoas podiam sentir-se tão seguras na sociedade como se sentiam no interior de seus lares (Olof Ruin).

Privilégios e privilegiados não haveria. Hansson, que costumava tomar o bonde para o trabalho quando se tornou primeiro-ministro em 1932, explicara assim a visão de uma sociedade nova e mais humana:

”Um bom lar não tem membros privilegiados ou rejeitados; não tem favoritos nem filhos postiços. Nele, uma pessoa não olha para a outra com desdém; nele, ninguém tenta obter vantagens às custas do outro; nele, o forte não oprime nem rouba o fraco. Em um bom lar existe igualdade”, disse Hansson em discurso no Parlamento.

Per Albin foi também o primeiro líder político sueco a quem as pessoas se referiam e chamavam apenas pelo primeiro nome, sem o sobrenome.

Per Albin Hansson

A construção da nova sociedade envolveria uma parceria histórica entre o capital e o trabalho. Como parte do conjunto adicional de medidas que daria forma ao chamado modelo sueco, o altamente organizado movimento trabalhista e a indústria sueca firmaram um pacto. O fluxo da produção industrial seria ameaçado por um mínimo de greves, e os trabalhadores teriam melhores condições, em uma política salarial marcada pela negociação coletiva e a solidariedade. Garantiam-se assim as condições de estabilidade para o crescimento econômico, que por sua vez daria sustentação a um amplo programa de proteção social. O acordo, firmado em 1938, ficou conhecido como o Pacto de Saltjöbaden, a localidade da região de Estocolmo onde as negociações se produziram.

”Aqui se mostrava o reconhecimento mútuo do papel dos dois agentes principais do processo econômico, ambos motivados pelo sentido de bem-estar de um país dependente de suas exportações para sobreviver”, escreveu o jornalista americano Marquis Childs. ”Enquanto a competitividade internacional da indústria, quase 90 ou 95 por cento dela em mãos privadas, continuasse a crescer, e manter assim sua prosperidade, a crescente dimensão do Estado-providência poderia ser financiada através de impostos que tendiam a acompanhar o ritmo dos benefícios do sistema de bem-estar social”. (Childs, Marquis William, ”Sweden, the middle way on trial” p19).

A Suécia tornou-se um exemplo de pragmatismo e progresso, com um modelo singular que combinava um pacto entre os trabalhadores e a indústria, altos impostos, generosas políticas sociais e uma economia mista. Sob a liderança social-democrata, o país já estava pronto para erguer um forte Estado-providência.

Proteção Social ”do Berço ao Túmulo”

Com a economia em boa forma, nos anos 30 deu-se início à construção gradual de um amplo e generoso Estado de bem-estar social, cuidadosamente planejado para proteger os cidadãos ”do berço ao túmulo”. As reformas, financiadas por um dos impostos mais altos do mundo, seriam drásticas.

O primeiro passo foi a implementação de 32 pacotes de reformas abrangentes, que incluíram a introdução de um extenso sistema público de saúde, assim como hospitais-maternidade gratuitos; educação gratuita e de qualidade até a universidade, incluindo material escolar; fornecimento de vitaminas e tratamento dentário gratuito para crianças e adolescentes; generosos benefícios sociais, licenças-maternidade e salários-desemprego, e o aumento das aposentadorias públicas garantidas pelo Estado.

A Suécia não era, evidentemente, a única nação a disciplinar o capital e desenvolver uma nova política social no século XX: esta era uma tendência mundial, impulsionada pelo ”New Deal” de Franklin Roosevelt após a Grande Depressão e em parte pelo debate que se produziu na Grã-Bretanha em torno do Estado de bem-estar social, inspirado em particular por William Beveridges.

Mas o modelo social sueco (e escandinavo) continha um elemento diferencial em relação a outros modelos de bem-estar social: a universalidade [Lars Magnusson, ”Sveriges Economiska Historia”, Norstedts, 2010] . Não se tratava de uma política direcionada prioritariamente aos pobres, e sim de um conjunto de políticas e benefícios dirigidos ao bem-estar de todos – ricos, pobres, classe média -, independentemente da renda de cada um. Os mais abastados pagariam os mais altos impostos, mas também receberiam benefícios e serviços sociais generosos. A redistribuição da renda reduziria a pobreza e promoveria a igualdade, em uma sociedade solidária em que todos teriam oportunidades iguais.

Os investimentos na educação da população, assim como ocorreu nas demais sociedades nórdicas, foram um dos pilares centrais do sistema sueco que se construiu.

”Isto se transformou em um período histórico de investimento nos indivíduos, e forneceu acesso aos recursos que lhes permitiram maximizar o seu valor no mercado. Marcados historicamente como os países com as maiores taxas de alfabetização, os países nórdicos estiveram por muito tempo classificados no topo em termos de educação básica e de investimento em pesquisas”, aponta artigo dos historiadores suecos Henrik Berggren, editor político do jornal liberal Dagens Nyheter, e Lars Trägårdh, professor da Uniiversidade de Ersta Sköndal.

A extensa lista de benefícios e serviços sociais seria ampliada gradativamente, ao longo das décadas de 40 e 50. E em meados dos anos 50, a Suécia havia atingido o mais alto padrão de vida, em termos igualitários, do mundo.

O futuro reservava crises graves – especialmente a profunda crise dos anos 90, que obrigaria o país a engolir o remédio inevitável do corte de gastos nas despesas do Estado. Mas aqueles tempos, em que se consolidava o modelo social sueco, ainda eram tempos de euforia.

