Uma conversa com Hans Blix

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Hans Blix, entre o ex-premier britânico Tony Blair (à esquerda) e o ex-presidente americano George Bush
Ex-Chefe dos Inspetores de Armas da ONU no Iraque e ex-Ministro do Exterior sueco

”Nunca me chamaram de Excelência” 

No bairro de Östermalm, a três quarteirões da sede do Partido Social-Democrata em Estocolmo, o nome do lugar é Man in the Moon (”Homem na Lua”).  Pelo salão do bar gastronômico, ao lado da clientela de ilustres anônimos e lunáticos eventuais, circulam ministros e políticos em geral. Certa vez estava lá o primeiro-ministro, Fredrik Reinfeldt. Mas o que sempre prende o meu olhar é a imagem essencialmente digna de Hans Blix, jantando discretamente ao lado da mulher. Às sextas-feiras, percorro quase instintivamente o salão em busca da presença nem sempre assídua de Blix, também ele um vizinho do ”Man in the Moon”.

Ex-ministro das Relações Exteriores da Suécia e ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Hans Blix é mais conhecido pelo choque de lucidez que tentou aplicar no mundo ao atuar como chefe dos inspetores de armas das Nações Unidas (ONU) no Iraque.

Às vésperas do ataque dos Estados Unidos ao regime de Saddam Hussein em 2003, dia após dia a TV mostrava a imagem improvável deste diplomata sueco, que confrontava o país mais poderoso do planeta ao negar a existência de indícios sobre armas de destruição em massa no Iraque. Os supostos arsenais jamais foram encontrados pelas forças de ocupação do Iraque.

São dez horas da manhã em ponto quanto toco a campainha do apartamento de Blix em Estocolmo, esta cidade onde a impontualidade ataca o fígado dos habitantes e destrói relações e amizades. É o próprio Blix quem me recebe na porta, faz o café e ajeita os croissants frescos na bandeja. Como se fosse uma pessoa qualquer, diriam alguns.

Hans Blix nasceu em 1928 na cidade de Uppsala, cenário da trama de ”Fanny e Alexander”, do diretor sueco Ingmar Bergman. A ampla sala do apartamento de 170 metros quadrados é coberta de tapetes persas. ”Sou viciado em tapetes”, confessa Blix. Quando já não havia espaço no chão, começou a pendurá-los pelas paredes. Pelo apartamento também se vêem jogos de cerâmica colorida e uma árvore em miniatura decorada com pedras semipreciosas – memórias de suas quatro viagens ao Brasil.

 

. Na Suécia, deputados, ministros, prefeitos, governadores, o primeiro-ministro e autoridades em geral são tratados pelo pronome ”você”, e sequer em plenário o termo ’Vossa Excelência’ é usado. Como devo me dirigir ao senhor?

HANS BLIX: Não me chamam de Excelência, e nunca me chamaram. Desde os anos 60, abolimos os pronomes de tratamento formais e todos se tratam por ”Du” (”Você”). Na Suécia, as pessoas não querem que os políticos sejam uma espécie de elite, que vive em outra estratosfera, distante dos problemas do cidadão comum.

. Qual a sua opinião sobre o sistema de países como o Brasil, em que uma classe política dotada de privilégios pode ser considerada uma espécie de elite?

HANS BLIX: Se eu vivesse no Brasil, votaria em partidos comprometidos em reduzir o nível de privilégio da classe política. Porque políticos que usufruem de certos privilégios acabam por se distanciar dos cidadãos que estão ali para representar. Penso que os eleitores deveriam escrever ou dizer aos seus políticos o seguinte: ’Se Vossa Excelência não fizer um bom trabalho por nós como representante do povo, não iremos votar em Vossa Excelência nas próximas eleições.

. O senhor não teve nenhum tipo de privilégio na época em que foi ministro, como auxílio-moradia ou apartamento funcional?

HANS BLIX: Não, sempre morei neste apartamento, onde vivo de aluguel desde 1968. E na verdade, meu aluguel tem um custo muito acima da minha pensão de aposentadoria como funcionário do governo sueco. O aluguel custa quase 17,000 coroas suecas (cerca de 2,6 mil dólares), e meu salário como aposentado, depois de quase 20 anos como funcionário do governo, é de 13,000 coroas suecas (cerca de dois mil dólares). Se não fosse a pensão que recebo como ex-funcionário da ONU, eu não poderia pagar o aluguel nem viver neste bairro.

. É uma aposentadoria relativamente baixa, a que recebe pelo governo.

