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CARTAS DA SUÉCIA

Claudia Wallin

Foto: Ola Ericsson / Stockholmsfoto

Foto.DCM.Riksrevisionen

Como a Suécia evita a corrupção em empresas estatais

O auditor sueco me ouve com aquela expressão de quem tenta medir o QI do seu interlocutor. A pergunta é - como evitar a corrupção em empresas estatais, e impedir sua utilização como pólos de transferência de recursos públicos para grupos privados bem conectados com o poder político? A resposta, ele diz, é elementar. “É para isso que servem auditorias independentes, regulares e transparentes sobre as operações das estatais. E quero dizer auditorias verdadeiramente independentes, que façam não apenas um trabalho de fiscalização, mas também de promoção da eficiência”, observa Dimitrios Ioannidis, um dos chefes responsáveis pela fiscalização das estatais da Suécia.
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O Fundo do Petróleo norueguês e o Pré-Sal brasileiro

A essa altura, os noruegueses poderiam estar razoavelmente desesperados, ou já tramando algum pacto de suicídio. Os preços do petróleo despencam como uma jaca madura, e a Noruega deve sua riqueza e bem-estar ao ouro negro. Mas não se fala em crise no país. Por quê? Porque nos anos 90 a Noruega criou um Fundo do Petróleo (o “Oljefondet”), a fim de economizar a fabulosa fortuna do petróleo e assim assegurar o bem-estar dos cidadãos e das gerações futuras. É o modelo que serviu de inspiração, em parte, para o fundo brasileiro do pré-sal.
DCM.Foto.Björn.von.Sydow

Líder sueco: crise no Brasil é oportunidade ideal para pacto nacional e reforma política

“O conflito político no Brasil é extremamente alarmante. Por outro lado, ele representa uma oportunidade ideal para convocar os partidos políticos e a sociedade a realizar uma ampla e positiva agenda de reformas no país”, avalia o social-democrata Björn von Sydow, ex-presidente do Parlamento sueco e atual vice-presidente da Comissão de Constituição parlamentar. O momento exige um pacto suprapartidário a fim de alcançar um consenso de união nacional: “Porque a situação é de tal maneira caótica, que os partidos políticos brasileiros devem perceber que nenhum deles é forte o suficiente para encerrar a crise sem o apoio de todos os demais“, ele observa. "E é o momento para mobilizar também diferentes setores da sociedade civil em torno de um plano de reformas constitucionais, econômicas e políticas, incluindo a reforma dos partidos políticos”, diz o deputado, que esteve recentemente no olho do furacão da crise brasileira, em visita a Brasília.
Foto.Göran.Lambertz.Juiz.Supremo

Juiz da Suprema Corte sueca: sem juízes imparciais, não pode haver Justiça no Brasil

“É extremamente importante que juízes de todas as instâncias, em respeito à democracia e à ordem jurídica e constitucional, atuem com total imparcialidade. Caso contrário, não haverá razão para a sociedade confiar nem em seus juízes, e nem em seus julgamentos”, pontua o juiz sueco Göran Lambertz. Um dos 16 integrantes da Suprema Corte da Suécia, Lambertz vê com preocupação a atual crise no Brasil: “À distância, tem sido difícil entender o que é verdadeiro e o que não é verdadeiro. Mas preciso dizer que me parece, de modo geral, que alguns atores do processo legal que se desenvolve no Brasil não são totalmente independentes em relação aos aspectos políticos do caso.”
General view of a cell inside Skien prison, south of Oslo

Como os escandinavos tratam os presos

O ideário nórdico sobre os direitos de um prisioneiro é de fazer um justiceiro brasileiro hiperventilar. Só recolhendo os cacos de muitas verdades absolutas será possível tentar compreender a atordoante notícia que trazem os jornais noruegueses: Anders Behring Breivik, autor confesso do massacre brutal que chocou o mundo em 2011, vai processar o governo da Noruega. De dentro da prisão. Breivik diz que seus direitos humanos estão sendo violados na penitenciária. E será ouvido. Assim como dita a lei para todos os presos na Noruega, a Anders Breivik deve ser dado o direito de ir à Justiça defender seus direitos.
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Na Suécia, igrejas pagam impostos