Nos anos 70, a Suécia era o quarto país mais rico do mundo, e os suecos pareciam ter realizado a utopia de uma sociedade justa e perfeita.

Um país extremo

A extrema Suécia também chamava a atenção por sua maneira particular de usar os próprios neurônios, de onde extraía idéias incomuns. Chegou-se à conclusão, e por que não, pensaram os suecos, de que donas de casa deveriam ter férias pagas pelo governo. Assim foi até meados da década de 70, quando as rainhas suecas do lar viajavam alegremente para merecidos repousos em hotéis e pousadas do país. Eram tempos em que a economia do país ainda parecia permitir exorbitâncias, e tempos em que donas de casa ainda habitavam este país em maior grau: a entrada das mulheres no mercado de trabalho seria crucial para a expansão da economia sueca [Lars Magnusson, ”Sveriges Economiska Historia”, Norstedts, 2010] . Hoje, cerca de 76 por cento das mulheres suecas estão na força de trabalho. (fonte: Arbetsmiljöverket, agência sueca para questões relacionadas ao trabalho)

Kvinna på husmorssemester, Fagerudds, Uppland juli 1957
”Dona-de-casa de férias em Fagerudds, região de Uppland, julho de 1957” (Imagem: Upplandsmuseet)

O conceito de moralidade na Suécia também era peculiar: em uma famosa entrevista exibida pela britânica BBC em 1969, produziu-se um curioso diálogo entre o então ministro da Educação sueco, Olof Palme, e o jornalista David Frost. O jornalista abordava o tema da falada liberalidade sexual dos suecos, uma imagem alimentada em parte por uma série de filmes suecos carregados de erotismo que chegavam às telas internacionais.

”A Suécia é realmente, como se diz, livre de censura neste sentido?”, perguntou Frost.

”Ainda temos algum tipo de censura”, respondeu Palme.

”Que tipo de coisas têm sido censuradas ultimamente no país?”, quis saber o jornalista.

”O que nós censuramos é a violência, especialmente quando ela contém elementos de sadismo. Por exemplo, alguns filmes de Walt Disney têm sido proibidos na Suécia. É ruim assustar as crianças com violência e sadismo”, respondeu Palme, para espanto do entrevistador.

”A moralidade não se limita a questões sexuais. (Imoral) é salário baixo e desemprego”, emendou Palme, que pouco depois se tornaria o primeiro-ministro da Suécia.

Foto: Olof Palme (à direita) na entrevista com David Frost, da BBC

Imagem: SVT

Em 1809, os suecos haviam inventado a figura do Ombudsman (Ouvidor), para lidar com o desamparo do indivíduo frente aos excessos do poder. Opostamente nobre foi a idéia de lançar, em 1941, uma política de esterilização de deficientes físicos e portadores de distúrbios mentais, que se manteve em vigor até a década de 70.

Idéias mais edificantes viriam. Em 1979, a Suécia foi o primeiro país a criar uma lei proibindo a aplicação de castigos corporais em crianças. Também proibiu-se completamente todo tipo de publicidade para crianças na televisão, como se faz até hoje: meninos e meninas menores de 12 anos, raciocinaram os suecos, não têm idade suficiente para serem expostos a pressões comerciais. E não devem ser induzidos a desejar brinquedos e roupas que, em muitos casos, não podem comprar.

Nos tempos atuais, a indústria publicitária sueca também reflete a notória repulsa nacional contra propagandas que reforçam estereótipos sexuais, como o conceito da mulher-objeto: outdoors com mulheres (ou homens) seminus não costumam fazer parte da paisagem urbana sueca.

”Qualquer pessoa que tentasse vender um carro com a ajuda (de comerciais) de mulheres quase nuas não seria mais contratada”, escreveu a jornalista Barbro Hedvall.

Protestos gerais foram ouvidos quando uma companhia aérea irlandesa publicou na Suécia, em 2008, uma campanha publicitária considerada sexista. No comercial, uma mulher de minissaia e mini-blusa posava como estudante ao lado de um quadro-negro, onde se lia o texto: ”As ofertas mais quentes na volta às aulas”.

”A imagem da mulher foi usada para atrair a atenção das pessoas de uma forma sexual, o que é ofensivo para as mulheres em geral”, condenou o Conselho sueco de Ética Comercial contra Sexismo na Propaganda.

A igualdade entre os sexos é um aspecto marcante deste país, onde o próprio ministro das Finanças, Anders Borg, se define como um feminista. Na década de 70, experiências radicais chegaram a ser realizadas nas escolas. Às meninas, davam-se carrinhos para brincar. Aos meninos, bonecas. Até hoje, já na fase pré-escolar as crianças suecas são libertadas das expectativas relacionadas aos papéis tradicionalmente impostos a meninas e meninos. A idéia é garantir que as crianças tenham oportunidades iguais, e a liberdade de fazer suas escolhas. Não importa qual seja o seu sexo.

Em uma noite de 2013, os telejornais abriram o noticiário com um fato que certamente abriu úlceras de revolta nos estômagos suecos. A professora de uma escola havia mandado os meninos para a quadra de basquete, enquanto às meninas havia sido dada a tarefa de enfeitar a sala de aula para um evento festivo. Uma Intragável discriminação de sexos, acusou a mídia. Nas reportagens sobre o caso, longos minutos foram dedicados às explicações e pedidos de desculpas da professora, e também a entrevistas em que as alunas diziam que, sim, prefeririam ter jogado basquete em vez de recortar florzinhas de papel.

