Escândalo na Suécia: deputado usa milhas do cartão que parlamentares recebem para usar transportes públicos

Por Claudia Wallin, para a BBC Brasil:

Um escândalo político reverbera nas manchetes de toda a mídia na Suécia: para horror de todos, o deputado Tomas Tobé usou, em benefício próprio, as milhas acumuladas no cartão que o Estado paga aos parlamentares para utilizarem gratuitamente os trens e transportes públicos do país.

Secretário-executivo do Partido Moderado (conservador), Tobé usou os pontos de seu cartão para pagar um saco de amendoim, uma refeição, vinho e água, além de oito bilhetes de trem para viagens de caráter pessoal. O valor total da imprudência: 10,865 coroas suecas – o equivalente a cerca de 3,8 mil reais.

Tomas Tobé violou um princípio cristalino do Manual de Viagens dos Parlamentares suecos, que dita as regras a serem cumpridas pelos deputados. Diz o parágrafo 44: “Um parlamentar não pode usar em benefício próprio os pontos de milhagem acumulados em viagens feitas a serviço, em avião ou trem”. Os pontos devem ser utilizados para baratear os custos com viagens a serviço do próprio parlamentar, ou de algum outro deputado do Parlamento.

O tipo de cartão que dá direito aos parlamentares de usar gratuitamente os trens e demais transportes públicos

 

A insensatez de Tobén pode parecer, comparativamente, um escândalo singelo. Mas na visão da Agência Nacional Anti-Corrupção da Suécia, não deve haver distinção entre a pequena ou a grande corrupção.

“Especialmente quando se trata de políticos e autoridades públicas, não importa se o crime é grande ou pequeno. Iremos sempre investigar e, desde que tenhamos as evidências necessárias, processar o responsável em nome do interesse público”, diz Kim Andrews, promotor-chefe da agência sueca, em entrevista à BBC Brasil.

“Porque é essencial, em uma sociedade, manter a confiança da população nos representantes que tomam decisões em nome dos interesses dos contribuintes. Trata-se, em última análise, de proteger o interesse público e a democracia”, acrescenta Andrews.

O caso de Tobén já está sob investigação dos promotores da agência – apesar de o deputado ter se apressado em corrigir o deslize a fim de devolver o dinheiro. “É crime usar dinheiro que nao é seu. Portanto, em princípio o deputado cometeu um crime”, constata o promotor-chefe.

Mais importante do que a dimensão dos escândalos políticos, é preciso atentar para a questão moral de qualquer ato impróprio – diz Andrés Rivarola Puntigliano, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Estocolmo.

“É claro que existe uma grande diferença, por exemplo, entre o caso do deputado Tobé e o escândalo de corrupção da construtora Odebrecht e suas ligações com políticos do Brasil, em que milhões teriam sido desviados”, ele observa.

“Mas é preciso destacar a gravidade do problema moral representado por casos como o de Tobé, em que o dinheiro público, ainda que em menor escala, é usado em benefício próprio pelos políticos.”

Arrependimento

Um arrependido Tomas Tobé pediu desculpas públicas por seu ato, ao enfrentar a fúria da mídia em uma coletiva à imprensa no Parlamento sueco. O pinga-fogo foi reproduzido pelo jornal Dagens Nyheter:

Repórter: “Você não tinha conhecimento das regras?”

[na Suécia, políticos são tratados como “você”]

Tomas Tobé: “Eu deveria ter tido um controle melhor sobre o uso dos pontos de milhagem, uma vez que eu os acumulei através de viagens de trem a serviço. É totalmente errado usar esses pontos em benefício próprio, da forma como usei.”

Repórter: “Mas você não sabia das regras?”

Tomas Tobé: “Claramente, eu não sabia bem o suficiente. Por isto, estou corrigindo meu erro.”

Repórter: “Você chegou a comprar produtos com os pontos de milhagem?”

Tomas Tobé: “Durante uma viagem de trem, usei os pontos para pagar uma refeição, vinho e água. Acabo de informar a administração do Parlamento sobre isso, e eles vão descontar do meu próximo salário o valor dos gastos.”