HANS BLIX: É porque deixei o serviço público na Suécia em 1991, e minha aposentadoria foi calculada com base no salário que eu recebia na época. Mas não estou reclamando, tenho tudo o que preciso. Tenho também um carro, e depois de aguardar na fila por quase vinte anos, finalmente consegui uma vaga na garagem do edifício, que tenho que pagar à parte.

. Como ministro, o senhor também não tinha direito a carro com motorista?

HANS BLIX: Nunca tive carro oficial nem motorista para me levar ao trabalho como ministro das Relações Exteriores. Lembro-me de que certa vez eu estava aqui na calçada em frente ao edifício onde moro, trocando os pneus do meu carro. Você sabe, aqui na Suécia temos que trocar os pneus todo ano, temos os pneus para o verão e os de inverno, para dirigir na neve e no gelo.  Eu estava então empurrando os pneus de inverno da garagem para a calçada, a fim de trocá-los, e alguém na rua me disse, ”é você próprio que vai fazer isso?”. Eu disse, ”e quem mais deveria estar fazendo isso?”. Ministros nunca tiveram direito a carro oficial com motorista. O que há, até hoje, é um pool de carros dos serviços de segurança suecos. Se eu precisasse ir a uma reunião em alguma embaixada, eu poderia ter um carro com um motorista do serviço de segurança. Mas nunca para me levar ou trazer do trabalho.

. O que mudou em sua vida quando o senhor se tornou ministro na Suécia?

HANS BLIX: Não mudou muito, a não ser pelo volume de trabalho que precisava trazer para casa. E em casa, na Suécia, dividimos as tarefas. Como tinha filhos pequenos na época e não havia tantas creches como hoje, tivemos que contratar uma au pair, já que minha mulher também trabalhava. Ainda cozinho com frequência, e minha mulher cuida mais da lavagem da roupa, que não é a minha tarefa preferida. Também passo o aspirador na casa, e ocasionalmente temos uma diarista para ajudar na limpeza.

. Seus gastos eram controlados?

HANS BLIX: Ingressei muito cedo no movimento jovem do Folkpartiet (Partido Liberal), em 1948, e sei muito bem como é preciso ser cauteloso, tanto como representante público como com a coisa pública, o dinheiro do contribuinte. Como ministro, você sabe exatamente quanto pode gastar se tiver um jantar de representação com algum convidado, e em que restaurante pode ir. Não me recordo qual era o limite máximo, mas não era nada extravagante e nem regado a champanhe, absolutamente não. Ministros devem também ter o cuidado de se certificar de que sua equipe atua com total correção.

. Quais são as falhas do sistema sueco?

HANS BLIX:  Nem tudo é um mar de rosas. A nível local, escândalos ocorrem, ainda que de pequena dimensão. E às vezes, alguns deputados suecos cometem abusos. Outro dia, os jornais descobriram que um deputado (Peter Persson, do partido Social-Democrata), ao voar de Estocolmo de volta para seu estado de origem, pegou um táxi do aeroporto até a sua casa de verão, a 70 quilômetros dali. E cobrou do Parlamento a corrida de táxi, em vez de pegar um ônibus. Isto é inaceitável.

. Que grau de corrupção o senhor diria que existe na política sueca?

HANS BLIX: No século XVIII, tínhamos ainda um certo grau de corrupção, que com o tempo tornou-se cada vez menor. A corrupção é uma deformidade. E é um roubo de fato. É roubar o dinheiro dos contribuintes. Na Suécia pagamos um dos impostos mais altos do mundo, e portanto não queremos ser roubados. Isso exige ampla transparência governamental, fortes instituições anti-corrupção e uma imprensa ágil. Um fator de extrema importância tem sido a imprensa livre. Quando a imprensa é livre, ela pode revelar. O povo não gosta de ver poderosos roubando dinheiro. Toda vez que se denuncia, por exemplo, que autoridades estatais gastaram determinada quantia em jantares ou seminários para seus funcionários, as manchetes dos jornais dizem ”o dinheiro do seu imposto está pagando jantares para funcionários públicos”. Estes casos são denunciados, e assim se combate e previne o abuso. É por isto que a maioria das agências governamentais suecas é limpa.

. Que futuro vê para o Brasil?

HANS BLIX: O Brasil é um país que está flexionando os músculos, que se desenvolve com rapidez e está a caminho de se tornar uma superpotência econômica. Na minha opinião, a missão primordial do país neste processo é erguer as massas da pobreza, através de melhores escolas, melhores oportunidades e melhores condições de vida em geral. Penso que, assim como aconteceu na Suécia, o acesso da população a uma educação de qualidade e a melhores codições de vida formará no Brasil um povo mais consciente, e consequentemente mais exigente em relação aos seus políticos.

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