Em círculos até agora reduzidos, até mesmo os pronomes de tratamento ”ele” (”han”, em sueco) e ”ela” (”hon”) foram abolidos: estão sendo substituídos por um pronome neutro, batizado de ”hen”. É o caso da creche Egalia, em Estocolmo, que adotou o neologismo como forma de neutralizar as barreiras entre os gêneros. Nas prateleiras da biblioteca da escola, além dos contos de fadas clássicos, há também livros sobre pais solteiros e casais homossexuais.

O empenho na meta de alcançar uma maior igualdade entre os sexos gerou, gradualmente, uma nova realidade: as tarefas do lar são basicamentre divididas entre o homem e a mulher, embora a carga feminina ainda seja maior. Os suecos chegaram a cronometrar este avanço: o trabalho doméstico diário realizado pelas mulheres teve uma redução de 14 minutos entre 2000 e 2010, enquanto o dos homens aumentou 11 minutos.

Pelas estatísticas do organismo internacional OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os homens suecos gastam 177 minutos por dia cozinhando, limpando ou desempenhando algum outro tipo de tarefa doméstica – mais do que a média européia de 131 minutos, mas bem menos do que a das mulheres suecas, que dedicam em média 249 minutos diários aos afazeres domésticos.

Na arena política, as mulheres estão bem representadas. No Parlamento atual, por exemplo, as mulheres constitutem 45% do total de 349 parlamentares.

As regras para a sucessão ao trono sueco também foram alteradas, a fim de permitir que a coroa fosse passada ao filho mais velho – independentemente do sexo. A reforma constitucional, aprovada em 1980, tornou a princesa Victoria a herdeira do trono, em lugar de seu irmão mais novo, o príncipe Carl Philip.

Mas a subrepresentação das mulheres em cargos executivos persiste na Suécia, assim como as diferenças salariais: em média, os homens suecos ganham entre 10 a 15 por cento a mais que as mulheres do país.

A Teoria Sueca do Amor

Esta é uma das principais características do modelo sueco, e nórdico em geral: cada um dos cidadãos, homens e mulheres, é responsável por seu próprio sustento e subsistência.

”A legislação nórdica tem refletido esta percepção desde a década de 70”, escreve Kristina Persson, ex-vice-diretora do Banco Central da Suécia e atual diretora do instituto sueco Global Utmaning, em artigo apresentado durante o Forum Econômico Mundial de Davos em 2011. ”A tributação é individual, isto é, nem a família nem o agregado familiar são uma unidade fiscal. Tanto as pensões por aposentadoria como os subsídios por motivo de doença estão ligados ao indivíduo. Cada membro do casal é obrigado a cuidar dos seus filhos, mas não tem a obrigação de cuidar um do outro, seja mulher ou homem.”

(fonte: ”The Nordic Way”, Global Utmaning, World Economic Forum Davos 2011).

É o que os historiadores suecos Henrik Berggren e Lars Trägårdh chamam de ”teoria sueca do amor”: os relacionamentos verdadeiros de amor e amizade na Suécia são apenas possíveis entre indivíduos que não dependem uns dos outros.

Em 2010, o casamento da herdeira do trono com seu ex-professor de ginástica alegrou os súditos do reino. Entre os plebeus, a história não costuma acabar bem: a taxa de divórcio na Suécia é uma das mais altas do mundo. Mas quando o amor acaba, muitos homens ainda podem ser felizes para sempre, ao lado dos filhos. E o divórcio dói menos no bolso.

Pela lei sueca, desde a década de 90 o homem não é obrigado a pagar pensão – nem para a ex-mulher, e nem para os filhos. A única condição para não ter que pagar pensão para os filhos é também um desejo de muitos homens: dividir a guarda das crianças com a ex-companheira.

Cada vez mais, a guarda compartilhada dos filhos se torna a regra no país. Hoje, mais de 30 por cento dos filhos de casais separados vivem parte do tempo com a mãe, e outra parte com pai. Entre crianças se seis a dez anos, esta proporção é ainda maior: 50 por cento.

Uma reportagem filmada para a TV Bandeirantes, em 2012, mostrou como vive o sueco Anders Herlitz depois de se divorciar da primeira mulher. Anders me contava que vive com os dois filhos do casamento anterior no sistema da guarda compartilhada. As crianças moram uma semana com ele, e outra semana na casa da mãe. Casado hoje com a brasileira Daniela Gradim, com quem teve a caçula Maria Isabela, Anders diz que na Suécia é comum dividir a guarda das crianças. E também as contas.

Na semana em que as crianças estão com ele, é Anders quem cuida dos filhos e paga as despesas. Quando as crianças vão para a casa da mãe, é ela que arca com os custos de alimentação, roupas e contas em geral. As despesas extras, como por exemplo aulas de esportes, são compartilhadas entre Anders e a ex-mulher.

”É tudo dividido. Cinquenta por cento para o pai, cinquenta por cento para a mãe”, conta Daniela.

A lei sueca é clara: o homem só é obrigado a pagar pensão para os filhos se as crianças morarem com a mãe em tempo integral. Se os filhos vivem só com o pai, é a mãe que paga pensão. Na guarda compartilhada, nem o pai e nem a mãe precisam pagar pensão.