Repórter: “Você acha que tem condições de permanecer no cargo de secretário-executivo do partido?”

Tomas Tobé: “Sim.”

Repórter: “E por quê você tem tanta certeza de que pode?”

Tomas Tobé:  “Esta é a minha proposição. Estou corrigindo meu erro. Vou me assegurar de que isto nunca mais vai acontecer. Peço desculpas por ter feito o que fiz.”

A líder do Partido Moderado, Anna Kinberg Batra, deu um puxão de orelhas público no deputado:

“Foi um ato impróprio, pois regras existem para serem cumpridas. Thomas Tobé deve portanto corrigir este erro. E assumir sua responsabilidade para que isto não se repita”.

A revelação sobre o deslize de Tobé foi feita pelo jornal Expressen, que no início do mês contactou o deputado a fim de colher informações sobre o uso da milhagem feito em 2016. Ato contínuo, o parlamentar começou a enviar informações sobre o uso dos pontos do cartão para o setor de administração do Parlamento, a fim de retificar o erro e devolver o valor correspondente aos gastos.

 

 

 

 

 

 

 

Em uma das notas enviadas ao setor de administração do Parlamento sueco, o deputado informa que deixou de declarar a compra de um saco de amendoim e um bilhete de trem para viagem de caráter pessoal, e pede que o erro seja corrigido  

Educação

“A Suécia tem políticas extremamente rígidas de controle da corrupção, e o caso do deputado Tobé é um bom exemplo disso”, diz o professor Andrés Rivarola Puntigliano, que destaca também a ocorrência ocasional de casos mais robustos de corrupção no país.

Na sua interpretação, são relativamente falhas as correlações que em geral associam baixos índices de corrupção ao alto grau de desenvolvimento de uma democracia.

“Também existem democracias desenvolvidas com graves problemas de corrupção. Exemplos disso são a Itália e a França, onde foi revelado recentemente que (o candidato presidencial e ex-premier francês) François Fillon empregou a própria mulher como assessora-fantasma”, diz o professor Puntigiano. Nomeada para o gabinete do marido na época em que ele era deputado, Penelope Fillon teria acumulado rendimentos de aproximadamente 500 mil euros entre 1998 e 2012.

Por outro lado, observa o professor, também é uma generalização errônea caracterizar a corrupção como um problema típico de países latinos.

“Na própria América Latina, as experiências são bastante distintas. De um lado há o Brasil, com seus grandes escândalos, mas podemos citar o Uruguai como exemplo de uma democracia que mostra baixos índices de corrupção em comparação com outros países, assim como o Chile”, destaca ele.

Qual o caminho para a construção de democracias menos corruptas, em que o fato de um deputado se aproveitar da milhagem do trem seja considerado um grande escândalo?

Para Andrés Puntigliano, a transparência dos atos oficiais é uma ferramenta-chave para controlar os excessos do poder. Mas ela deve estar associada a um elemento essencial: a educação de um povo.

“Não é possível atingir um nível de baixa corrupção em um país, como a Suécia, apenas através da implementação de leis e regras. É necessário, acima de tudo, um longo processo de educação de uma sociedade e de seus políticos, em termos do respeito que se deve ter ao uso do dinheiro público”, destaca Puntigliano:

“Em outras palavras, a integridade de uma sociedade começa a ser construída nas escolas.”

19 de Março de 2017

68 respostas
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  1. Washington Bergamo Ruiz
    Washington Bergamo Ruiz says:

    No Brasil ninguém controla os gastos com cartão corporativo dos políticos? Eles gastam montantes absurdos sem qualquer necessidade de aprovação! É a maior folia para políticos, pelegos e familiares! Não existe qualquer auditoria nestes gastos???? Os gastos com cartão corporativo tinham que ser ao menos publicados para o acesso da população.

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  2. Raquel Mendes
    Raquel Mendes says:

    Não duvido que lá na Suécia tenha bem menos corrupção. Não porque eles são melhores que os brasileiros, mas porque há mais controle das instituições.
    Não sei quem é esse político, mas o que tenho certeza é que esse escândalo não apareceu por uma simples questão de moralização. Tem certamente outros interesses atrás disso. Atualmente, por mais corruptos que sejam os amigos, eles não serão pegos, mas tem se usado muito a luta contra a “corrupção” para derrubar inimigos.