Grandes coisas fez o Senhor pelos pastores do Brasil neste ano da graça de 2015, e por isso eles estão alegres. Pois assim disse a eles a Nossa Senhora da Perpétua Isenção Fiscal: vinde a mim, e eu vos aliviarei. E no quinto mês, Eduardo Cunha das Mercês e sua falange evangélica afastaram de vez das igrejas o demônio dos impostos que agora só atormenta os ímpios, aleluia. Desgraçados são os profanos suecos - ó homens de pouca fé! -, porque deles o tinhoso continuará a cobrar o seu quinhão. “É claro que pagamos impostos”, diz a pastora sueca Ulla Marie Gunner, com a naturalidade com que um Malafaia pede o cartão de crédito de um fiel. “Jesus já disse: ‘dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus’”, recita a pastora na igreja evangélica Immanuelskyrkan, no centro de Estocolmo.
DCM.Foto.Carl.Holst

O jeito escandinavo de lidar com mau uso de dinheiro público

Quem lê o noticiário político da Escandinávia, encontra evidências comprobatórias de que Eduardo Cunha e seus yahoos do Congresso dariam um rim para viver longe do exótico conceito nórdico de democracia. Os fatos recentes: um dia depois de cidadãos terem denunciado à polícia o Ministro da Defesa da Dinamarca, Carl Host, ele renunciou ao cargo. Agora, diante de novas acusações sobre mau uso do dinheiro público, Holst acaba de afastar-se também - voluntariamente, e sem ser empurrado - de sua cadeira no Parlamento dinamarquês. Na Dinamarca, assim como na Suécia, qualquer cidadão pode fazer uma denúncia criminal na polícia contra qualquer político. Nestes estranhos países, onde a ideia de que todos são iguais perante a lei não é tratada como um mero verso da Constituição, políticos acusados de práticas ilícitas não têm o privilégio da imunidade parlamentar ou do foro privilegiado - e todos têm a decência de afastar-se dos cargos, diante de qualquer acusação grave, até prova em contrário.
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O que aconteceria com Eduardo Cunha se ele fosse deputado na Suécia

As trevas que escurecem os céus às três e meia da tarde, neste nebulento outono sueco, são um convite a conversas e especulações tenebrosas. Lanço a pergunta aos meus convivas: e se o impoluto Presidente do Parlamento sueco, num delírio lancinante, abrisse quatro contas secretas na Suíça, mentisse para os nobres colegas da Câmara e se tornasse personagem de uma investigação das autoridades suíças sobre corrupção passiva e lavagem de dinheiro? “Eu seria a primeira cidadã a entrar com uma ação judicial contra ele”, responde a nossa anfitriã da tarde, que durante seis anos foi a porta-voz do primeiro-ministro sueco. À volta da mesa, os demais comensais, incluindo um ex-deputado, balançam a cabeça em sinal afirmativo. Sim: na Suécia, qualquer cidadão tem o direito de se dirigir à polícia, ou à Procuradoria Geral de Justiça, e apresentar uma denúncia criminal contra qualquer político.

Destaques

Radar Brasil

Crônicas da Escandinávia

Suécia: Políticos Sem Mordomia

Como vivem os políticos suecos

A Receita Sueca anti-Corrupção

Que país é este?

83%

dos suecos acreditam que os impostos revertem positivamente em serviços.

56%

dos suecos têm alta confiança em seus políticos.

81,7 anos

Expectativa de vida.

99%

de reciclagem de todo o lixo.

O site

Esse espaço foi criado para promover um debate sobre como é possível, com pequenos e grandes atos, resgatar uma cultura de respeito às regras, às leis e ao povo e melhorar as condições de vida para todos. O que funcionou na Suécia pode muito bem funcionar em outros países. É só querer.

O livro

A Suécia, há menos de 100 anos, era um país pobre, mas habitado por um povo determinado a sair da pobreza e do atraso. E conseguiu. O segredo – que não é segredo – é sempre o mesmo: investimento em educação, ciência, tecnologia, justiça, projetos nacionais integrados, que levam ao desenvolvimento com igualdade e justiça social.

A autora

Radicada na Suécia desde 2003, Claudia Wallin é graduada em Jornalismo pela UFRJ e mestre em Estudos sobre a Rússia e o Leste Europeu pela Universidade de Birmingham (UK). Foi repórter e redatora de O Globo até ir para a Inglaterra, onde atuou como diretora da International Herald Tribune TV, chefe do escritório da TV Globo em Londres e jornalista da BBC World Service.