Na opinião da advogada Lotta Insulander-Lindh, uma das principais especialistas em divórcio do país, em muitos casos o sistema pode ser injusto: a criança pode acabar comendo filé na casa do pai, e salsicha na casa da mãe.

Nem todos concordam. Como tantas suecas divorciadas, Anna James, mãe de dois filhos, acha estranho pedir dinheiro a ex-marido.

”Não quero que ninguém me sustente. Ganho o meu próprio dinheiro e mando na minha própria vida”, me disse Anna. Ela acha que se a mulher ganha pouco, ”é problema da mulher se esforçar para arranjar um emprego melhor”.

”É diferente o jeito de pensar das suecas. É muito delas essa independência. Para mim, seria muito difícil”, admite a brasileira Daniela.

Essas modernas famílias suecas também passam aniversários e até o Natal juntas. As festas reúnem ao redor da mesa ex-maridos, ex-mulheres, padrastos, madrastas e meios-irmãos. Tudo pelo bem das crianças.

A guarda compartilhada dos filhos foi aprovada na Suécia nos anos 90. Na época, muitos tiveram receio daquela nova forma de criar os filhos. Mas uma pesquisa do Instituto Karolinska da Suécia, publicada em 2012, indica que trocar de casa para conviver com o pai e a mãe é mais benéfico para o fllho do que morar apenas com um dos pais.

A pesquisa envolveu mais de 170 mil filhos de casais separados, e concluiu que os filhos que moram com o pai e com a mãe, em intervalos regulares, são mais felizes. A pesquisa comprovou que eles são mais saudáveis psicologicamente, e se adaptam melhor na escola do que os filhos que moram apenas com um dos pais.

”Trocar de casa toda semana não é problema. Problema, para mim, seria ter que escolher viver só com um dos meus pais”, disse Hamilton Lublin, de 17 anos, na reportagem gravada para a TV Bandeirantes.

Assim como nos demais países nórdicos, o papel dos homens suecos nos cuidados com as crianças é notório. Na década de 70, a Suécia foi o primeiro país a transformar a licença-maternidade em uma licença parental, para a mãe e o pai da criança. Hoje, os pais reivindicam cerca de vinte por cento de todas as licenças parentais, mas este número vêm aumentando. Segundo as estatísticas, os homens suecos se afastam em média 93 dias do trabalho para ficar em casa com o bebê.

Há 30 anos, o governo fez uma campanha estrelada por um campeão de levantamento de peso, com um bebê ao colo, para convencer os pais de que cuidar de bebê também era coisa de homem. Hoje, os sinais da modernidade estão por toda parte.

Foto: Hoa-Hoa Dahlgren, na época campeão sueco de levantamento de peso, na primeira campanha do governo para estimular os pais a exercer a licença-paternidade e cuidar dos filhos recém-nascidos

                                 Foto: Reio Rüster

A cena é comum na capital sueca: todos os dias, vê-se executivos de terno empurrando seus carrinhos de bebê, enquanto falam ao celular tratando de negócios. Ou pais fazendo jogging atrás de seus carrinhos de bebê, que guiam e manobram pelas aléias dos parques da cidade.

Cuidar das tarefas domésticas e ser independente é coisa que se aprende cedo, nos bancos escolares. Nas escolas da Suécia, aprender a cozinhar, costurar, lavar roupa e pregar botão é matéria obrigatória do currículo escolar – tanto para meninas como meninos.

Nas cozinhas das escolas, os alunos preparam uma receita nova a cada semana. Descobrem a diferença entre pepinos e abobrinhas, aprendem o valor nutritivo dos alimentos e têm aulas de economia doméstica. Na aula de lavar a roupa, eles são treinados para selecionar o ciclo correto da máquina para a lavagem de tecidos diferentes, como lã e algodão. Na hora de limpar, os alunos aprendem que produtos utilizar para lavar a louça, o chão ou a geladeira. Meninas e meninos têm também aulas de mecânica e carpintaria.

No ateliê de costura, as professoras ensinam a fazer bainhas de calças e a costurar peças de roupa. Os alunos suecos têm até aula de tricô. E o trabalho de casa dos rapazes pode ser tricotar um cachecol.

O Sistema de Bem-Estar Social

Os anos dourados do Estado-providência sueco duraram até meados dos anos 70, quando a Suécia vivia a fama de ter criado a sociedade mais justa e igualitária do mundo. Turbulências e crises começariam porém a desequilibrar o vôo estável da economia sueca, produzindo cortes na radicalmente generosa política social. A crise do petróleo afetara profundamente a Suécia, que nos anos 90 enfrentaria ainda uma grave recessão provocada pelo estouro de uma bolha imobiliária impulsionada pelo setor bancário. No dilema da busca por um Estado de bem-estar social mais viável, já durante o governo social-democrata foram adotados ajustes e mudanças de curso, como redução de subsídios e privatizações parciais nos serviços públicos. Desde 2006, novas reformas no sistema vêm sendo promovidas pelo governo da aliança dos partidos de centro-direita.

Mas até o momento, apesar das imperfeições, o modelo social sueco ainda é um sistema robusto, em um país rico que continua a manter uma forte economia e uma indústria competitiva.