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  3. Jane Barbosa
    Jane Barbosa says:

    A questão é que cada um furta/rouba/desvia o que está ao seu alcance… a corrupção é inerente à relação entre o ser humano e o poder, aliado a oportunidade!!
    Por aqui dizemos sempre que “não devemos nos sujar por pouco”! Então!?!

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  4. Ramon Dias
    Ramon Dias says:

    Enquanto isso aqui no Brasil, estamos tão acostumados com a corrupção de nossos políticos que quando se ouve falar que fulano desviou 2, 3, 4 milhões de reais quase que não choca mais. O espanto só ocorre quando se fala em centenas de milhões ou em bilhões.

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  5. Nadila Andrade
    Nadila Andrade says:

    Infelizmente é o contrário di nosso País, aqui somos gonvernado por uma verdadeira quadrilha que tomoram o Pais no golpe, e o pior, com a bênção da nossa justiça, e com o apoio de uma parte da população.

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  6. Sonia Carneiro Monteiro
    Sonia Carneiro Monteiro says:

    Ladroagem existe em qualquer lugar do mundo, porém, em País de primeiro mundo o indivíduo é logo descoberto e paga por isto. Aqui o número é expressivo de corruptos, no entanto, deixam o tempo passar para que caduque as suas condenações, como foi o caso de Aécio Neves e de outros. Por isso é sempre bom estarmos nos melhores lugares do mundo.

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  7. Jose Souza
    Jose Souza says:

    E de ficar boquiaberto com episodio acima… No Brasil não sabemos nem se os políticos tem alma, porque coração e sensatez, isso de fato, eles nao os têm.

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  8. Bob Souza
    Bob Souza says:

    Não existe país sem corrupção, o que existe é país com uma justiça falha e indignação seletiva.

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  9. Giovanni Moscato Junior
    Giovanni Moscato Junior says:

    Os suecos estão corretíssimos em ficarem indignados com essas coisas, mas é que o nosso patamar é tão distante disse que chego a rir do tamanho da “imprudência” do deputado.

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    • Edilena Angelim
      Edilena Angelim says:

      No Brasil não existe isso estamos a ano luz deles em super desenvolvimento veja o prefeito gênio de sampa.rsrsrs. .

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  10. Fra Angelico
    Fra Angelico says:

    País sério a Suécia ? Muito serio mesmo. Lá até os bordéis de animais ( isso mesmo, zoofilia) é regulado pela Estado.

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  11. Carlos Ferreira da Silva
    Carlos Ferreira da Silva says:

    Me desculpe, tenho uma vocação quase natural de não permitir que me façam de trouxa! Abomino todo tipo de corrupção que se possa imaginar até além do que possa se praticar e está sendo praticado todos os dias nesse meu país de ricos brancos e ávidos por ter, poder e prazer só pra si. Mas este tipo de noticia me faz sentir subestimado em minha capacidade de pensar, sabe? O quantos esses países da Europa “surrupiaram’ e ainda continuam surrupiando do Brasil e de outros países ditos emergentes? Isso sem contar que comparar o tamanho dessas “porcarias” com o tamanho do Brasil é pura ignorância. Quantas Suécias cabem só dentro do estado de São Paulo? KKKK não concordo com nenhum tipo deroubo, mas condenar _Supremo – uma mulher negra que possivelmente tenha roubado ( quem confia nessa policia) menos de 100 reais, sem direito a habeas corpos p0or que como disse o “ministro” quem rouba pouco também rouba muito, e soltar Bruno, soltar a “biscate” de Cabral por que tem filhos pequenos enquanto a cadeia esta cheia de mulheres com filhos….kkkkkkkkkk Corda!!!! Canalhas!!!!!! Bundas vagas!!!!