Quando uma criança nasce na Suécia, os pais têm direito a uma licença parental remunerada de 480 dias. Deste total, 60 dias devem ser usados exclusivamente pelo pai, e outros 60 dias exclusivamente pela mãe, o que significa que estes dias não podem ser transferidos para o outro progenitor. O valor da licença, nos primeiros 390 dias, corresponde a 80 por cento dos rendimentos da pessoa, dependendo de quanto a pessoa ganha. O teto máximo para o subsídio parental é de 874 coroas suecas (cerca de 140 dólares) por dia.  Para os demais 90 dias da licença, o valor do subsídio é de 180 coroas suecas (cerca de 27 dólares) ao dia. Os 480 dias da licença parental podem ser solicitados em prazos variáveis, até a criança completar oito anos de idade. O pai de um bebê recém-nascido pode tirar uma licença extra de dez dias, a partir do nascimento da criança. Se forem filhos gêmeos, o período da licença é dobrada: vinte dias.Pais adotivos têm os mesmos direitos à licença parental.

As creches pré-escolares são largamente subsidiadas pelo governo, e os pais pagam apenas oito por cento do custo mensal. Há também um teto máximo a ser pago por cada criança que frequenta a creche – para a primeira criança de um casal, este limite é de 1.260 coroas suecas (cerca de 190 dólares). O valor da taxa cai gradualmente até o quarto filho de um casal, que pode frequentar a creche gratuitamente. O salário médio de um sueco é de 35,8 mil coroas, segundo estatísticas de 2012. É também comum os pais se unirem em cooperativas para criar e gerir suas próprias creches, que são financiadas pelo governo no mesmo sistema.

A partir do momento em que nasce, cada criança recebe um subsídio mensal do governo no valor de 1.050 coroas suecas (aproximadamente 160 dólares), até completar 16 anos de idade. Quanto maior é o número de filhos do casal, maior torna-se o valor do benefício: o subsídio aumenta progressivamente a partir do nascimento do segundo filho, até atingir o máximo de 10.014 coroas mensais (cerca de 1,5 mil dólares) para uma família com seis filhos.

Após completar 16 anos de idade, cada criança passa a receber um subsídio mensal do governo no valor equivalente a 160 dólares mensais, como assistência financeira enquanto completa seu período de estudos. A contribuição é paga durante dez meses por ano, ou seja, não cobre o período das férias escolares.

O tratamento dentário é gratuito para crianças e adolescentes até os 18 anos de idade. Eles também podem ter aparelhos dentários financiados pelo governo regional: quando os especialistas julgam necessária a correção dos dentes, o paciente recebe um ”cheque saúde dos dentes” para custear os gastos com o ortodontista de sua escolha.

Quando as crianças têm problemas graves de visão, também é o governo regional que paga os óculos de grau. Para famílias com uma situação econômica extrema, os pais de crianças com deficiências de visão mais comuns podem contactar os serviços sociais, que então financiam os óculos.

O sistema de educação é financiado majoritariamente pela arrecadação de impostos, e a Suécia é um dos países que mais gasta neste setor. Não existem mensalidades escolares. A partir dos seis anos de idade, todas as crianças têm acesso gratuito à educação, que é obrigatória até o último ano do ensino médio. As escolas fornecem ainda todo o material escolar, incluindo livros, apostilas e cadernos. A merenda escolar também é gratuita, e consiste em geral de um bufê que inclui dois pratos quentes e uma opção vegetariana, além de saladas, legumes, pães e frutas. Após o horário escolar, creches e atividades supervisionadas são oferecidas nas escolas todas as tardes, para crianças entre seis e doze anos de idade. A partir das quatro da tarde, começa o entra-e-sai dos pais, que saem do trabalho diretamente para buscar os filhos na escola.

[Nota: na Suécia, 87 por cento dos adultos possuem o diploma do ensino médio, porcentagem maior do que a média de 74 por cento dos demais países da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento). Fonte: OECD]

Se decidem cursar a universidade – que também é gratuita – os estudantes suecos têm direito a uma assistência financeira mensal, até completar os estudos. Esta assistência é composta por um subsídio de 3.066 coroas suecas (cerca de 463 dólares) por mês, além de um empréstimo no valor de 6.710 coroas suecas (cerca de mil dólares) mensais. Em caso de necessidade, o estudante pode se candidatar a um suplemento na ajuda financeira. O prazo para o reembolso do empréstimo é o dia em que o ex-estudante completa 60 anos de idade. Na minha época de estudante na Universidade de Estocolmo, eu recebia automaticamente um cheque mensal no valor do subsídio.

O sistema de saúde é também amplamente subsidiado, e a taxa de internação em um hospital é de 80 coroas suecas (cerca de 12 dólares) por dia. As taxas para atendimentos básicos variam entre 100 e 200 coroas suecas, dependendo da municipalidade. Para consultas a especialistas, a taxa máxima é de 300 coroas suecas (45 dólares). O sistema aplica ainda um limite máximo para as despesas de uma pessoa com saúde: a partir do momento em que um paciente desembolsa 900 coroas suecas no período de um ano, todas as consultas médicas tornam-se gratuitas por um prazo de 12 meses. Existe ainda um teto semelhante para as despesas com medicamentos – o que significa que ninguém gasta mais de 1,8 mil coroas com despesas de saúde no período de um ano (cerca de 270 dólares).

Em 2005, os conselhos municipais e o governo central decidiram introduzir uma garantia no atendimento à saúde. Isso significa que nenhum paciente deverá esperar mais de 90 dias, uma vez determinado o tipo de atendimento que ele necessita. Se o prazo estabelecido expirar, os pacientes têm a opção de receberem os cuidados necessários em outro local. O custo, incluindo as despesas com transporte, é pago pelo governo municipal.

O sistema de seguro social sueco também inclui subsídios de auxílio-doença. Durante os primeiros 14 dias de afastamento do funcionário, cabe aos empregadores pagar o benefício. Nos casos de enfermidades com tratamento mais longo, o sistema paga o auxílio-doença durante um período máximo de 364 dias, no valor de 80 por cento da renda do funcionário. Após este prazo, o paciente tem direito a receber o auxílio-doença por um período adicional de 550 dias, num valor correspondente a 75 por cento de seus rendimentos. O cálculo é feito com base em rendimentos anuais de no máximo 333,700 coroas suecas (cerca de 50 mil dólares). O benefício pode ser extendido em caso de doenças graves, e regras específicas regulam a concessão do auxílio-doença também a estudantes e desempregados. Pais de crianças doentes também têm direito a receber subsídios a fim de permanecer em casa para cuidar dos filhos.

Portadores de deficiência têm direito a assistência pessoal e gratuita, incluindo transporte em táxis ou veículos especialmente adaptados. Para os idosos, também é oferecida assistência social a domicílio – com taxas cobradas de acordo com a possibilidade de cada um de pagar. Para idosos com recursos limitados, o serviço pode ser gratuito. Todos têm a alternativa de escolher entre obter atendimento em casa até o fim da velhice, ou nas casas de repouso administradas pelos governos municipais.

O sistema de aposentadoria sueco é constituído por três partes – uma pensão nacional, uma pensão trabalhista que é financiada pelo empregador, e um plano de previdência privada. Um total de 18,5 por cento do salário e outros benefícios tributáveis do trabalhador são destinados à sua aposentadoria. pública. Deste total, 16 por cento vão para a conta de aposentadoria pública, cujo valor cresce de acordo com a evolução dos rendimentos e do desempenho da economia na Suécia. Os 2,5 por cento restantes vão para a chamada pensão premium, que varia segundo o desempenho dos fundos nos quais o trabalhador escolhe investir.

Para pessoas que tiveram pouco ou nenhum rendimento em suas vidas, há uma parcela menor da aposentadoria nacional, chamada de aposentadoria garantida. A finalidade é garantir a estas pessoas uma quantia mínima todo mês. O apoio de assistência aos idosos fornece uma última rede de segurança, para assegurar um padrão de vida digno.

Já o seguro-desemprego é voluntário – ou seja, o trabalhador deve se inscrever em instituições específicas para ter direito ao benefício, e pagar uma mensalidade. Estas instituições são conhecidas como ”A-Kassa” (Arbetslöshetskassor), e muitas são administradas por sindicatos. No pacote básico, a mensalidade é de 90 coroas suecas mensais (cerca de 13 dólares). Para poder usufruir de um salário-desemprego maior do que o básico, o trabalhador deve fazer um seguro suplementar, com contribuições mensais proporcionais ao salário. Quando perde o emprego, um trabalhador pode receber o salário-desemprego por até 300 dias úteis. Nos primeiros 200 dias, o benefício é equivalente a 80 por cento do valor do antigo salário – a um teto máximo, porém, de cerca de 100 dólares por dia. Nos demais 100 dias, esta porcentagem cai para 70 por cento. Os trabalhadores que perdem o emprego e não são afiliados à A-Kassa podem, ainda assim, obter benefícios – mas somente a um nível básico, e não superior a cerca de 48 dólares por dia útil.

Para famílias mais pobres ou com problemas econômicos temporários, os governos municipais prestam assistência sob a forma de apoio financeiro com base em avaliações individuais. Este apoio inclui recursos para despesas básicas, com a finalidade de garantir um padrão de vida razoável.

(fontes: Swedish Institute, Försäkringskassa (Agência Sueca para a Segurança Social), CSN (Agência Sueca de Assistência a Estudantes), Centro de Cuidados Dentários da Região Administrativa de Estocolmo e instituto sueco Global Utmaning)

É um sistema ainda amplamente generoso, que no entanto já foi melhor. Ao longo dos anos, o Estado de bem-estar social sueco sofreu uma série de reformas a fim de se adaptar às novas condições econômicas. Os subsídios ao desemprego foram contraídos, assim como o nível dos recursos para a saúde e a habitação. O sistema escolar sofre atualmente críticas pela queda no desempenho escolar dos estudantes, e pelo aumento do número de crianças em cada sala de aula. O modelo também enfrenta deficiências no número de profissionais capacitados para o atendimento aos idosos, e a imprensa sueca aponta para o fraco controle das autoridades públicas sobre a qualidade dos serviços prestados por algumas empresas privadas que, financiadas com o dinheiro dos impostos, atuam no setor. Várias escolas são hoje também administradas de forma independente, e a gestão privada do sistema de saúde é uma tendência que cresce.

Desde 2006, o governo de centro-direita busca implementar a sua visão para um modelo sueco renovado: deve ser mais atraente para os cidadãos suecos trabalhar, reza a mensagem, do que viver de subsídios sociais. A receita básica para incentivar as pessoas a trabalhar, na fórmula em curso, combina impostos mais baixos para os trabalhadores e menores benefícios sociais para quem está fora do mercado. Subsídios como auxílio-doença e pensões por invalidez se tornaram menos generosos, ao passo que os impostos sobre rendimentos têm sido reduzidos.