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    • Renato Silveira Zogahib
      Renato Silveira Zogahib says:

      A SUÉCIA TEM 440 000 KM2, NÃO CABERIA NO ESTADO DE SÃO PAULO QUE TEM 250 000 KM2, TALVEZ SIM PELA POPULAÇÃO DE 9 500 000 SUECOS PARA 43 000 000 DE PAULUSTAS.

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    • Carlos Ferreira da Silva
      Carlos Ferreira da Silva says:

      Ao que me parece não é justo certa comparações que se fazem por ai com muita facilidade, sabe; a mim pelo menos não foge muito aquela regra de um tal ministro que se recusou a aceitar que uma moça que furtou menos de 100 reais, sabe lá pra que que, talvez até pra alimentar-se, alegando que não é o tamanho do furto mas o furto em si mesmo é que pensa, ao mesmo tempo que um de seus pares, da mesma hierarquia solta um Bruno por exemplo, que praticou femicídio. Outro caso parecido é o fato de um juizeco do Rio de Janeiro colocar em liberdade a ex – primeira dama do estado alegando o fato de que aquela Vaca de Basa, tem filhos pequenos que necessitam de cuidados enquanto outras centenas de presas pobres e pretas continuam presas. Ainda, é o mesmo que comparar Portugal pela sua infra – estrutura bonitinha e prontinha ( um paizinho do tamanho de um ovo e com centenas de miliares de anos nas costas), com a infra – estrutura brasileira, com dimensões continentais, apenas 500 e poucos anos desde que foi invadido, isso sem levar em conta o fato de que tudo que se produziu por cá no inicio era partilhado com o colonizador………

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    • Artur Costa
      Artur Costa says:

      Independentemente da questão da “proporcionalidade” de habitantes ou territorial , o que está em evidência é o PRINCÍPIO que está , ou deveria estar, embutido no espírito de quem ocupa qualquer cargo público. Desviar 1 milhão é tão censurável como desviar 1 euro.
      Simples.

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    • Carlos Ferreira da Silva
      Carlos Ferreira da Silva says:

      Artur Costa Posso discordar! Tem a questão moral, ou imoral, já que estou considerando aqui um problema não tão somente de quem ocupa cargos públicos, embora eu entendo que, quem ocupa um cargo público deveria sim ser o suprassumo da ética e da moral. Não é a mesma coisa entre um escravizado que rouba uma galinha e um Cabral bem como todos os Cabrais, Caiados…… que roubam milhões. A propósito e o termo desviar creio que seja muitas vezes e em muitos casos é inapropriado. É roubar mesmo. E mais, não é por acaso que aqui no Brasil os grandes e reincidentes ladrões engrossam as fileiras de gente branca. No mais, a Europa não está lá está coisa ilibada como alguns querem apresentar viu, isso sem contar que rouba, invadiram, assassinaram…… tanto que eu acredito que não tem um europeu que não tenha a mão manchada de sangue de índio ou de africano.

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    • Artur Costa
      Artur Costa says:

      Questões que a história foi deixando ao longo do tempo, não devem ser misturadas … mas claro que tem muita coisa que o europeu fez, nomeadamente cometeu uma série de atrocidades, que ainda hoje têm um certo efeito nos países “descobertos”. Mas sobre galinhas e Cabrais , há que ver as leis estão a aí pra julgar quem rouba menos e quem rouba mais. Dai as penas serem diferentes, juridicamente falando. No então , a moralidade , é um conceito imensurável , a meu ver. As consequências , essas sim, podem ser diferentes.

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  12. Jose Roberto De Almeida Almeida
    Jose Roberto De Almeida Almeida says:

    Quando se trata do uso ( ou mau-uso ) dos recursos públicos, a dimensão do escândalo, não esta ligado ao montante roubado, mas sim, a capacidade de indignação da sociedade contra o ato criminoso…

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  13. Lourival Souza
    Lourival Souza says:

    Quanta diferença. Aqui seria considerado normal e um séquito de baba ovos iria justificar o procedimento errado.

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  14. Felipe Silva
    Felipe Silva says:

    Sigo no aguardo da vinda da Claudia Wallin ao Rio de Janeiro para autografar o meu exemplar de seu livro.

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