Para o governo de centro-direita, trata-se de modernizar o Estado-providência e dinamizar a economia sueca, sem alienar os tradicionais valores do modelo social sueco. Para a oposição de esquerda, trata-se de uma receita para a morte dos ideais de igualdade e solidariedade do país.

Os Novos Tempos

Os índices são invejáveis: a Suécia aparece entre os primeiros na lista de rankings globais como o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (IHD), o Índice de Prosperidade do britânico Legatum Institute, o Índice de Democracia elaborado pela The Economist Intelligence Unit, o Índice de Qualidade de Vida e o Índice Global de Inovação, além de encabeçar o novo Índice de Progresso Social e o Web Index, que mede o nível de conectividade e utilização da internet.

Mas os desafios do país ocupam os noticiários e preocupam a população, em uma nação que se pergunta se o seu modelo de igualdade e bem-estar social, que tornou-se referência para o mundo, será sustentável no futuro. A desigualdade econômica cresce, o envelhecimento contínuo e prolongado da população afeta o equilíbrio do sistema de seguridade social, e os problemas na política de integração de imigrantes dão força a um novo movimento político extremista.

A Suécia, um dos países mais igualitários do mundo, vem se tornando um pouco mais desigual. É o país onde a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres cresce de forma mais acelerada entre os 34 países da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), segundo relatório divulgado em 2013.

”Safáris de classe” para espiar os mais ricos tornaram-se uma novidade incômoda: ônibus lotados de turistas sociais circularam em 2012 pelos recantos nobres de Saltsjöbaden, bairro de classe média alta de Estocolmo, em passeios promovidos pela organização de esquerda ”Allt åt Alla” (”Tudo para todos”). Os tours eram encerrados, inevitavelmente, com as marcas dos ovos atirados contra os ônibus por moradores descontentes.

Maior do que as palpitações nervosas dos mais ricos, porém, foi a explosão de revolta nas comunidades de imigrantes, que incendiou nove subúrbios da periferia de Estocolmo e chocou a pacata Suécia em maio de 2013.  O estopim dos distúrbios foi a morte de um imigrante de 69 anos, baleado em sua própria casa por policiais que alegaram ter agido em legítima defesa quando o homem empunhava um facão. Mas as cenas de batalha campal que se seguiram trouxeram à tona os sentimentos de segregação e exclusão vivenciados por uma parcela considerável dos imigrantes, que representam 15 por cento da população sueca. O epicentro da revolta foi o distrito de Husby, onde o desemprego atinge oito por cento de seus 12 mil habitantes.

Os mais pessimistas proclamaram o fracasso do multiculturalismo e da política de integração sueca. Um dos países mais solidários do mundo no abrigo a refugiados que fogem de zonas de conflito e perseguições políticas, a Suécia tem um enorme contingente de imigrantes chilenos, iranianos e de origem iugoslava, além de ser a nação que recebeu o maior número de imigrantes iraquianos após a guerra do Iraque. Em agosto de 2013, as autoridades suecas acabam de anunciar a concessão imediata de vistos de residência permanente para refugiados do conflito na Síria, que chegam à Suécia em levas cada vez maiores. Grande parte da população de imigrantes vive em comunidades isoladas do contato com a sociedade sueca. E apesar de ter acesso à educação gratuita e aos demais serviços públicos, tem dificuldades em conseguir emprego, e não se sente representada pelos políticos. As tensões aumentaram.

Em 2010, a solidária Suécia assistiu com surpresa e apreensão, em 2010, à entrada da extrema-direita no Parlamento. A eleição do partido nacionalista Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna), com 5,7% dos votos, confirmou o avanço dos extremistas de direita na Europa, que exigem drásticas reduções nos índices de imigração.

”Na época, os suecos se chocaram com a eleição dos extremistas de direita. Agora, parece que eles vieram para ficar. Um dos maiores desafios da Suécia hoje é a integração dos imigrantes”, diz a cientista política Jenny Madestam, da Universidade de Estocolmo.

A Suécia parece precisar cada vez mais de seus imigrantes, num momento em que o desafio do envelhecimento populacional também se impõe: o país tem hoje a maior porcentagem de pessoas com idade superior a 80 anos, em relação aos demais países da União Européia. Dos 9,5 milhões de habitantes da Suécia, cerca de 18 por cento já ultrapassaram a idade de aposentadoria, e calcula-se que em 2030 o número de aposentados deverá subir para 23 por cento da população. É quase uma bomba-relógio: uma menor população economicamente ativa trabalha para sustentar um sistema que tem um contingente cada vez maior de aposentados.

O primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt avisa: os suecos devem se preparar para trabalhar muito mais. Em 2012, Reinfeldt lançou faíscas no debate ao sugerir a ampliação da idade de aposentadoria para 75 anos. No atual sistema flexível de aposentadoria sueca, os cidadãos podem se aposentar a partir de 61 anos de idade, ou trabalhar até os 67 anos.

“O sistema de aposentadoria não é baseado em mágica, e sim no trabalho dos cidadãos e na redistribuição dos recursos em larga escala. Se as pessoas acham que podem viver mais tempo e diminuir seu tempo de serviço, então terão que aceitar que as pensões vão ser mais baixas. Será que as pessoas estão preparadas para isso? Acho que não”, disse Reinfeldt em entrevista ao jornal Dagens Nyheter.

As críticas dos opositores da ideia jorraram.

“Para aqueles que vivem no meio político, como o primeiro-ministro, trabalhar além dos 65 anos significa ocupar altos postos em conselhos de administração de empresas, ou trabalhos muito bem pagos em consultoria. Mas, para um operário ou funcionário de hospital, que sente que os joelhos e as costas já não funcionam tão bem com a idade, a história é outra”, criticou o jornal Aftonbladet.

O elixir prescrito desde tempos ancestrais para curar males variados da humanidade também está em demanda na Suécia: a criação de mais empregos. Em julho de 2013, o nível de desemprego registrado foi de 7,2%. Entre jovens com idades entre 15 e 24 anos, o índice foi maior: 17,3%. (fonte: Statistiska Centralbyrån, Agência Central de Estatísticas da Suécia). O aumento do número de postos de trabalho será um dos principais temas da campanha para as próximas eleições gerais, que acontecem em setembro de 2014.

Em 2006, a coligação dos partidos de centro-direita rompeu a hegemonia do poder social-democrata – que, com a exceção de breves intervalos, governou a Suécia durante sete décadas. A pouco menos de um ano das novas eleições, o governo acaba de anunciar uma quinta redução nos impostos daqueles que trabalham. A reação não foi de comemoração, como se poderia supor se esta não fosse a singular Suécia: a nova baixa dos impostos é um ato que desagrada a uma parcela significativa da população, e gera um intenso debate no país.

Os impostos na Suécia são comparativamente bastante elevados, em relação a outros países. As taxas municipais variam entre 29 e 36 por cento da renda de um indivíduo, dependendo do local em que a pessoa vive. Além disso, para os que ganham acima de 35,5 mil coroas suecas mensais – que é o salário médio de um professor universitário, por exemplo -, impostos estatais entre 20 e 25 por cento são cobrados a partir de determinados níveis de rendimento. A carga tributária é aumentada ainda pelo imposto sobre valor agregado, uma taxa de 25% que incide sobre a compra de alimentos e a maioria dos produtos e serviços em geral.

Mas cerca de 75 por cento dos suecos estariam dispostos a pagar impostos ainda mais altos para financiar os serviços de saúde, educação e tratamento de idosos – segundo pesquisa realizada em 2010 pelo sociólogo sueco Stefan Svallfors. Muitos suecos ainda desconfiam de políticos que prometem baixar os impostos: não querem maiores ameaças à generosidade do Estado de bem-estar social, e à qualidade de serviços públicos como o sistema escolar e o de saúde.

”Historicamente, a maioria dos suecos sempre pagou altos impostos de bom grado, porque sabe que o dinheiro será revertido na forma de benefícios sociais e serviços públicos de qualidade”, diz a jornalista Sophia Polhammer, da agência sueca Direkt, a principal agência de notícias financeiras da Suécia.

”As pessoas têm a confiança de que o dinheiro dos impostos não será desviado para o bolso dos políticos, e sim empregado em políticas bem definidas que beneficiam a todos. Esta ”moral dos impostos” sobrevive em alto grau. As pessoas pagam os impostos que são cobrados, sem reclamar especialmente muito”, ela acrescenta.

Sophia Polhammer observa que desde 2006 o atual governo têm promovido uma significativa redução de impostos para aqueles que trabalham, com o propósito de fazer com que muitos que hoje vivem de benefícios sociais retornem ao mercado de trabalho.

”Mas uma das consequências desta política tem sido uma piora nas condições de vida de grupos vulneráveis, como os desempregados e aqueles impossibiltados de trabalhar por motivos de doença. Isto gerou, por sua vez, um acirrado debate político sobre a atual política de redução de impostos”, diz a jornalista.

Este é um dos dilemas da Suécia de hoje: como minimizar a queda do alto padrão do Estado de bem-estar social do país, que mostra rachaduras em sua estrutura. De um lado do debate, estão os que concordam com a oposição de esquerda, para quem as sistemáticas reduções de impostos e outras medidas promovidas pelo governo conduzirão à piora dos serviços e ao abandono do modelo sueco de justiça social. De outro, enfileiram-se os defensores da política de centro-direita, que define as recentes transformações como uma necessária adaptação aos novos tempos.

”Nas próximas eleições, uma questão dividirá os eleitores: será de fato possível manter o modelo de bem-estar social sueco, ao mesmo tempo em que se continua a reduzir os impostos? No momento, a economia sueca está em boa forma. Conseguiu em grande parte se manter à margem da recessão global, e continua a ser uma das economias mais competitivas do mundo. Mas isto poderá mudar no futuro”, diz a cientista política Jenny Madestam.

Não será possível desejar a todos os suecos que tenham fé em Deus para superar os desafios do futuro: esta é uma nação essencialmente secular, onde apenas uma em cada dez pessoas atribui à religião um papel de importância em suas vidas. A Igreja Luterana sueca continua a testemunhar o declínio do seu rebanho.

Mais dominantes parecem ser os mandamentos da chamada Jantelagen, ou Lei de Jante. É uma ”lei” criada nos anos 30 pelo autor dinamarquês-norueguês Aksel Sandemose, e que acabou por se disseminar entre os países nórdicos. São dez mandamentos no total, que giram em torno de uma mensagem central: ”não pense que você é especial, e não pense que você é melhor do que ninguém”.

É uma lei que ainda parece moldar a mentalidade de muitos suecos – incluindo os políticos do país.

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